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André Lopes: “O sistema bancário fundou a actividade e a fonte de rendimentos no cambial”

19/12/2016 - 09:02, Banca, Banca, featured

André Lopes, PCE do Banco Yetu, analisa a instituição à qual está vinculado, estendendo-se ao sector, e afirmou que mais de 70% do produto bancário vinha das operações cambiais. Defende a concessão de crédito por ser mais rentável.

Por Fernando Baxi | Fotografia Carlos Muyenga 

Passado mais de um ano de actividade, como está o Banco Yetu em termos de crédito, depósito e qualidade do activo?

Em princípio, a função creditícia do Banco Yetu é ainda bastante incipiente, isto decorre sobretudo dos enormes constrangimentos que enfermam o aceso ao crédito no nosso País. Existe um conjunto de factores, na maioria dos quais endógenos aos próprios bancos, a limitar o acesso. Refiro-me a questões relacionadas com a qualidade dos projectos e falta de garantias. Muitas vezes os empresários têm bons planos, mas não conseguem dar garantias acrescidas para que os bancos possam mitigar o risco inerente ao crédito. Outro factor tem que ver com o registo e a execução das hipotecas; um aspecto inerente ao registo de propriedade, assim como o funcionamento dos tribunais que asseguram a execução das hipotecas. Em função disso, a aplicação dos recursos do BY não foi ainda direccionada para o crédito.
Qual é a taxa de transformação do Banco Yetu?

O nível do crédito concedido à economia permite-nos ter uma taxa de transformação de pelo menos 6%. É baixa; por isso, entendemos que devemos fazer um esforço. Face à situação, os recursos do Banco Yetu estão a ser, particularmente, orientados para outras aplicações, nomeadamente a dívida pública.

Hoje temos um peso considerável, cerca de 50% dos nossos activos estão aplicados em títulos de dívida pública. Relativamente à carteira de depósito, teve uma evolução considerada acima do expectado, com especial destaque para os meses de Julho e Agosto (2016) quando o BY iniciou a comercialização de um conjunto de produtos de poupança. Refiro-me aos nossos depósitos a prazo Power. Permitiram que a nossa carteira de depósito, que em Outubro de 2015 estava no 26.º lugar, no conjunto dos 28 bancos existentes no mercado, passasse para a 18.ª posição em Julho de 2016. Isso foi consequência do trabalho feito pelas nossas equipas comerciais, no sentido de captação de clientes.

E relativamente ao activo?

Sendo um banco novo, estamos a implementar uma gestão financeira, quer do ponto de vista dos investimentos, como do financiamento, de forma a assegurar um crescimento sustentável do activo que é, fundamentalmente, composto pela liquidez; disponibilidade do banco; crédito de aplicação feita no sistema financeiro, especificamente os títulos de dívida pública e também pelo imobilizado. Iniciou na ordem dos 3 mil milhões Kz, no fundo era este o valor do capital social, e no final de Setembro (2016) chegou à fasquia dos cerca de 14 mil milhões Kz. Há aqui uma subida do activo, reflexo do crescimento da carteira dos depósitos.

Os números avançados vão ao encontro das expectativas que motivaram a criação da instituição?

Sim! Temos tido uma política rigorosa de prestação de contas.A comissão executiva deve, em primeiro lugar, prestar contas ao conselho de administração, mas também aos próprios accionistas e naturalmente aos órgãos reguladores da nossa actividade.

Os números que temos tido a oportunidade de confrontar com as nossas expectativas, nomeadamente o orçamento, apontam para uma aceleração daquilo que é o período de recuperação do investimento.Deve-se, fundamentalmente, ao facto de estarmos a aplicar uma política cuidada a fim de evitar custos de estrutura elevados.

Deste modo, assegurarmos o permanente equilíbrio da estrutura financeira. Portanto, se o banco continuar a implementar esta estratégia, inserida no plano de negócios, o nível de execução será melhor e nos permitirá recuperar o investimento antes da data prevista que seria no início do quarto ano de actividade.

Quais foram as principais dificuldades encontradas durante o primeiro ano de actividades?

O primeiro grande desafio que enfrentámos resultou da decisão de estruturar o banco, essencialmente, com capital humano nacional.
Desafiámo-nos a erguer uma instituição financeira com recursos humanos angolanos. Apesar do desenvolvimento do sistema bancário nos últimos anos, a experiência ainda é limitada, por isso depende muito da força de trabalho expatriada. Esse repto trouxe-nos um conjunto de dificuldades que fomos vencendo ao longo do tempo. O contínuo exercício de aprendizagem permitiu-nos assegurar a condução dos destinos do BY, cumprindo com todas as exigências colocadas, quer pelos accionistas e pelo regulador.

Também permitiu uma redução da pressão que teríamos se, eventualmente, tivéssemos feito a contratação de força de trabalho expatriada.
Mas não quero com isso dizer que só erguemos o banco com esses recursos. Naturalmente foi sempre necessário fazer recurso à consultoria para a instalação das soluções informáticas e core do banco porque ainda depende muito da consultoria externa. Nesse domínio há pouco a fazer.

Para além dos mencionados, existiram outros desafios no decorrer do exercício inaugural?

O outro desafio foi lidar com os efeitos da crise económica e financeira que assola o nosso País, sobretudo os resultantes da escassez de divisas. Como sabemos, foi até há bem pouco tempo o primeiro e principal instrumento de viabilização da actividade dos bancos em Angola. No fundo, a fonte geradora de mais-valias e também o mecanismo mais utilizado para captar, reter clientes e depósito.

O BY, ao ter surgido numa altura em que aquela realidade deixou de ser um facto, teve de orientar a sua estratégia no desenvolvimento de outros dois vectores que sustentam a actividade dos bancos. As instituições bancárias existem para realizarem actividades no mercado cambial; mas sobretudo para conceder crédito à economia e eventualmente ao próprio Estado, através de instrumentos de dívida pública. Foi aqui que maximizámos a utilização dos nossos recursos.

Temos procurado fazer uma gestão cuidada dos poucos recursos cambiais. Como já disse, o crédito à economia não atingiu ainda os mínimos pretendidos. A principal alavanca do produto bancário têm sido os proveitos de instrumentos financeiros. O futuro da banca nacional passa pela criação de instrumentos para alavancar o crédito.

Qual é a estratégia do Banco Yetu para minimizar os impactos da crise?

Tal como referi, temos fundado a nossa actividade, essencialmente, na aplicação em instrumento de dívida pública. Com o advento do mercado de capitais, o BY também terá uma participação, a fim de diversificar as fontes de aplicação de recursos.

Até aqui, foi nos instrumentos de dívida pública que se conseguiu resolver as principais necessidades de viabilização da nossa actividade. Mas também concedemos alguns créditos que acabaram por resultar em proveito para o banco.

Com os recursos cambiais obtidos procurámos também tirar partido deles, direccionando para clientes com envolvimento bancário na nossa instituição. Estamos em crer que deste modo temos procurado, do lado da receita, assegurar fluxos que permitam garantir o pagamento das principais responsabilidades do banco.
Quanto às despesas, temos sido cautelosos, do ponto de vista da política de investimentos. Como está o processo de expansão do número de agências?
O BY no plano de negócios não prevê muitos investimentos em agências.

Pretendemos, sim, uma proximidade com os clientes. Mas, pelo facto de sermos um banco voltado para os segmentos corporate e private banking, não nos obriga ter muitas agências. Pretendemos criar outros mecanismos de proximidade com os clientes alvo da nossa instituição, através dos instrumentos de banca electrónica. Lançámos o Internet banking, que irá constituir a alavanca importante na direcção deste objectivo. Doseando os investimentos em capital fixo e aplicando os recursos de forma prudente, será possível ao banco fazer esse trajecto em que há maiores dificuldades.

Em função do resultado, orientamos a nossa política de investimento para evitar distorções no equilíbrio na estrutura financeira. Por isso aplicamos a estratégia de expansão de forma prudente e sustentável, minimizando os custos de estrutura, articulando a presença física com alguma disponibilização de instrumento moderno de banca electrónica.

Apesar de o Banco Yetu estar focado no corporate e private banking, há possibilidade de entrar em outros segmentos de negócios?

Sim! Em princípio temos como foco estes dois segmentos, mas desde logo, fomos também dizendo que iríamos praticar alguma banca de retalho para fazer face e apoiar os programas do Executivo, nomeadamente o programa Banquita que o Banco Nacional de Angola (BNA) desenvolve com vista o aumento dos níveis de bancarização. Se em Luanda o apoio à actividade de retalho pode estar mais dependente da proliferação de agências, em algumas províncias do País não é bem assim.

É possível com poucos investimentos fazer também alguma banca de retalho. Claramente, o BY não pensa apenas e exclusivamente ficar no corporate banking e private banking. Aí onde a necessidade do mercado exigir e as circunstâncias nos impuserem vamos também atender.

Já se pode falar em crédito malparado no Banco Yetu em ano de actividade?

O primeiro grande desafio que enfrentámos resultou da decisão de estruturar o banco com capital humano nacional deve ser de qualidade. As estruturas internas que lidam com o crédito devem obedecer aos princípios definidos no nosso manual de crédito. Este determina claramente as regras para o acesso, as garantais mínimas requeridas a fim de os mutuários terem um crédito aprovado.

Além disso também há um modelo de governação instituído que permite acautelar o crédito malparado. Mas, de qualquer modo, uma coisa são as regras e os princípios, outra é a realidade, e para fazer face à eventualidade estamos a aplicar os mecanismos de prudência e regulamentos instituídos que obrigam os bancos a constituir provisões de crédito mesmo não estando ainda em mora.

Quer dizer que podemos ter sempre uma almofada para fazer face a eventuais constrangimentos que possam existir na nossa carteira de crédito.

Neste caso, qual é o valor constituído para provisões?

O valor das provisões neste preciso momento corresponde, sensivelmente, a cerca de 6% da carteira de crédito.

Quais são os sectores da economia a que o Banco Yetu concedeu mais crédito?

Até ao momento temos estado a garantir crédito de forma mais ou menos equilibrada. Não podemos dizer que tenha sobressaído um sector. Concedemos créditos a particulares e a empresas, privilegiamos um envolvimento bancário para que os clientes possam ter acesso ao crédito.

O mais importante é ter bons projectos, sobretudo os que possam contribuir para o programa de diversificação da economia. Portanto, se os projectos forem viáveis e sustentáveis, independentemente dos sectores, temos condições de conceder crédito. Não há no nosso plano de negócios uma estratégia direccionada para sectores específicos. O mais importante é estar perante propostas de qualidade, viáveis e sustentáveis no prazo.

Quando a vossa instituição fará parte do programa do Executivo Angola Investe?

Estamos a finalizar este processo. Depois de o conselho de administração do banco ter aprovado a proposta de adesão ao programa Angola Investe, foram feitos os contactos com o Ministério da Economia. Estamos na fase da assinatura dos acordos, inclusivamente o banco já está a receber algumas propostas de créditos cuja perspectiva de financiamento será o Angola Investe.

Acreditamos que nos próximos dias teremos esses contratos assinados com os ministérios da Economia e das Finanças, rapidamente teremos condições para dar início à concessão de crédito, contando com as garantias do Angola Investe.

A concorrência no sector bancário é forte. Que produtos e serviços o Banco Yetu oferece, capaz de se impor no mercado?

Do ponto de vista dos produtos, temos os nossos depósitos a prazo Power, cujo lançamento iniciámos há algum tempo e têm em vista a captação de poupança da população. Remunerá-los de acordo com taxas consideradas atractivas para as várias situações possíveis de existir no mercado, quer sejam empresas ou particulares.

Há um conjunto de produtos que o BY tem à disposição dos clientes que vão permitir captar poupanças comvista a dar corpo a esta necessidade.
É através da captação de depósitos que os bancos conseguem realizar a sua actividade. É aqui que queremos fazer a diferença pelo facto de sermos um banco novo.

Outro factor diferenciador tem que ver com a gestão absolutamente cuidada dos nossos activos e passivos. É fundamental que a política de investimento esteja sempre em conjugação com os recursos para assegurar o equilíbrio financeiro e permitir o banco a todo o momento fazer face aos compromissos. Procuramos manter uma estrutura de balanço, suficientemente equilibrada que nos permita prestar um serviço de qualidade e intempestivo aos nossos clientes.

Como caracteriza o sistema bancário angolano hoje?

O sector bancário atravessa um período difícil, em consequência da crise económica e financeira.O sistema bancário fundou a actividade e as fontes de geração de rendimentos fundamentalmente no cambial. Quando olhávamos para as demonstrações financeiras dos bancos, víamos que 70% do produto bancário era originário de operações cambiais. Com a redução destas, a estrutura do balanço e particularmente das demonstrações de resultados dos bancos alterou, ou seja, os proveitos resultantes do mercado cambial começaram a reduzir e consequentemente os lucros diminuíram. Perante um quadro desta natureza, acrescido pelo aumento do crédito malparado, os bancos passaram a ter mais dificuldades.

Qual é a situação dos bancos, face à realidade acima apontada?

Quando olhamos de forma mais cuidada para o balanço de alguns bancos nota-se que poucos têm activos líquidos, contrastando com os passivos exigíveis imediatamente. Isto coloca um problema de desequilíbrio da estrutura financeiro e pode redundar em dificuldade de liquidez. O desafio que os bancos têm nos próximos tempos é de alterar a situação, ajustando o modus operandi para priorizar aquelas actividades que hoje estão disponíveis, nomeadamente o crédito, que até são mais rentáveis.

As taxas de remuneração são mais elevadas, em relação às aplicações feitas no mercado de títulos de dívida pública ou ainda no próprio mercado cambial. O BNA definiu um spread máximo entre a taxa de câmbio de compra e taxa de câmbio de venda que não pode passar os 3%. Quer dizer que também estamos a falar de taxas reduzidas. Só mesmo numa circunstância de volume muito elevado de negócio cambial, permitiriam grandes margens de lucro.

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