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Carteiras de crédito dos quatro maiores bancos em queda

15/12/2017 - 09:37, Banca, featured

Carteiras de crédito dos quatro maiores bancos privados recuam quase 20% no terceiro trimestre deste ano, face ao homólogo. Na origem da queda pode estar o facto de terem sido feitas amortizações, mas o principal ‘culpado’ é o conservadorismo das instituições, que hesitam em financiar a economia, preferindo comprar dívida ao Estado.

Por Fernando Baxi

Os quatro principais bancos comerciais privados do sistema financeiro angolano apresentaram uma evolução negativa nas suas carteiras de crédito no terceiro trimestre , face ao período homólogo, de acordo com cálculos do Mercado baseados nos balancetes das instituições referentes ao período compreendido entre Julho e Setembro deste ano.

Até ao terceiro trimestre de 2017, o grupo composto por Banco Millennium Atlântico (BMA), Banco Angolano de Investimento (BAI), Banco BIC e Banco de Fomento Angola (BFA) detinha uma carteira de crédito na ordem de 1,3 mil milhões Kz, reflectindo um decréscimo de 19,3%, face ao homólogo.

O decréscimo corresponde a cerca de 310,7 mil milhões Kz, montante superior às carteiras de crédito de BIC e BFA, duas instituições bancárias na linha da frente na aquisição de títulos da dívida pública. No caso do BIC, a dívida pública representa cerca de 55,1% do activo, enquanto no BFA equivale a 55,4%.

No grupo em análise, o BMA é o maior credor no sistema bancário, com um volume de crédito estimado em 428,06 mil milhões Kz, ou seja, 32,95% do total dos quatro bancos. O BAI tem uma quota de 27,93%, o BIC, de 23,11%, enquanto a do BFA – o mais lucrativo – é de 16%.

Apesar de o BMA ter a maior carteira de crédito, esta teve um recuo de 3,4% no terceiro trimestre, face ao período homólogo. No BAI, o decréscimo foi de 0,58%, no BIC, de 8,3%, e no BFA, de 12,9%.

Bancos protegem-se do malparado

A fraca concessão de crédito bancário tem suscitado discussão entre especialistas, que denunciam a falta de vontade e interesse por parte das instituições bancárias, com a ‘cumplicidade’ do Estado (por ser o principal tomador do financiamento da banca) em ceder crédito à economia.

“As instituições financeiras bancárias estão numa zona de conforto criada pelo próprio Estado, que se socorre dos bancos de grande dimensão para obter financiamento, através da emissão de títulos da dívida pública, a fim de fazer face ao défice orçamental”, declara Adriana P. Fonseca, mestre em Finanças Internacionais.

Para Adriana Fonseca, a conjuntura macroeconómica deixou de ser desculpa para justificar a fraca concessão de crédito,  porque  “há  sinais  de  valorização  do  crude  nos  mercados internacionais. Empresários sul-africanos estão interessados em investir cá”, diz, alertando que os bancos se preocupam mais com os cambiais. “Hoje, os bancos deixaram de exercer a sua actividade originária , que é a intermediação bancária (captação de depósitos e concessão de créditos). Vivem da aquisição de títulos de dívida pública e outros negócios, menos os tradicionais”, afirma.

Artur de Brito, contabilista com experiência bancária, diz que a evolução negativa da carteira de créditos e poderá dever–se a três razões: “Vencimento do crédito, pagamento ou aumento das provisões para crédito malparado”, diz, reconhecendo haver, por parte da banca, cautelas na concessão de crédito.

“Nesta fase, as empresas têm dificuldades em honrar os compromissos com os bancos, que encontram dificuldades para recuperar o capital investido, porque não há garantias reais. Logo, as instituições financeiras devem ser ponderadas”, afirma Artur de Brito.

Depósitos também ‘encolheram’

Também no período em análise, as instituições acima descritas registaram uma evolução negativa nas suas carteiras de depósitos, com a excepção do BMA, onde aumentou 5,28%, que passou a ser o terceiro maior do sistema neste indicador, ultrapassando o BIC, que recuou 10,18%.

A carteira de depósito do BAI, considerado o maior banco comercial no segmento privado, recuou 5,02%, ao passo que a do BFA, maior ‘apoiante’ do Estado relativamente à aquisição de títulos de dívida pública, diminuiu 2,9%, face ao período homólogo.

A evolução das carteiras de crédito e depósitos teve influência no rácio de alavancagem dos respectivos bancos, no terceiro trimestre, em relação ao exercício homólogo.
No BMA, embora tenha havido uma evolução positiva na carteira de depósitos, o rácio de transformação foi de 53,8%, que representa um recuo de 4,7 pp. No BAI, passou de 31,5% para 32,95%, ou seja, cresceu 1,5 pp. No BIC, passou de 38,8% para 39,9%, reflectindo uma subida de 1,1 pp. No BFA, fixou–se em 19,5%,menos 2,3 pp.

A fraca alavancagem de crédito dos quatro principais bancos, segundo especialistas, principalmente do BFA, ilustra que eles têm liquidez, pela carteira de depósitos, apesar da evolução apresentada até ao terceiro trimestre de 2017, mas continuam a não se mostrar interessados em conceder crédito à economia, o que já levou o BNA a tomar medidas.

“Rácio de transformação baixo é sinónimo de menores riscos das instituições financeiras, mas não de eficiência, porque os bancos não estão focados na prática de banca universal e de retalho, cujos resultados derivam das captações de depósitos e concessão de créditos”, defende Rafael Simões, formado em Contabilidade e Auditoria.

Apesar de nunca se ter feito um estudo para fixar o rácio de transformação de depósitos em crédito ideal, Rafael Simões defende que, por uma questão de “bom senso”, os bancos comerciais podem chegar a 65%-70% e, em casos extremos, a 95%. “Torna-se preocupante para um banco ultrapassar os 100%”, alerta.

Para Emanuel Domingos, diplomado em Gestão Bancária, os bancos comerciais são conservadores relativamente à concessão de crédito. Optam por financiar projectos com taxas de juro elevadas e risco nulo. “Este é um hábito considerado velho”, afirma.

Os principais bancos comerciais angolanos, concorda Emanuel Domingos, investem mais na aquisição de títulos e alores mobiliários do que na concessão de crédito.

Embora os rácios de transformação dos bancos estejam longe de gerar rentabilidade, o volume de crédito concedido nunca deverá ser superior ao das poupanças captadas de clientes, porque pode pôr em causa a estabilidade, afirma o também docente universitário.

Distribuição de divisas vs.créditos

Os quatros bancos comerciais teriam dificuldade em obter divisas para a cobertura de operações privadas com viagens, ajuda familiar, salário de expatriados, viagens, educação e saúde, se o novo critério do BNA fosse implementado no terceiro trimestre, tendo em conta a captação de depósitos e concessão de créditos.

“A quota de mercado resulta da divisão da soma do valor dos depósitos e crédito líquido de provisões atribuíveis ao segmento de particulares em moeda nacional e estrangeira de cada banco pelo total de depósitos crédito líquido das provisões do mercado para esse segmento e é calculada utilizando os dados do fecho contabilístico do mês procedente”, refere o número 2 da Directiva n.º 07/DMA/2017.

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