Mercado

Bancos centrais fora do jogo

10/09/2015 - 14:31, Banca, Banca

Desde 2008 que Fed, BCE, BoE, Banco do Japão ou da China têm feito tudo por tudo pela economia. Chegou o momento em que não podem fazer mais nada?

Por AMS/Bloomberg | Fotografia Bloomberg 

Nunca, em nenhum outro momento da história, os bancos centrais estiveram tão envolvidos com a economia e com os mercados como agora. Ben Bernanke , e depois Janet Yeller, têm feito tudo por tudo pela estabilidade financeira dos Estados Unidos. Na Europa, Mario Draghi  garantiu, e tem feito, “tudo o que fosse preciso” para salvar o euro. O Banco de Inglaterra tem sido escrupulosamente prudente. O Banco da China tem feito um esforço gigantesco para segurar uma economia em queda que se alastra ao mundo. E depois de terem feito tudo por tudo, será que não podem fazer mais nada? Até agora vistos como heróis pelos investidores, os bancos centrais foram apanhados de surpresa pela queda global de acções.
No momento em que escrevemos este texto – em vésperas do “Simpósio de Política Económica de Jackson Hole”, no Wyoming, promovido pela Reserva Federal norte-americana (Fed) – quase que nos apetece arriscar que nada se alterará.
Ainda assim, em Jackson Hole, terá lugar o mais esperado encontro de política monetária do mundo, marcado por algumas ausências. Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal, não vai. A substituí-la vai estar o vice-presidente da Fed, Stanley Fischer. No entanto, Yeller não é a única ausência relevante, Mario Draghi também não está, será representado pelo vice-presidente do BCE, o português Vítor Constâncio. Entre estas duas importantes ausências, destaca-se a presença de Mark Carney, o canadiano, governador do Banco de Inglaterra. E pouco mais. A adesão a este encontro é tão pouco entusiasmante quanto o estado actual da economia do mundo. Primeiros sinais de alguma incapacidade? A ver vamos.

Menos ferramentas para reagir à crise
Os banqueiros centrais, que salvaram a economia global em 2008, e evitaram que sua anémica recuperação fosse interrompida, agora contam com cada vez menos ferramentas para reagir se a crise mundial das acções piorar.
“Os banqueiros centrais parecem expostos, e os mercados já não têm em que acreditar”, disse Alberto Gallo, do Royal Bank of Scotland Group, em Londres.
Um exemplo é o descalabro do  Shanghai Composite Index, mesmo depois de o Banco Popular da China ter reduzido os custos dos empréstimos e a proporção de reservas dos bancos. O índice perdeu metade de seu valor desde meados de Junho e está a acentuar o prejuízo – os piores cinco dias das últimas duas décadas.
Más notícias para Jackson Hole. Discutir a inflação e as taxas de juro vai deixar de ser a prioridade, com os mercados a dominarem as conversas nas salas e nas caminhadas pelos bosques circundantes.
Os investidores estão assustados com a falta de retorno económico e pela enorme quantidade de estímulos pouco ortodoxos entretanto injectados na economia, disse Michala Marcussen, do Société Générale. “As autoridades monetárias, actualmente, possuem uma munição menos efectiva para atacar os riscos de baixa”, disse Marcussen. Em contraste com a crise anterior, “não há nenhum consolo visível nos activos de risco mesmo com  a ideia de que os bancos centrais possam vir a entrar em jogo”.
A caixa de ferramentas não está totalmente vazia. A Reserva Federal poderá adiar o aumento das taxas de juros, enquanto o Banco Central Europeu e o Banco do Japão poderão reforçar o QE (Quantitative Easing). A China tem mais algum espaço para estímulos, considerando que a sua taxa básica de juros é de 4,6%.
Questionar a força dos bancos centrais reflecte-se, no entanto, na elevação de taxas de juros anteriormente ajustadas pelo recente pessimismo das expectativas de inflação, segundo George Saravelos, do Deutsche Bank AG. O argumento é que, se os mercados confiassem mais nos bancos centrais, estariam a apostar numa inflação mais rápida – o que tem por objectivo as taxas de juro a zero e a compra de títulos de dívida – os juros reais caíam e com isso uma consequente melhoria das condições financeiras. “O mercado perdeu  a  fé e a credibilidade dos bancos centrais”, disse Saravelos.

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