Mercado

Água mais “preciosa” da Huíla expande-se no mercado nacional

15/11/2016 - 09:05, Business

“O gado engorda com o olhar do dono”, diz o bem-humorado empresário e economista Valdemar Ribeiro ao falar da fábrica Água a Preciosa, que iniciou a produção em 2014.

Por João Agostinho 

A fábrica é propriedade das Organizações Amaral Ribeiro, também detentoras da marca de restaurantes O Regente, que construiu e administrou duas unidades no Lubango, outras duas em Luanda e o mesmo número no Rio de Janeiro, Brasil. Com mais de 25 anos de experiência no mercado, decidiu apostar nesta franja, que considera de indústria alimentar, em que mantém como lema a saúde pública.

Com um financiamento de 6,5 milhões USD do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) e um investimento total mais de 10 milhões, começou a construção da fábrica num terreno de 230 hectares no total.

“O projecto baseia-se em três pilares fundamentais – económico, social e ambiental – cumprindo as regras da economia moderna internacional”, afirma Valdemar Ribeiro.

A fábrica tem como cerne a água de nascente filtrada pela montanha denominada Serra da Chela, a mais de dois mil metros de altitude e captada no “Esporão da Humpata”, um aquífero com 500 metros de profundidade.

A água, qualificada como “levíssima de nascente natural montanhosa”, é captada em câmaras na total escuridão, num cenário medieval a fazer recordar as velhas catacumbas. A falta de luz é importante para evitar a fotossíntese, que levaria à proliferação de microrganismos, à contaminação e perda da pureza da água.

O líquido é filtrado e engarrafado em unidades PET de 1,5 e 0,5 litros, numa linha com capacidade para sete mil garrafas por hora. Valdemar Ribeiro, que, com Maria da Conceição Amaral e Gonçalo Alexandre Pinto, forma as Organizações Amaral Ribeiro, afirma que a fábrica não deve ser considerada no ramo das indústrias de bebidas. Para ele, trata-se de um “alimento líquido”.

A única linha de enchimento existente, de fabrico italiano, é toda automatizada, sem qualquer contacto humano que pudesse resultar em contaminação. Além disso, a água é testada em laboratório ao fim de cada sessão, e uma amostra do produto é guardada durante dois anos. As máquinas também são desinfectadas todos os dias.

A sala de filtragem é considerada “o nosso segredo” pelo empresário, que se gaba do facto de não haver qualquer tratamento com produtos químicos.
O foco principal da fábrica é a “saúde pública”, garante Valdemar Ribeiro.

Antes de enchidas, as garrafas, embora acabadas de formar, são lavadas com a mesma água da fonte, ao que se segue o fechamento, rotulagem e selagem. Depois de embalados, os recipientes seguem em paletes para o armazém, onde são separados de acordo com o tamanho: 1,5 litros de um lado, 0,5 de outro.

Os empilhadores que movimentam as paletes dentro da fábrica são eléctricos, para impedir qualquer contaminação, assim como não é permitido o carregamento para venda de camiões sujos, com cheiros, poeiras ou gases.

Trabalhadores motivados

A motivação dos trabalhadores faz parte dos padrões da empresa, diz o empresário, numa referência à paragem relativa que tiveram de fazer na produção devido às dificuldades de obter divisas para a aquisição de pré-formas das garrafas e respectivas tampas.

A fábrica, que já trabalhou com turno e meio por dia em 2015, teve de baixar a produção para um dia por semana apenas. Nenhum funcionário foi despedido. “Mantivemo-los a todos com o salário em dia”, afirma Valdemar Ribeiro.
A dispensa de pessoal requer perda de pessoal formado e, em caso de retoma, novos recrutamentos, com a necessária formação.

O gestor brinca com a postura da maioria dos técnicos, todos em pé, quase em sentido, atentos ao processo, em cada fase do engarrafamento. “Até parece que não fazem nada, não é?”, questiona-se a sorrir, para ele mesmo dar a resposta: “Estão todos a trabalhar!” Na fábrica, diz: “Ensinamos os nossos técnicos a ‘falar’ com as máquinas. É preciso ouvi-las para evitar ou prever falhas.”

Por causa das oscilações na rede eléctrica da província, a produção é mantida em pleno por um gerador de 500 KVA. Impressionante é a limpeza à volta deste dispositivo. Não se vê réstia de poeira. Questionado, o empresário afirma que o “rigor é um dos segredos”.

Letreiros com apelo ao rigor pelos funcionários podem ler-se em quase todas as portas da fábrica. Dizem: “Seja 100% rigoroso”. Aos 40 técnicos, todos angolanos, em funcionamento na fábrica foi exigida formação técnica básica, razão que deve estar na base do facto de faltarem candidaturas femininas. Aos funcionários são servidos almoços e lanches. “Não podemos estar a trocar de pessoal a toda a hora. Temos de mantê-los dedicados e focados”, diz o empresário.

Preservar o ambiente

O economista enfatiza a questão ambiental. “Se esta água está aqui há milhões de anos, porque não estará daqui a cem, duzentos ou mil anos?” – questiona-se. Para ele, “a água mineral existe numa quantidade quase infinita e cuja mina está no terreno do projecto”, o que, além de representar “um valor acrescentado e muito precioso”, lhe confere uma responsabilidade maior em termos de conservação da natureza.

As normas internacionais obrigam a que se mantenha um quilómetro de raio à volta da nascente para evitar o movimento de animais, aqui conhecido como transumância. O perímetro foi cercado a uma distância de 2 mil metros, afirma Valdemar Ribeiro, que se apresenta como um defensor da natureza. “Temo-la aqui à volta”, frisa.

A mata de médio porte com mais de 230 mil hectares, conservada e resguardada de incendiários e onde é proibido cortar árvores, é considerada reserva natural nativa e alberga hoje mais de 15 espécies de animais silvestres, como bâmbis, coelhos, serpentes e águias.

A sala de filtragem é considerada “o nosso segredo” pelo empresário, que se gaba do facto de não haver qualquer tratamento com produtos químicos.
O foco principal da fábrica é a “saúde pública”, garante Valdemar Ribeiro.

Antes de enchidas, as garrafas, embora acabadas de formar, são lavadas com a mesma água da fonte, ao que se segue o fechamento, rotulagem e selagem. Depois de embalados, os recipientes seguem em paletes para o armazém, onde são separados de acordo com o tamanho: 1,5 litros de um lado, 0,5 de outro.

Os empilhadores que movimentam as paletes dentro da fábrica são eléctricos, para impedir qualquer contaminação, assim como não é permitido o carregamento para venda de camiões sujos, com cheiros, poeiras ou gases.

Trabalhadores motivados

A motivação dos trabalhadores faz parte dos padrões da empresa, diz o empresário, numa referência à paragem relativa que tiveram de fazer na produção devido às dificuldades de obter divisas para a aquisição de pré-formas das garrafas e respectivas tampas.

A fábrica, que já trabalhou com turno e meio por dia em 2015, teve de baixar a produção para um dia por semana apenas. Nenhum funcionário foi despedido. “Mantivemo-los a todos com o salário em dia”, afirma Valdemar Ribeiro.
A dispensa de pessoal requer perda de pessoal formado e, em caso de retoma, novos recrutamentos, com a necessária formação.

O gestor brinca com a postura da maioria dos técnicos, todos em pé, quase em sentido, atentos ao processo, em cada fase do engarrafamento. “Até parece que não fazem nada, não é?”, questiona-se a sorrir, para ele mesmo dar a resposta: “Estão todos a trabalhar!” Na fábrica, diz: “Ensinamos os nossos técnicos a ‘falar’ com as máquinas. É preciso ouvi-las para evitar ou prever falhas.”

Por causa das oscilações na rede eléctrica da província, a produção é mantida em pleno por um gerador de 500 KVA. Impressionante é a limpeza à volta deste dispositivo. Não se vê réstia de poeira. Questionado, o empresário afirma que o “rigor é um dos segredos”.

Letreiros com apelo ao rigor pelos funcionários podem ler-se em quase todas as portas da fábrica. Dizem: “Seja 100% rigoroso”. Aos 40 técnicos, todos angolanos, em funcionamento na fábrica foi exigida formação técnica básica, razão que deve estar na base do facto de faltarem candidaturas femininas. Aos funcionários são servidos almoços e lanches. “Não podemos estar a trocar de pessoal a toda a hora. Temos de mantê-los dedicados e focados”, diz o empresário.

Preservar o ambiente

O economista enfatiza a questão ambiental. “Se esta água está aqui há milhões de anos, porque não estará daqui a cem, duzentos ou mil anos?” – questiona-se. Para ele, “a água mineral existe numa quantidade quase infinita e cuja mina está no terreno do projecto”, o que, além de representar “um valor acrescentado e muito precioso”, lhe confere uma responsabilidade maior em termos de conservação da natureza.

As normas internacionais obrigam a que se mantenha um quilómetro de raio à volta da nascente para evitar o movimento de animais, aqui conhecido como transumância. O perímetro foi cercado a uma distância de 2 mil metros, afirma Valdemar Ribeiro, que se apresenta como um defensor da natureza. “Temo-la aqui à volta”, frisa.

A mata de médio porte com mais de 230 mil hectares, conservada e resguardada de incendiários e onde é proibido cortar árvores, é considerada reserva natural nativa e alberga hoje mais de 15 espécies de animais silvestres, como bâmbis, coelhos, serpentes e águias.

Valdemar Ribeiro apresenta como padrão da empresa “a preservação ambiental com uma visão futurista, estética e enriquecedora” e anuncia a energia solar como possível fonte alternativa.

Impacto social

A fábrica Preciosa procura inserir-se no meio em que está instalada através de vários projectos de impacto social.
A proibição de construção na montanha, com 60 quilómetros de frente e mais de 2 mil metros de altitude pode chocar com as populações locais, cuja sensibilização tem sido feita de modo a preservar o meio.

A empresa estabeleceu uma parceria com a escola de órfãos SOS, localizada no Bairro Comandante Cowboy, com a qual desenvolve projectos na área de formação social, cultural, ambiental e desportiva.

Uma linha eléctrica de três quilómetros foi instalada até à escola e já beneficia moradores locais, que precisam apenas de instalar os postos de transformação. A estrada de três mil metros até à fábrica merece o cuidado permanente da empresa. “É importante para nós”, refere. A empresa possui uma rede de distribuição que atende, sobretudo, o Lubango, com camiões que fazem a distribuição porta a porta. “Mas beneficia todos.” Camiões-cisterna de vários pontos da cidade recolhem água tratada não engarrafada na fábrica a custos bonificados.

Com o exemplo do que foi a construção da base do empreendimento, que teve grande participação de trabalhadores locais, a empresa aposta ainda na criação, num futuro breve, de uma escola para alfabetização de adultos em que serão criados cursos profissionais.

A Preciosa apoia ainda o Clube Desportivo da Chibia, que é, ainda, “uma agremiação pequena, mas vai crescer”.

Crime ambiental

O compromisso de Valdemar Ribeiro, homem que estudou em Portugal, formou-se no Brasil, países em que trabalhou como professor universitário e executivo de empresas, com a terra que viu nascer nota-se a cada palavra.

“É de nós que vai sair uma Angola melhor”, afirma o empresário, preocupado com o baixo nível de aproveitamento do imenso recurso que é o manancial de água da Chela.

Apenas dois por cento ou menos da água filtrada pela montanha é aproveitada pela fábrica, o que, para ele, constitui um “crime ambiental”. O resto, ou seja, 98 por cento, perde-se. Vai para o rio Ngolo (que significa zebra em umbundu e nyaneka nkumbi). Como o animal listrado, o rio é poluído. A empresa pretende começar em breve a produção de soro fisiológico.

“É um elemento importante para o funcionamento das unidades hospitalares, sem respaldo na actual indústria nacional”, explica o empresário.

A única saída é o aumento da produção. A Preciosa é responsável por 30 por cento de toda a água de mesa existente no mercado do Sul de Angola. Abrange as províncias da Huíla, Namibe, Cunene, Cuando Cubango e até Benguela.

“Somos uma indústria com poucos custos”, afirma o empresário. “Quanto mais produzirmos, mais competitivos podemos ser.” A competitividade começa ao nível da SADC, onde os produtores angolanos ainda têm dificuldades de penetrar devido a preconceitos, ainda que demonstrem melhor qualidade e preços equiparados. É preciso bater possíveis adversários nesse último item. A nível interno, os níveis de produção também se revelam baixos.

“Uma linha já é muito pouco. Necessitamos crescer para baratear os preços”, afirma. O sonho de Valdemar Ribeiro “é ver aqui quatro, cinco, seis linhas de enchimento”. Mas, de imediato, bate-se por uma segunda linha de enchimento, duas ou três vezes maior que a actual, para o que precisa de um investimento de 3,5 milhões EUR, assim como uma máquina de fabrico de pré-formas e tampas das garrafas, no valor aproximado de 1 milhão USD, além de um técnico qualificado, só possível de encontrar no estrangeiro.

A questão das pré-formas e tampas é de suma importância, pelo volume ocupado pelo produto importado nos padrões actuais. “Os contentores trazem 4/5 de ar”, diz o empresário, para quem isso é um verdadeiro desperdício.
O BDA é, segundo o empresário, o parceiro desejado, devido aos juros baixos (menos de 7 por cento), se comparados com os bancos comerciais, que valorizam o imediatismo, sem o devido acompanhamento dos investimentos feitos. Outras hipóteses não são, entretanto, postas de parte, no óbvio interesse da sociedade.
Para a instalação da segunda, a fábrica, cuja marca está registada no Instituto Angolano de Patentes Industriais (INPI) há mais de 20 anos, “já está tudo preparado, incluindo a parte eléctrica”, garante. A montagem duraria menos de seis meses.

Valdemar Ribeiro não se considera por enquanto um empresário de sucesso, diz que, se o fosse, “não acordaria todos os dias às quatro da manhã a pensar como resolver esta e aquela situação”, valorizando o rigor em todas as tarefas que desempenha. Diz ainda que, se o gado engorda com o olho do dono, uma indústria só cresce com cem por cento de rigor.

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