Mercado

Bernardo Hees, o brasileiro que espreme a Kraft Heinz Co.

03/09/2015 - 14:45, Business, Distribuição

A terceira maior empresa alimentar norte-americana, a Kraft Heinz, que resultou da recente fusão da Kraft Foods e da Heinz, vai eliminar 2500 postos para economizar 1,5 mil milhões USD de custos anuais.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Bloomberg

Cortar, cortar, cortar, é uma estratégia de gestão que o actual CEO da Kraft Heinz, o carioca Bernardo Vieira Hees, executa com uma bonomia implacável. A empresa vai dispensar 5% da sua força laboral, que se traduzem em 2500 dos seus 46 mil trabalhadores espalhados pelo mundo, no que se pode chamar de uma história de despedimentos anunciados, porque todos sabem que estes cortes são parte das iniciativas de redução de custos pós-fusão – a companhia pretende economizar cerca de 1,5 mil milhões USD de custos anuais. E todos sabem que esse é o método da empresa brasileira 3D Capital (que, com a Berkshire Hathaway, de Buffett, detinha a Heinz e promoveu esta fusão, detendo agora a maior parte da Kraft Heinz). Mais do que isso: Hees tem dado a cara por esta estratégia em todas as empresas por onde passou – demissões generalizadas (leia-se despedimentos), orçamentos mais baixos, níveis de austeridade intensivos e mudança corporativa com a emergência de “novos talentos” é a metodologia.
Mas não se pense que isto é um jeito brasileiro de ser governance. Quando um dia confrontaram Jorge Paulo Lemann (o co-fundador da 3D Capital) com este modelo, ele não hesitou em dizer que aprendeu com os melhores, com os americanos, e citou, entre vários, Sam Walton, o fundador da WalMart. Também Charles Munger, vice-presidente da Berkshire Hathaway, apoiou a decisão e disse que a medida era essencial para um sistema capitalista produtivo. “O processo para a integração das duas empresas e o projecto da nova organização está em marcha”, disse Michael Mullen, porta-voz da Kraft Heinz. “Desenvolvemos uma estrutura para simplificar, fortalecer e alavancar a dimensão da empresa.” Michael Mullen referiu ainda que a Kraft Heinz lamenta o impacto dos cortes dos postos de trabalho nas famílias e diz que a empresa irá dar um mínimo de seis meses de indemnizações por despedimento.
Da sede da Kraft, em Northfiel, Illinois, vão ser dispensados 700 trabalhadores. Aliás, fala-se que a sede da companhia vai passar para Chicago, para um edifício mais pequeno. Oanúncio deste despedimento massivo levou Dick Dublin, o senador democrata eleito pelo estado do Illinois, a escrever à direcção da Kraft Heinz pedindo para reconsiderarem.
No meio de tudo isto, e segundo a CNNMoney, o Oráculo de Omaha está numa posição desconfortável. Ainda assim, Warren Buffett, que é conhecido pela sua benevolência e filantropia, é também um liberal, e em situações como esta retira-se discretamente e deixa o mercado funcionar. No caso, deixa um carioca com pouco mais de 50 anos fazer o seu trabalho: cortar, cortar. E Hees começa a cortar por cima. Quando chegou à Heinz, disse pessoalmente a 12 dos directores executivos que 11 estavam dispensados. Eliminou 7 mil postos de trabalho em 18 meses. Fechou seis fábricas. Vendeu os aviões corporativos. Enquanto isso, trouxe para a direcção uma equipa da sua confiança, e dizem que é bom a escolher pessoas, que as escolhe pelo “brilhozinho nos olhos”.

Bernardo Vieira Hees
Antes de chegar à Heinz, que dirige desde Junho de 2013, Hees passou pela liderança do Burger King, logo após a rede ter sido comprada pelos seus compatriotas da 3G Capital, os multimilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, donos da AB InBev (o maior produtor de cerveja do mundo, onde trabalha o genro de Bill e Hillary Clinton). Mas se o trio brasileiro tem ajudado Hees na escalada, a verdade é que o executivo tem demonstrado a preparação e a determinação para chegar ao topo. Há mais de uma década que a sua especialidade é meter as mãos à obra em empresas numa situação difícil. Corta regalias e faz inimigos, mas recupera as empresas com resultados incontestáveis, como foi o caso da América Latina Logística (a companhia ferroviária do Brasil), a que presidiu entre 2005 e 2010 e onde conseguiu triplicar receita e quadruplicar o lucro (entretanto, a companhia já despencou, mas isso foi após Hees).
Com estes créditos passa para a Burger King, pela mão de Jorge Paulo Lemann. Nos dois anos e meio à frente da empresa, levou a margem de lucro de 19% para 33% – com o EBITDA (earnings before interest, taxes, depreciation and amortization) a passar de 454 milhões para 653 milhões USD. E levou a empresa de regresso à cotação em bolsa. Com isso, fez os investidores ganharem 1,4 mil milhões USD e deu-lhes margem de manobra – leia-se… dinheiro – para negociarem em parceria com Buffett a compra da Heinz, concretizada em Junho de 2013. Agora, foi dado mais um passo imenso para se chegar à 5.ª maior empresa do mundo do ramo alimentar e de bebidas: a fusão da Kraft Foods com a Heinz transformada em Kraft Heinz Company, onde Warren Buffett e os brasileiros detêm 51% da participação, e a Kraft, 49%.
Os resultados do primeiro trimestre, antes da fusão, não foram brilhantes. As duas companhias perderam em vendas (e lucros): a Kraft cerca de 4,9%, e a Heinz 4,1%, o que pode pôr em risco as expectativas de ganhos anuais de cerca de 26 mil milhões USD. Também por isso a reestruturação da empresa e os inevitáveis despedimentos. A seguir, Hees tem outra tarefa difícil: inovar e crescer nos mercados emergentes – Brasil, China e Rússia, apesar dos ventos adversos.

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1 Comentário

  1. Cammie 25/04/2016 - 15:45

    Me dull. You smart. That’s just what I neddee.

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