Mercado

César Pinheiro – “Vamos servir o sistema financeiro do País como nas grandes praças”

15/10/2015 - 12:02, Business, Tecnologia

O CEO da Microsoft Angola e Moçambique fala dos desafios do mercado das telecomunicações e da capacidade de oferta aos bancos nacionais de softwares utilizado em bancos de primeira linha no mundo.

Por António Pedro | Fotografia Njoi Fontes

Como decorrem as operações da Microsoft em Angola face ao cenário actual da economia?
Não tem sido fácil. Efectivamente, a situação que estamos a atravessar em Angola a nível económico tem algum impacto em termos de operação da própria empresa. Oque acontece é que a Microsoft, por si só, é uma empresa que representa. Obviamente que nós encaramos isso apenas como um ciclo económico que vai acontecer de certo período para certo período. Nós tivemos uma situação muito parecida em 2008 e 2009 e estamos a passar por uma situação também muito parecida neste momento, com a descida do preço do petróleo. Mas, claramente, a Microsoft encara isso como não sendo uma coisa específica de Angola, é um fenómeno da macroeconomia que não acontece só em Angola mas noutros países. Temos também operações na Nigéria, mas a Microsoft continua a ser a mesma, no que diz respeito ao crescimento da sociedade em que opera, como em Angola, com a utilização da tecnologia da Microsoft.

Como tem sido a relação com os parceiros?
Grande parte do negócio da Microsoft em Angola é, de forma geral, no modelo operacional que nós temos para África e mesmo para alguns países europeus e asiáticos. É que parte do nosso crescimento é feito através da nossa rede de parceiros. Obviamente que nós não temos uma estrutura muito grande em Angola, temos a estrutura necessária, mas a ideia efectivamente é nós crescermos também através das parcerias que possuímos com alguns parceiros-chave que temos no mercado. É uma forma também de termos crescimento e ajudarmos também os parceiros a desenvolverem o negócio em Angola. Portanto, de forma geral, a parceria é chave para a Microsoft assim como é chave para os nossos parceiros também, e usufruir de uma forma benéfica entre ambas as partes.

O nível das tecnologias de informação em Angola é comparável a países da SADC?
De forma geral, numa perspectiva pessoal, eu estou em Angola há cerca de seis anos, o desenvolvimento que nós temos a nível das tecnologias da informação tem sido galopante nos últimos anos. Sem dúvida, tem tido um crescimento sustentável. Hoje em dia, com o acesso que nós temos à Internet, é bastante superior ao que tínhamos há alguns anos, e isso tem um impacto muito positivo nesta sociedade, e de facto nós temos vindo a ver que o crescimento tem sido sustentado. Se nós compararmos, isto de acordo com a sua questão, com outros mercados em África, eu diria que nós tivemos uma grande progressão nos últimos quatro a cinco anos, onde de facto ganhámos algum terreno perdido em anos anteriores. Mas, obviamente, a margem de produção ainda é muito grande se compararmos com mercados mais maduros. Mas, seja como for, de uma forma geral, se eu olhar para a população em si, e hoje o acesso que se tem, por exemplo nas redes sociais, o uso do smartphone, o uso de tablets, hoje em dia nós vemos isso quase de forma sintomática na rua com pessoas a utilizarem, e de facto também depreende que a aceitação e a adopção de novas tecnologias têm ocorrido de forma muito mais rápida nos últimos anos do que era 10 anos antes. Portanto, tentando responder de uma forma sucinta àsua pergunta, Angola teve uma progressão muito assinalável de forma positiva nos últimos anos, ehoje em dia já não temos uma grande diferença em termos de IT para outros mercados de África. Háuma paridade bastante grande entre os mercados, e também o acesso facilitado ou mais acessível em termos de uso de Internet, o que ajudou bastante nesta questão de progressão das tecnologias de informação.

A previsão de entrada em órbita do satélite Angosat vai influenciar o mercado das telecomunicações no País?
Não haverá muita influência, narealidade. De uma forma geral, tudo o que é satélite é caro. Isso vai depender do modelo de exploração, mas ainda assim o mercado das telecomunicações por satélite tem um custo mais elevado em relação ao cabo submarino, que tem um custo altíssimo mas é amortizado no tempo de uma forma muito mais rápida do que um sistema de satélite. Portanto, faz sentido termos o satélite angolano Angosat em órbita, nos próximos anos, mas de facto sabemos à partida que parte da solução acontece ainda com ligações internacionais por cabo, com a multiplicação da largura de banda dos canais de fibra óptica, que neste momento existem. Quer a gente acredite, quer não, a capacidade de um cabo submarino é infinitamente superior à de um de satélite. Por exemplo, a questão do cabo de fibra óptica entre Luanda, Fortaleza (Brasil) e EUA dá novas soluções de conectividade que temos para Angola. E claramente que surge para potencializar este mercado onde antes esta componente era complicada, porque não havia infra-estrutura e hoje começa a ser facilitada.

A Microsoft Angola tem capacidade para oferecer ao sistema financeiro os mesmos produtos aplicados às tecnologias nas grandes praças financeiras, nos bancos de primeira linha e nas bolsas de valores?
De uma forma geral, se nós falarmos da questão do segmento financeiro, oil and gas, hoje em dia nós usamos em Angola o que é usado noutros países. Na realidade, as funções são as mesmas. Obviamente podemos dizer que é dentro do que é a oferta da Microsoft. Provavelmente em mercados mais maduros há um maior aproveitamento em termos das capacidades de produto do que em Angola. São exactamente os mesmos produtos, não há diferenças nenhumas, até porque a maior parte dos bancos nacionais tem sempre um parceiro internacional, o que motiva a fazer recurso atecnologias similares para operações financeiras. O que temos no Stantard Bank em Angola pode não ser a mesma coisa que temos no Stantard Bank na África do Sul, o que temos no BFA em Angola não é o mesmo que temos num BPI emPortugal. Portanto, a infra-estrutura é muito parecida, obviamente que há sempre variações de mercado para mercado em termos do que é importante para um banco ou para uma companhia de oil and gas, masde modo geral os produtos sãoexactamente os mesmos. AMicrosoft, para o que representa em termos de produto, está presente em quase todas as empresas, em termos de produtividade, de ferramentas, de licenciamento, de software, embora neste caso haja poucas soluções. Portanto, na realidade, hoje em dia, o que nós temos noutros países é mapeado de uma forma muito idêntica em Angola, não há diferenças. Os produtos tecnológicos que garantimos para Angola são os usados nos mercados mais maduros, seja na Europa, seja nos Estados Unidos da América.
O sector financeiro em Angola está a crescer, a legislação já autoriza a constituição de sociedades de notação de risco, aguardando regulação, e a tecnologia é um factor-chave como nas Fitch, Moody’s eStandard & Poor’s…
Na realidade, não há grandes diferenças nas ofertas que temos naMicrosoft Angola, Microsoft Estados Unidos, na Espanha, na Inglaterra. Temos capacidade para acompanhar estes desafios do mercado. Qualquer empresa que começa a operar em Angola, no segmento financeiro ou não, que na origem utiliza uma determinada série de produtos Microsoft, ela vai ter exactamente o mesmo centro de produtos aqui, em Angola. Portanto, a nível de software não há constrangimento, e aqui serei mais técnico: principalmente neste momento, parte da oferta de produtos de nuvem da Microsoft está a crescer desde que foi lançada, não estava disponível para África. Hoje, posso dizer que tanto o Office 365 como o Heger, que é a nossa plataforma de cloud para ramo empresarial de vírus H300, emais componentes, já está disponível em Angola. Há cada vez menos diferença de oferta de país para país em termos de software.

Poderá haver oferta de suporte tecnológico para alguns intervenientes do mercado de acções da BODIVA, quando arrancar, como acontece nas bolsas de Nova Iorque, de Londres ou Xangai?
Vai ser exactamente aquilo que a Microsoft, face à experiência que tem, oferece a nível internacional. Somos uma multinacional muito grande. Na realidade, quando há necessidade, trazemos recursos de fora mais especializados, no mesmo segmento, para fazer a solução igual. A questão da bolsa de valores vai existir, o projecto está em curso e será uma realidade. Não falta muito tempo para ser uma realidade, e claramente a Microsoft irá dar todo o apoio localmente, para que seja um sucesso. Nãoháconstrangimento nenhum relativamente a esta preocupação.

Qual é o volume de negócio nos últimos seis anos?
Como estamos cotados em bolsa, fazemos uma comunicação trimestral. A cada trimestre, a Microsoft comunica os resultados. Nenhuma Microsoft pode fazer a comunicação de resultados em termos de compliance. A companhia não pode fazer, porque não é um canal oficial, quando tem de se falar de facturação, impostos, resultados líquidos, resultados brutos. Tudo isso mexe com uma empresa que é cotada em bolsa, porter um impacto directo nas acções e na parte de investidores que têm acções aplicadas. Daí valer a pena todo o cuidado, mas nos últimos seis anos o negócio tem crescido e temos aumentado os nossos investimentos.

Qual é a novidade para omercado de smartphones com o lançamento do Windows 10?
Estamos a falar do mercado global. Acontece que são aplicações em new business. No curto, médio e longo prazo, algumas aplicações estarão disponíveis no segmento bancário, onde, efectivamente, sedestaca o online banking. Sãoaplicações de negócios para empresas, estejam em Angola ou noutro país. O ecossistema de aplicações de Android é muito maior do que o do Windows Phone. O que nós estamos a implementar para o Windows 10 é a oportunidade que se desenvolvam aplicações que podem ser em iOS, em Android e smartphones numa Xbox.

O programa 4Africa da Microsoft permite interacção que proporciona crescimento aos mercados em que opera?
Claro que sim. E obrigado por mencionar o Microsoft 4Africa. Éde facto um drama que nós temos. Conforme o nome diz, é para África, onde efectivamente nós alocamos fundos à empresa que depois são alocados a determinados países para o desenvolvimento de determinadas actividades. Na verdade, o 4Africa está dividido. Uma parte nós chamamos de skills, que é importante e tem que ver com o desenvolvimento das capacidades da população. Isso pode ser feito de uma forma directa através da Microsoft ou como nós podemos fazer em parceria com o Governo. Temos outra parte que tem que ver com recursos que nós temos qualificado, que fazem basicamente um serviço para o Bonws, que são recursos de Microsoft, que vêm neste momento para Angola e que basicamente fazem a entrega de projectos em escolas, universidades, Governo, onde não há um custo associado a nenhum dos parceiros ou clientes. Nós olhamos para o 4Africa com a capacidade económica para poder fazer o desenvolvimento de certas actividades em determinados países. Temos vários exemplos deinvestimentos do 4Africa feitos em Angola. Por exemplo, todo o financiamento que temos para formação, e nomeadamente para estagiários, é através do fundo do4Africa. Portanto, nós temos por aí um investimento anual emformação à volta dos 300 mil USD, que disponibilizamos exactamente para o desenvolvimento de acções, mas também dodesfoque dos estagiários quetodos os anos pusemos basicamente a fazer o estágio na Microsoft em Angola. Significa isto que o 4Africa é claramente um programa cujo intuito maior é fornecer e dar ferramentas para podermos, deuma forma quase gratuita ,dar acesso às pessoas àtecnologia, proporcionar às pessoas as competências para poderem usar esta tecnologia eefectivamente para ajudar no desenvolvimento dasociedade deformação, num país africano. Em Angola já o temos, etambém otemos em diferentes países, nomeadamente, no Quénia, Nigéria, Zâmbia, Botsuana. Vamos chamar o 4Africa como o braço de responsabilidade social em África, de forma a dar outro tipo de condições que não estariam disponíveis se não houvesse esse tipo de investimento por parte da empresa.

A qualificação de quadros é pior em relação a outros países onde actuam?
Eu diria, mais uma vez, que era um cenário bastante pior no passado. Claro que, hoje em dia, continua aser uma das lacunas que ainda existem no mercado, mas também pode ser que seja da experiência própria que nós temos através dosnossos processos de formação. Toda a certificação de quadros humanos tem, hoje, um volume muito maior do que teve há cinco anos. Portanto, estamos a caminhar no sentido correcto, masclaramente ainda há muito trabalho para se fazer. Nóspartimos do pressuposto deque mais de 50% da população tem menos de 16 anos, em Angola. Claramente que isto é uma oportunidade brutal, não só para aMicrosoft mas para outro país e governo. E, obviamente, apostarmos na certificação destas pessoas, quando chegar a fase de serem quadros, então já têm o que nós chamamos a base tecnológica emtermos de conhecimento para poderem fazer o seu crescimento como profissionais. A oportunidade é única. É uma oportunidade muito grande. Toda a parte de formação e certificação melhorou bastante nos últimos anos, mas ainda há bastante trabalho a fazer.

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