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Chindalena Lourenço: “Há uma retoma do interesse comercial entre os EUA e Angola”

23/10/2017 - 08:02, Business, featured

O sector agrícola é prioritário nos investimentos norte-americanos no País, afirma a nova directora executiva da Câmara de Comércio EUA-Angola, que se assume como optimista e acredita que a fase pior da crise já passou.

Por Roberto Alves | Fotografia Njoi Fontes 

Agora que assume a direcção executiva da USACC, deixa de exercer as mesmas funções na Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola?

As funções são diferentes e exigem um esforço diferente. Uma vez que, em determinadas situações, os interesses e visões podem ser conflituantes, não me parecia adequado fazer parte de ambas as organizações. Mas não posso deixar de referir que tive muito orgulho em ter desempenhado as funções de delegada em Luanda da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola.

Como encara este desafio e o que espera desta nova etapa da sua vida?

Tenho a sorte de ter assumido a direcção de uma câmara dinâmica, que tem 27 anos de história, o que vem facilitar o meu trabalho.
Há muitas coisas que só precisarão de inovação e criatividade, como acompanhar a evolução dos tempos, da sociedade e economia.

A USACC é uma câmara que, no seu modelo de operação regular, tem sede nos EUA e uma representação em Angola. O representante angolano faz a ponte entre o empresariado nacional que tem interesses nos EUA, e o americano com interesses em Angola. Então, temos actividades que acontecem tanto nos EUA quanto em Luanda.

Na minha missão, neste momento, gostaria de dar prioridade ao aumento do número de membros da Câmara. Para isso, é preciso bater a portas e convencer os membros, explicando as vantagens de se aderir à USACC. Além disso, tenho o desafio de trazer maior diversidade de membros.

Isto significa que poderão fazer parte da USACC empresários que não sejam do sector petrolífero?

Exactamente. A USACC nunca foi vocacionada exclusivamente para o sector do petróleo. De qualquer modo, importa referir que, historicamente, o investimento norte-americano em Angola esteve muito concentrado no sector petrolífero, o que deve ser considerado como natural, mas hoje começa a estar mais diversificado.

Nos últimos anos, a Câmara tem aumentado o número de membros angolanos com interesses nos EUA. Temos de deixar de ver as relações empresariais entre os dois países apenas como empresas americanas, com interesses em Angola. Temos verificado uma retoma do interesse comercial entre organizações de um país e do outro. Isto fez com que se aumentasse o número de associados de ambos os lados.

Quais são as vantagens dos associados?

Os associados da Câmara têm acesso às linhas de financiamento e investimento dos EUA que digam respeito a Angola. Têm acesso às vias de investimento que Angola queira fazer para atrair investimento dos EUA. Têm acesso privilegiado a uma série de informações relevantes e também descontos na companhia aérea Houston Express.

Para quem tem negócios com os EUA, isso é uma grande vantagem.

E podem, ainda, estar sempre presentes no First Friday Club a interagir com outros membros – e isso até pode dar origem à celebração de contratos. A ideia é pôr a comunidade em contacto. Também organizamos missões empresariais para as quais entramos em contacto com os membros.
O facto de a sede estar nos EUA é uma vantagem para os associados?

Não importa onde está a sede. Pretendemos ser uma câmara bilateral, estar com o envolvimento correcto dos dois lados do Atlântico. É esse o nosso objectivo.

Que outros sectores da economia despertam o interesse dos empresários americanos?

Há um forte interesse dos empresários americanos no sector da agricultura. Temos também recebido solicitações de informações por parte de potenciais interessados nos transportes, hotelaria e turismo. O interesse existe, o potencial agrícola também, e por isso este sector está entre as minhas prioridades.

Quantos membros fazem parte da USACC?

A Câmara tem 80 membros inscritos, que pagam quotas.

Qual é o critério de acesso?

O principal critério é a demonstração de algum interesse comum entre empresários americanos e angolanos de fazerem negócios num dos países. Mas a Câmara também aceita membros individuais, portanto, não têm de ser uma empresa de grande dimensão.

Por esse motivo é que a quota é inferior para os membros a título individual. Gostaria de referir que a Câmara vive das quotas dos seus membros efectivos e de patrocínios. Também por isso, quantos mais membros, melhor.

Quem são os principais parceiros da Câmara?

Os principais parceiros são as embaixadas dos EUA em Angola e de Angola nos EUA, porque é através delas que conseguimos aproximar-nos das comunidades, tanto num como noutro país.

Que empresas associadas da Câmara estarão a fazer exportações para os EUA, para além de petróleo?

Há empresas que já testaram a possibilidade de exportaram para os EUA. Sei que há agora uma empresa, do sector agrícola, a preparar um stock para exportar – mas não devo e não posso entrar ainda em detalhes sobre o assunto.

Como é que as trocas comerciais bilaterais têm evoluído?

Não têm crescido significativamente, por estarmos a atravessar uma situação económica e financeira menos boa, que afecta, naturalmente, as empresas da USACC. Mas acredito que a situação seja transitória. Faço parte daqueles que acreditam que já atingimos quase o fundo do ‘poço’, por isso, estou muito optimista.

Que impacto económico e social as trocas com os EUA trazem a Angola?

É difícil encontrar um número exacto, mas o impacto é muito relevante, pois, para além do facto de existirem muitos investimentos americanos em Angola, temos também muitas organizações não-governamentais americanas a actuar aqui, o que tem um importante impacto social.

A direcção cessante debatia-se com a dificuldade dos empresários angolanos em aceder às linhas de financiamento disponíveis. Continua a ser um problema?
A dificuldade que os nossos empresários encontram para acederem a essas linhas de crédito está relacionada com o nosso histórico. Organizar uma empresa em conformidade com as nossas regras é diferente de organizar uma empresa de acordo com os padrões que os EUA reconhecem como aceitáveis. O que acontecia é que os nossos empresários nem sempre conseguiam cumprir com os requisitos todos. Esta é uma situação complexa. O nível de exigência nem sempre é compatível com os nossos requisitos, por isso, a única alternativa será os nossos empresários trabalharem no sentido de atingirem este nível.

Tal consegue-se com formação do tecido empresarial nacional, para atingirmos os níveis de satisfação que permitam beneficiar das linhas de crédito. Por outro lado, há também a questão do reembolso: com as dificuldades em se conseguir divisas, esse processo ficou paralisado.

Que linhas de crédito ainda estão disponíveis?

A linha de crédito do Eximbank continua aberta, mas pode haver outras de que não tenho conhecimento, como fundos de investimento, ou agências de crédito de exportação. O que pode vir a acontecer é que as linhas sejam extintas por falta de adesão. Já aconteceu com o Eximbank no passado.

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