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Escândalo na Volkswagen: reputação da marca alemã está poluída… in extremis!

09/10/2015 - 13:59, Business, Sustentabilidade

Era uma vez uma marca, do tempo de Hitler, presente em 170 países, avaliada em 6,8 biliões USD e conhecida pelo slogan “Das Auto”. E depois veio o escândalo. Mais do que financeiro, o ambiental. A Volkswagen está mesmo em contramão.

Por Nilza Rodrigues | Fotografia Bloomberg

Quando começámos a escrever este artigo, Martin Winterkorn ainda não se tinha demitido. A meio, o CEO da Volkswagen, metódico, minucioso, picuinhas até, avançou com a carta de demissão. À data de fecho, foi anunciado o nome de Matthias Müller (ex-Porsche) para o tão ‘famigerado’ lugar, ele que terá a dura missão de lidar com o escândalo e fazer um rebranding de uma marca que vale – ou já valeu! – 6,892 biliões USD.
Acusada de adulterar o desempenho dos motores em termos de emissões para a atmosfera através de um software incorporado no veículo, a VW poderá ter de desembolsar uma multa no valor de 18 mil milhões USD. O escândalo financeiro, que tem enchido as manchetes e que põe em causa até a reputação da Alemanha na qualidade de país irrepreensível na gestão das suas empresas, tem tido repercussões em toda a indústria automóvel. Otumulto ocorreu após a revelação da Agência de Protecção Ambiental dos EUA de que a fabricante de automóveis tinha fraudado os testes de poluição atmosférica e encoberto o facto durante quase um ano. Entre os carros atingidos pela investigação da agência estão veículos da VW e da Audi de modelos dos anos 2009 a 2015, cujas vendas foram imediatamente interrompidas.
A VW já anunciou que vai ‘reparar’ os 11 milhões de carros em todo o mundo, nota que são mais do que o total vendido pela empresa no ano passado, que estão equipados com motores a diesel com problemas, avaliando para tal um custo inicial de 7,3 mil milhões USD.
Por outra, as acções da empresa, que começaram por perder 19% do seu valor, continuam em franco declínio, caindo para 112 USD, nas negociações em Frankfurt. Neste momento, as acções caíram cerca de 38% desde que o escândalo estourou, na noite de sexta-feira, eliminando cerca de 25 mil milhões USD em valor de mercado da companhia.

Culpados
A Comissão Europeia, responsável por definir os limites de poluição nos automóveis, não tem, no entanto, controlo sobre a execução, que está a cargo das autoridades nacionais.
O CEO em funções, Martin Winterkorn, conhecido por medir os espaços entre as peças de metais e por enaltecer o acabamento estilo caneta Montblanc aplicado às peças de plástico dos carros, não tem como fugir ao problema, apesar de se ter demitido, sem assumir culpas directas. Ele que na próxima sexta-feira seria reconduzido no seu cargo até 2018, após ter consolidado a sua autoridade numa disputa de poder com o seu antigo mentor e patriarca da VW, Ferdinand Piech, que o tentou derrubar mas fracassou nos seus propósitos. É que Winterkorn aumentou 77% as vendas e catapultou a Volkswagen para o primeiro lugar nas vendas mundiais.
Agora o momento é delicado. Winterkorn está fora mas com rendimento que leva muitos apensar que o ‘crime compensa’. Segundo um relatório da empresa, vai receber dois pagamentos antes de deixar o grupo: o primeiro refere-se à pensão acumulada, e o segundo a “dois anos de remuneração” que seriam concedidos se a sua saída do grupo ocorresse “em determinadas circunstâncias”, aparentemente não especificadas. Para além disso, o ex-CEO terá ainda direito a usufruir de um carro da empresa durante o período de pagamento da pensão. Nada mau. Pior fica certamente a marca Volkswagen.

Reflexos no mercado de bonds
Na passada terça-feira, investidores norte-americanos exigiam yields de até 4,6% para manterem dívidas denominadas em dólares da fabricante alemã. Esse rendimento diz mais respeito a empresas com classificações mais próximas do grau especulativo do que com a nota A aplicada pela Standard & Poor’s à Volkswagen. Os negociantes de swaps de crédito elevaram o custo de protecção contra prejuízos das dívidas de toda a indústria automóvel, em antecipação de uma investigação abrangente.
A verdade é que a Volkswagen enfrenta graves problemas de reputação e de liderança. Até que ponto os líderes sabiam sobre o esquema criado para enganar os órgãos reguladores e os consumidores sobre as emissões dos motores a diesel instalados em 11 milhões de carros em todo o mundo?
“Não se sabe a extensão do impacto financeiro desta história sobre a VW”, refere Jennifer Vail, chefe de pesquisa da U.S. Bank Wealth Management.
A fabricante de automóveis enfrenta sanções civis de até 19,9 mil milhões pelas acusações do governo, englobando os 482 mil carros a diesel que a empresa vendeu nos EUA, escreveu Brian Studioso, analista da CreditSights, num relatório de 20 de Setembro. O que poderia custar ainda mais à empresa, acrescenta, são os factores desconhecidos, como os danos de imagem, que poderiam prejudicar a procura e pesar sobre as classificações dos bonds, assim como a perspectiva de que a Volkswagen enfrente acções judiciais.

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1 Comentário

  1. Ziarre 25/04/2016 - 19:52

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