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Lourenço do Prado Valladares – “O povo angolano tem um diferencial que é a sua capacidade criativa”

O fundador e presidente executivo do Grupo Prado Valladares fala da actual crise financeira que o País atravessa e, entre outros desafios, do sector imobiliário e do papel que a banca e os empresários têm na superação desse quadro.

Por Aylton Melo | Fotografia Njoi Fontes

O grupo Prado Valladares tem uma presença de 20 anos em Angola. Nesse período, assistiu aos ciclos de evolução da economia e do sector imobiliário do País. Que retrato retém dessa evolução?
O grupo tem uma presença de 20 anos, mas eu conheço o País há 24. Mas deixe-me dizer-lhe uma verdade: Angola muda tanto, que já não é um privilégio referir-me sobre o País do passado e dizer que é assim. Aprendi a dizer que Angola não é, está. A fase que considero como sendo a melhor foi quando se tornou capaz de produzir e o trabalho formal passou a ser disseminado e valorizado. A província de Luanda cresceu, entre 1995 e 2005, quatro vezes o seu casco urbano. Um verdadeiro exército de pequenos construtores que fabricavam os seus blocos fez o seu estoque e levantou casas próprias. Eu entendo isto como economia disseminada.
Quando esta economia disseminada foi trazida à formalidade, surgiram centenas de empregos na construção. Mas esta onda de construções trouxe a lei de terras. Ou seja, a presença do Governo nesse processo. Aí aconteceu aquilo que os meus irmãos angolanos dizem: “A paz venceu a guerra.”
Como todo o processo transitório de um país que passa pelo pós-guerra, desde 2002, começaram a surgir outras facilidades, como, por exemplo, uso de poupanças. Até ao ano 2000, a poupança era canalizada em estoques de automóveis. Não havia outras formas de aplicação dessa poupança.
A crise económica e financeira mundial de 2008 e esta da baixa do preço do petróleo marcam etapas da retracção docrescimento da economia angolana?
Sem dúvida, mas estas crises são exponencialmente diferentes uma da outra. Hoje, a crise é estrutural. Antes desta entrevista estava com os nossos amigos banqueiros, analisávamos esta situação. Embora não seja uma linguagem puramente económica, a sua razão deriva de quando está além das forças do mercado. A actual crise afecta os valores geopolíticos e económicos. No caso de Angola atinge directamente no coração  que faz bombear o sangue deste país.
Perante tal situação de crise estrutural, sem uma classe empresarial organizada e capaz de reverter este quadro estrutural, para onde se deve olhar?
Às vezes, definir o problema é bom, porque se sabe qual é o problema, agora dar resposta a isto é o desafio,  olhar para o passado e trazer soluções para os problemas actuais. O povo angolano tem um diferencial, relativamente a outros povos, que é a capacidade criativa. Há alguns anos passava por um mercado informal de Luanda, em frente à estrada havia alguns senhores a vender carvão nuns saquinhos de plástico. Perguntei o que o senhor vendia. Ele respondeu: energia. Um simples vendedor entende que o produto dele não era o mero carvão, mas energia. Ninguém tem de ensinar nada a este povo. Apenas fazer um processo de redescoberta.
Se olharmos para a história, as crises estruturais sempre atingiram os empregos. Ocorrem demissões porque as estruturas quebram, não podendo suportar o emprego. Mas não deixa de haver trabalho. A vantagem da crise é a redução de ofertas e aumento da procura. Geralmente, nesses quadros, os preços não evoluem. Mas tem um risco, a falta de abastecimento aumenta o custo de vida. É complexo, mas o importante agora é gerar trabalho a todos os níveis.
Esta crise afectou fortemente o sector da construção e o imobiliário, que é o core business do grupo. Na sua opinião, que soluções podem ser gizadas para contornar esta situação?
No meu entender, a crise segmenta o mercado em tipologias. As empresas que detêm espaços comerciais sofrem uma retracção muito forte, mas as famílias não deixam de crescer, portanto ainda há uma demanda habitacional expressiva. O grande desafio agora é todos os agentes económicos se organizarem. Esta é a hora em que a banca tem de ser mais financiadora. É impressionante, mas é neste momento que o crédito deve ser posto. Agora este contributo precisa da garantia de produtos bem legalizados. Porque o banco, ao movimentar a poupança de todos nós, tem de ter garantias que assegurem o retorno.
Para responder à demanda de financiamentos por parte das empresas, a criação da BODIVA pode ter um papel importante?
A criação da bolsa significa mercado maduro. Se a bolsa funciona, é porque além de estar maduro é real. Não é uma condição de causa e efeito, ela resulta. Então Angola vem construindo a sua maturidade e muito rapidamente acontecerá com a bolsa. Por outro lado, é um extraordinário processo de canalização das poupanças em quotas que vão dinamizar a produção.
Em 20 anos de actividade quantos empreendimentos ogrupo Prado Valladares ergueu até agora?
São 16 empreendimentos, mas gostaria de frisar que a Prado Valladares nunca esteve sozinha. Todos estes empreendimentos entregues aconteceram através de nacionais que foram ou investidores ou co-financiadores do nosso investimento.
O Valor Metrópoles pode ser considerado como o maior projecto imobiliário erguido na zona de Talatona?
Eu diria que ele foi o mais pesado, o mais elaborado em termos de cuidados do sistema construtivo, da tecnologia. Ou seja, sabemos que estamos a entregar um produto que não vai ser ultrapassado tecnologicamente a curto prazo. Concentrámos nele muita inteligência aplicada, mas quanto ao volume geral de negócio, não, não é o maior, nem em termos de custos, nem de investimentos. Ele concentra o máximo de atenção e cuidados, desde a movimentação do estacionamento. Há uma proposta de ser um ícone naquela região.
E qual seria o maior?
O Espaço Valor, situado entre as duas vias, um quadrado que é formado numa extremidade pelo supermercado Kero e, na outra extremidade, pelo nosso estaleiro. Este quadrado é planeado para trinta anos, o plano envolve dezoito torres. É componente de um programa que vai sendo desenvolvido conforme Luanda e Talatona se desenvolvem. No lado de cá pode perceber que fazemos um grande empreendimento, a partir do porte adequado ao movimento da actividade do mercado. Na parte de trás ancorámos um hipermercado. Mas o Mix Center é actualmente o maior em termos de área, com 17,5 mil m², com três edifícios de cinco pisos.
Qual é o empreendimento que mais gera em termos de volume de negócios?
O negócio familiar é como a vida, tem a gestação, a infância, a juventude, o crescimento, e a gente retarda a velhice enquanto pode. Estamos muito animados com o empreendimento Mix Center. Já está construído, e agora passa a ser o equipamento imobiliário de mercado e o nosso maior factor de geração de economias diversificadas. Porque propõe uma oferta multifuncional, com habitacional, comercial e serviços.
Está satisfeito com a forma como o projecto Talatona cresceu, e como está a ser gerido?
A gente grita golo, e tem aqueles segundos de felicidade, mas nunca esquecemos os golos contra. Os golos contra ficam toda a vida, e o golo próprio depois passa. Então já tivemos muitos golos contra e alguns determinam a situação actual. A concepção do projecto Talatona não foi completada, é fácil de ver. Por exemplo, as duas grandes vias corredoras que deviam conectar a Avenida Van-Dúnem Loy com a 21 de Janeiro até à Samba, fazendo o arco, não foram completadas. Portanto, hoje há uma distância enorme. Por outro lado, a via que está defronte aos escritórios do grupo não seria de sentido duplo, tinha de ser sentido único de entrada.
Houve ocupações que não permitiram fazer uma saída junto ao posto de abastecimento da Pumangol que está na Van-Dúnem Loy, sentido de quem vai para o bairro Golf. Infelizmente, as ocupações ocorreram antes que essa saída fosse feita. Foram forças maiores contra o projecto e um golo contra. Eu sinto que a mobilidade em Talatona funcionaria de forma mais orgânica se o seu plano viário fosse todo implementado. Agora os golos a favor são um território legalizado, titularizado e infra-estruturado. Outros golos que compensam são o privilégio e a honra de ter participado nesta história, não temos nenhum título de autor, nós participámos e conquistámos a confiança dos gestores deste País para fazer este empreendimento.
Qual é o valor patrimonial de Talatona do ponto de vista imobiliário?
Como se faz para que o metro quadrado primeiro valha quatro, depois quarenta, depois quatrocentos e depois quatro mil? Essa é a força da urbanização, quando aqui era poeira, capim e cobra, quanto é que valia o metro quadrado aqui há 20 anos? Não era nem urbano nem rural, não se podia produzir, aí nós adoptámos um valor para fazer a composição do bem gerido. Colocámos um capital que passou a valer quatro, porque nos associámos no primeiro momento a um plano master. Os cuidados da revitalização da terra, a titularidade, todos os conjuntos, então este metro quadrado de Talatona, diferente dos outros, passou a ter uma alteração física, porque se passou num bem, bem comercializado. A segunda coisa foi legalizar, planear e montar a equação do autofinanciamento de Talatona.
Trouxemos o SIAC, condomínios, incentivámos a construção de um shopping, e aqueles terrenos em torno subiram de valor, para cem, duzentos, trezentos, até que hoje estão legalizados, infra-estruturados e agora estão ocupados dinamicamente. Aqui, o espaço urbano é um animal vivo. Quando começámos este programa, era natural que a procura resultasse em várias verticalizações.
E qual é o valor concreto desse património?
Esta é uma conta de que não tenho o valor exacto, mas deve ser 10 elevado à sexta por cada hectare construído, é muito dinheiro. Os empreendimentos de Talatona têm um investimento médio na faixa de 40 a 50 milhões USD, e só alguns devem fugir acima dos 100 milhões USD.
Talatona terá beneficiado de financiamento do Estado, ou de capital público?
O fantástico do programa de planificação e implementação de Luanda Sul inclusive foi premiado pelo Office for Metropolitan Architecture (OMA) no ano 2000, Angola ainda estava em guerra. E, embora o plano director tivesse emergido de uma parceria público-privada, não tem nenhum kwanza de recursos do Estado. O valor para urbanizar esse metro quadrado que está aqui foi pago por quem comprou o direito de superfície. Foi isso que a EDURB fez. Talatona resulta de um programa autofinanciado, ele próprio gerou o seu desenvolvimento, depois começou a atrair capital, e hoje acredito que tem a concentração de alguns bilhões USD que transformaram o valor detodas as áreas construídas queexistem hoje aqui.
Hoje qual é o preço do metro quadrado dos espaços comerciais e habitacionais?
O que acontece com Angola é que o custo de produção do metro quadrado subiu muito acrescido aovalor da terra, que hoje é mais para cima do que antes. E isso é uma transformação sucessiva. As habitações e pavilhões comerciais ficam aqui por volta de 3,5 a 4 mil USD o metro quadrado.
 Percebe-se que houve uma redução do preço, se comparado com alguns anos atrás?
Já foi comercializado a 6 e 7 mil USD, ou pelo menos a tentativa de venda, mas agora não. Nunca recuámos. Estou a falar da nossa curva, que é uma curva menos agressiva que outras. Mantemos ospreços porque não vamos deixar que os nossos investidores percam, para tê-los sempre.

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