Mercado

“O desafio é tornar a Angola Telecom rentável” – Manuel António

13/08/2015 - 16:19, Business, Tecnologia

O administrador executivo da empresa pública de telecomunicações fala do culminar do processo de restruturação e injecção de capital, do início da rentabilidade da companhia e do novo modelo de interacção com os clientes.

Por Agostinho Rodrigues  |  Fotografia Njoi Fontes

Como vai decorrer o processo de passar os clientes devedores para o sistema pré-pago?
O sistema pré-pago é uma modalidade de pagamento que já vem sendo adoptada pela empresa de há um tempo a esta parte, naturalmente, e tendo também em conta a progressão comercial. Partiu do princípio em que, inicialmente, a modalidade de pagamento adoptada era o pós-pago. As empresas sobrevivem com receitas e, a determinada altura do percurso da empresa, em função das mudanças comerciais reconhecidas por padrões universais, um dos critérios criados para melhor conforto em termos de rotação de caixa é a modalidade de pré-pago. E, efectivamente, nós temos uma parte considerável dos nossos clientes ainda no sistema pós-pago. Dado o atraso no pagamento das facturas, a dívida de clientes para com a Angola Telecom apresenta, hoje, uma cifra consideravelmente alta. Por isso, oferecemos melhores condições de pagamento para conforto financeiro da empresa, adoptando a modalidade pré-pago.

Como funciona a implementação deste sistema?
Este sistema já está implementado há alguns anos. Quando um cliente, nas nossas lojas, efectua a adesão aos serviços, pode assinar um contrato na modalidade de pré-pago. A passagem dos clientes actualmente devedores para a modalidade de pré-pago não tem unicamente efeito benéfico para a Angola Telecom, mas para o próprio cliente. O cliente terá a capacidade de gerir melhor o consumo que pretende e em função da sua capacidade financeira. Ocliente passa a pagar o que é capaz de pagar. E passamos a ter melhor controlo do fluxo de caixa da empresa e deixamos de ter, com certeza, uma dívida crescente dos clientes para com a empresa.

 Que benefícios se esperam com esta medida?
Todas as empresas são criadas para terem benefícios pelo que produzem. Naturalmente, a empresa tem uma carteira de clientes que somam um valor de dívida considerável, o que não é bom para nós. Como gestores da empresa, temos de tomar precauções e adoptar medidas para reduzir a dívida existente.

Qual é o valor da dívida?
Não gostaria muito de lhe falar em números. O que é normal para uma empresa é recolher cerca de 80% a 90% da facturação, e nós estamos abaixo desses indicadores. Daí termos optado por um sistema de pagamento claramente rigoroso.

Até que ponto o endividamento de clientes condiciona a actividade da Angola Telecom?
Condiciona e de que maneira! Se nós temos dinheiro por receber, significa que temos menos capacidade para resolver as nossas próprias operações. A recolha das receitas em dívida vai permitir um desafogo financeiro na empresa.

Qual é o horizonte temporal de cobrança aos clientes devedores?
A actividade de cobrança vai ser constante, porque existe uma dívida corrente que deve ser cobrada nos prazos estabelecidos. Mas existe também uma dívida antiga, a que mais nos preocupa. Temos empresas que deixaram de ter  capacidade, temos empresas públicas e privadas que devem serviços ou produtos à Angola Telecom e devem assumir a responsabilidade de liquidação dos serviços adquiridos.

A dívida actual é uma herança daantiga administração?
Exactamente. Este conselho de administração tem uma herança pesada em termos de recuperação de dívidas. Temos feito de tudo para negociar com os nossos antigos e, ainda, potenciais clientes no sentido de ressarcirem a dívida para com a empresa. Neste caso, os principais clientes da Angola Telecom estão estratificados em três segmentos principais: os clientes residenciais, os empresariais e os clientes a quem vendemos a capacidade a grosso, que são outros concorrentes do mercado.

A empresa tem queixas dedívidas em tribunal, ou isso só acontece em caso deresistência ao pagamento?
Nós fazemos fé que tudo se resolva na melhor das intenções por parte de todos os responsáveis das empresas devedoras. Neste momento, da tomada de decisão, não temos ainda casos em tribunais. Não existe lista negra de empresas devedoras, oque existe é uma lista de empresas que têm dívidas para com a Angola Telecom e que, pelaresponsabilidade dos seus gestores, acreditamos, irão honrar os seus compromissos.

Não avançou valores, mas pode dizer quantas empresas são devedoras?
Como disse, temos os nossos clientes estratificados. Temos menos problemas no segmento residencial, porque aí o pré-pago é a modalidade mais utilizada. Portanto, o cliente contrata um determinado serviço ou produto, redigimos um contrato, e ele passa a consumir. Se não estiver em erro, perto de 90% a 95% do segmento residencial já se encontra na modalidade de pré-pago. No segmento empresarial e de venda a grosso, aí, sim, temos ainda uma percentagem considerável de empresas na modalidade de pós-pago. E, principalmente no segmento empresarial, estamos a optar também por uma melhor implementação do modelo de pré-pago.

Admite-se que este processo esteja concluído até final de 2015?
É essa a meta da nossa gestão. No entanto, a empresa encontra-se num processo de restruturação. Este processo comporta várias responsabilidades: devolver à Angola Telecom toda a capacidade de operação de acordo com as melhores práticas existentes no sector de telecomunicações, obedecendo aos critérios da indústria de telecomunicações; rejuvenescer a Angola Telecom, porque é das empresas mais antigas do contexto empresarial em Angola, principalmente no sector das telecomunicações; e tornar a Angola Telecom numa empresa auto-sustentada, que consiga, por meios próprios, fazer face aos seus compromissos operacionais.

Visando a auto-sustentação, como decorre o processo de restruturação?
Estamos a trabalhar de modo a que a empresa se torne rentável, um processo que vai levar algum tempo. O Governo tem feito tudo para que a empresa possa sair da situação em que se encontra, e estamos em crer que, com a orientação do Executivo, encontraremos as melhores soluções para tornar a empresa rentável. Neste momento, não é segredo para ninguém que as empresas têm de ser orientadas na óptica do mercado e do cliente. A Angola Telecom precisa de estar capacitada, estruturada e mais voltada para o cliente, de forma a recolher os benefícios que as oportunidades do mercado apresentam.

Aventa-se que a restruturação da empresa custou aos cofres do Estado perto de 12 milhões USD. Quais são os níveis de autonomia financeira?
Doze milhões USD? É uma cifra quenão consigo confirmar, não me passou pelas mãos qualquer documento com esse valor. O que é concreto é que o Executivo já investiu até ao momento montantes suficientes para suportar o processo de restruturação.

Pode adiantar o valor?
Não adiantaria o valor do processo de restruturação, porque ainda está em curso. E, estando em curso, significa que todas as etapas não estão ainda concluídas. Os montantes podem, naturalmente, sofrer uma variação.

Quantas etapas serão realizadas?
Em termos do que são os apoios, ou seja, as prestações financeiras do Estado no desempenho no processo de restruturação, as etapas estão a ser cumpridas. A injecção do capital previsto ainda não está concluída, mas a diferença do valor em falta é razoável. A Angola Telecom tem uma operação e pode melhorá-la. Na capacidade máxima de operação, que eventualmente ocorrerá quando os nossos projectos estiverem totalmente implementados, a nossa área comercial obterá uma fatia importante do mercado porque, com as mudanças no mercado no surgimento de novos players, a Angola Telecom perdeu quota.

Qual é a quota de mercado queperdeu com o surgimento de novos players?
Hoje, a Angola Telecom vê-se na condição de disputar o mercado. É preciso reunir as condições que nos permitam focar no cliente e prestar um serviço com melhor qualidade e com vantagens competitivas no mercado. Não chamaria de perda, mas não temos hoje concorrentes da índole da Angola Telecom. Existem mais serviços e produtos no sector dastelecomunicações, mas a Angola Telecom é o maior operador do País da rede fixa, onde não temos um concorrente directo porque a dimensão das nossas redes é superior. O que tem existido é uma melhoria na prestação de serviços que prestamos.
Para quando a extensão das cabinas telefónicas públicas que estão disponíveis em nove das 18 províncias?
A rede de cabinas telefónicas públicas, do serviço de telefonia, é extensiva a todo o País. O que ainda não terminou é a implementação dessa rede, portanto, temos o problema da implementação. Ascabinas públicas, conforme se constata, são instaladas na via pública. O que a actual administração tem feito nessa matéria é manter o plano das administrações anteriores, pois o objectivo é manter este serviço e ajustá-lo à medida que as necessidades vão surgindo, pontualmente, numa ou noutra província ou instituição. Das 1500 cabinas previstas em 2013, penso que andamos à volta de 300 cabinas públicas por todo o País.

Qual é o nível de aceitação dos circuitos alugados?
É um dos principais serviços que a Angola Telecom tem, nomeadamente no segmento comercial e venda a grosso. Maioritariamente são as empresas que recorrem a este serviço, quer privadas quer públicas, instituições do Estado, bancos comerciais e empresas petrolíferas. O circuito alugado é um serviço contratado à Angola Telecom em que uma determinada empresa tem necessidade de se interligar de um ponto para o outro, permite a ligação de dois pontos, e aí passa pela estrutura da Angola Telecom.

Quais os serviços actuais em destaque?
Temos, no segmento residencial, produtos recentemente lançados no mercado. Estamos a falar de produtos de voz e de Internet, na nomenclatura do Fale e Navegue, um serviço dual em que se tem acesso ao serviço de voz e de Internet. Temos também o Navegue Só, um dispositivo que permite interligar a nossa rede de acesso para obter o sinal de Internet e navegar, e temos o Fale Mais, um produto voltado para a telefonia. Isto no segmento residencial. No segmento empresarial, fornecemos circuitos alugados, sejam circuitos locais ou circuitos a larga distância. Podemos encontrar no segmento empresarial o fornecimento de serviços de voz, dados ou Internet sobre estes circuitos alugados, assim como também podemos fornecer circuitos VPN para ligação ponto a ponto, em que as empresas beneficiam ao fazer uma rede privada interligando as suas sucursais a um ponto de processamento centralizado, que pode ser a sede.

A Angola Telecom é, no fundo, um grupo empresarial sem subsidiárias…
Não. A Angola Telecom não é um grupo na sua essência. Tem participação accionista num leque de empresas ligadas ao ramo das telecomunicações.

Ao abandonar a rede móvel, que ficou com Movicel, a rentabilidade da empresa ficou afectada?
O segmento móvel era importante para a Angola Telecom. Com a retirada deste serviço, existe uma variação no que é a sua capacidade de realização de receitas, mas, estrategicamente, a desintegração do serviço móvel da Angola Telecom terá potenciado a empresa noutras áreas que lhe são também rentáveis.

Está concluído o acordo de ligação entre Angola e Namíbia através da fibra óptica?
A ligação entre a rede da Angola Telecom e a rede da Namíbia Telecom é uma iniciativa em curso, em que as partes estão interessadas em realizar essa ligação no mais curto espaço de tempo. Assim que essa ligação estiver estabelecida, será benéfica para as duas empresas no que concerne ao acordo de interligação.

Qual é o andamento do programa de instalação backbone em fibra óptica terrestre, iniciado em 2009?
Este projecto de instalação de fibra óptica a nível nacional já está concluído em todas as capitais provinciais e nalguns municípios. O nosso País é extenso, somos felizes por ter um país enorme. Existe ainda uma parte significativa do território por cobrir. O ideal seria ter cobertura de 80% ou 100% do País, mas já estão definidas as principais rotas para facilitar o transporte de informação e serviços pela rede de fibra óptica. Não posso avançar a relação de municípios, estamos numa percentagem de 60% a 70%.

E o projecto do cabo submarino ao longo da faixa litoral entre as províncias de Cabinda e Namibe?
Esse é o nosso cabo submarino doméstico. Temos esse cabo parcialmente interrompido, e estão em curso acções para a sua recuperação total. Eventualmente, o cabo terá sofrido uma ruptura ao longo do percurso, o que faz com que não tenha integridade total. Vai ser recuperado no mais curto espaço de tempo, mas para isso seremos obrigados a adquirir um equipamento que nos obrigará a fazer um investimento considerável. Osorçamentos para esta operação estão a ser estudados. Asituação já prevalece há mais de dois anos. Este conselho de administração, apesar de herdar problemas das administrações anteriores, está a fazer tudo para recuperar o que é um activo parado. Enquanto não chega a rede submarina, há a rede terrestre, de rádio, de microondas e de satélite.

Que projectos estão a ser desenvolvidos actualmente?
No plano de restruturação da Angola Telecom estão em curso várias iniciativas, que estão voltadas para a sua organização interna e operacional, de forma que a empresa possa ser robusta e auto-suficiente para dar resposta às exigências do mercado.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.