Mercado

Joffre Van-Dúnem: “Somos compradores disponíveis e interessados na produção nacional”

10/07/2017 - 10:23, Business, featured

O Entreposto Aduaneiro de Angola tem adquirido produtos no País e deseja
comprar mais logo que haja regularidade no fornecimento e cadeia logística.
Resultado operacional é positivo e, neste ano, a empresa deve dar lucro.

Por Ricardo David Lopes e Vânia Andrade | Fotografia Njoi Fontes 

Como têm evoluído as importações nos primeiros meses do ano, face ao 2016?

Em 2015, o Entreposto Aduaneiro, num cenário já de constrangimento de acesso à moeda externa, atingiu compras de produtos importados de 25,9 milhões USD, ao nível de 2012, mas abaixo do patamar de 60 milhões USD de 2010. De Janeiro a Agosto de 2016, devido à continuação do cenário de escassez de divisas e a uma conjuntura menos favorável para a obtenção de confirmação de cartas de crédito junto dos bancos externos, o Entreposto apoiou-se nas mercadorias disponíveis para venda resultantes dos seus stocksiniciais, quer de armazém, quer de produtos em trânsito entrados no início do ano, no conjunto de 7,7 milhões USD, acrescidas de novas importações, num total de 3,3 milhões USD do primeiro quadrimestre, i.e., num global de 11 milhões USD. A acrescer, neste período, o Banco Sol disponibilizou apoios directos em divisas de cerca de 12,9 milhões EUR, que viriam a viabilizar entradas de mercadorias de 9,5 milhões EUR de Agosto a Dezembro de 2016 e 2,4 milhões EUR em trânsito no final do ano. Já em Agosto de 2016, o Executivo aprovou um programa de importações de bens alimentares essenciais, necessários para estabilizar a oferta, para o período dos quatro a seis meses seguintes, em conformidade com a proposta do Ministério do Comércio e com progressão em 2017.

Qual o vosso papel neste programa?

Este programa foi operacionalizado por um conjunto de importadores, com o apoio das autoridades monetárias, nomeadamente do Banco Nacional de Angola, que veio a disponibilizar, de modo programado, colaterais sob a forma de cash e/ou garantias, para obter a confirmação das LC [cartas de crédito de exportação] no exterior. Neste conjunto de operadores, fomos seleccionados para contribuir com uma parcela de importações que, para Setembro de 2016 a Março de 2017, ascendeu aproximadamente a um total de divisas de 120 milhões EUR para compras programadas.

O Banco Sol apoiou e tratou os processos do Entreposto e os compromissos das LC e, sempre que lhe foi possível, contribuiu também com uma parte ou com adicionais da sua própria carteira de divisas. Nesta conformidade, o Entreposto acresceu às importações que havia feito de Janeiro a Agosto, compras de Setembro a Dezembro de 2016, num total de 30,5 milhões EUR, das quais 7,9 milhões de entradas ainda no ano e 22,6 milhões em trânsito no final do ano. Ainda neste quadro do plafond mencionado e dos apoios do Banco Sol, concretizámos compras, já em 2017, até ao presente, de 54,9 milhões EUR, das quais 43,8 milhões entradas ou embarcadas e o restante a aguardar embarque. Outras LC no valor de cerca de 50 milhões EUR aguardam pela confirmação.

Quais são as expectativas de abastecimento nos próximos meses?

Nos próximos meses, e até ao final do ano, para além da concretização das LC em curso, esperamos dar continuidade ao ritmo das importações programadas, com o apoio do Executivo, tendendo a atingir um nível estratégico de 20 milhões EUR/mês, a médio prazo.

Podemos estar confiantes de que não faltarão produtos da cesta básica?

A política comercial do Executivo e as preocupações com a estabilidade da oferta vão, exactamente, nesse sentido. Aliando as orientações ao Entreposto e o contributo dos agentes privados comprometidos com o mesmo objectivo, os produtos da cesta básica estarão previsivelmente ao dispor das populações, de acordo com as necessidades básicas e a preços acessíveis ao consumidor. Todas as medidas estão a ser orientadas nesse sentido.
Os preços nas redes grossistas e retalhistas têm vindo a cair no último ano.

Acredita que esta tendência se irá manter?

Os preços são, em mercado livre, o reflexo do equilíbrio da procura e da oferta. Assegurando a estabilidade da oferta de acordo com as necessidades e fiscalizando comportamentos que, eventualmente, pretendam introduzir distorções, alcançar-se-á a estabilidade dos preços, não esquecendo, contudo, que algumas variáveis exógenas ao modelo podem provocar aqui e ali algumas oscilações contidas, como as variações dos preços das commodities em mercados externos ou alterações de política monetária ou cambial que se tornem imperativas para um bem maior do País.

Em que medida o Entreposto tem poder sobre os preços praticados no mercado?

A nossa missão é contribuir, de forma sustentada, para o abastecimento de certa quantidade de alimentos essenciais para o mercado consumidor, idealmente, participando na segurança alimentar de forma oportuna e tempestiva e com a rotação adequada, e, assim, sermos um agente de normalização do mercado, em termos de quantidades e dos preços dos produtos.

A nossa condição de empresa pública confere-nos, naturalmente, uma responsabilidade de alinhamento com as políticas do Executivo e, nesse sentido, de cumprir com os princípios programáticos do sector. Sendo um instrumento ao serviço destes princípios, temos o dever de intervir pelo lado da oferta a preços competitivos, sempre que se coloquem situações de distorção, sinalizando níveis que é possível praticar, níveis adequados de preços. Claro que a escala é importante, mas não é determinante nesta questão.

O Entreposto distribui apenas produtos importados, ou também produção nacional?

A estratégia do Entreposto passa pelo estímulo à produção nacional, apresentando-se como um comprador disponível e interessado. Mas não só. Sabemos que a regularidade, a qualidade e os canais de distribuição dos produtores têm constrangimentos. Por isso, a empresa está a estudar a possibilidade de abraçar a médio prazo, desempenhando o papel de ‘âncora’, projectos integrados desde a produção à distribuição em parceria com os produtores que tenham possibilidades de sucesso.
Entretanto, já adquirimos e comercializamos produtos nacionais, como arroz e açúcar, debatendo-nos com irregularidades de abastecimento e, portanto, ainda não têm peso suficiente na carteira da nossa oferta.
Quais são os países de origem dos produtos importados?

Da Tailândia vem arroz, do Brasil, açúcar e fuba de milho, produto este que também vem da África do Sul. Do Canadá e EUA, vem feijão e frango, e da Ucrânia, Bélgica, Argentina, Portugal e Turquia, farinha de trigo. De Portugal, vem também sabão e óleos alimentares, da Itália vêm massas alimentares, da Malásia, óleo de palma e, da Noruega, bacalhau.

Procuram mercados com preços mais competitivos?

É prática permanente do Entreposto prosseguir um procurement cuidado, no sentido da compra nas melhores condições. É uma directriz estratégica na empresa que tal se faça. Naturalmente que, dispondo de acesso a mais recursos financeiros, as soluções de escolha e negociação podem aprimorar-se e pode fazer-se melhor gestão das compras no mercado das commodities.

Quantos clientes têm neste momento?

Cerca de 1000 inscritos, dos quais 500 são fidelizados, podendo localizá-los geograficamente em aproximadamente 300 em Luanda, 100 na Delegação Centro e 100 na Delegação Sul do Entreposto. Em termos de categorias, 50% são grandes grossistas, 30% grandes distribuidores, 20% pequenos grossistas, e retalhistas são 20%.

Este número tem aumentado?

Sim, sobretudo após as intervenções que o Entreposto tem feito no mercado, desde Setembro de 2016 (caso da farinha de trigo), a favor da estabilidade da oferta e no combate às distorções de preços, em detrimento de operadores com comportamentos distintos.

Este ano, apresentarão lucro?

Já temos resultados operacionais positivos com alguma expressão e, portanto, atingimos autonomia em termos de cobertura de custos de funcionamento. O volume crescente de vendas, com margens brutas de acordo com a missão da empresa, e o rigor da gestão dos custos operacionais conferem à empresa uma rentabilidade de sustentação e libertação de cash flow para os investimentos de manutenção e inovação.

A questão que se põe é a do modelo financeiro em que opera. Tendo de fazer ainda face a um certo nível de encargos financeiros até alcançar a escala e a rotação que permitirá, a curto prazo, ter disponibilidades e liquidez suficientes para prescindir do financiamento prévio das compras, e, sobretudo, de estar exposta durante o período do serviço da dívida à desvalorização do Kz face à moeda de origem das importações, o resultado operacional sofre o impacto negativo destas variáveis. Mas, já em 2016, o resultado líquido foi apenas de -2% das vendas e, por tal, seguramente em 2017 já será positivo. O efeito-escala libertará, já este ano, suficiente margem operacional para a cobertura dos custos financeiros, que serão racionalizados à medida que outro modelo financeiro substituir o dos últimos anos. Em 2016, tinham uma dívida de cerca de 20 milhões USD.

Qual o ponto da situação?

Os credores eram os bancos comerciais que apoiam a empresa nas suas actividades operacionais.

É de salientar que o nível de endividamento desta natureza tem curvas cíclicas, conforme a rotação das mercadorias.

Em conformidade com o que foi dito atrás, a empresa, pela maior libertação de cash flow, tem conseguido reduzir o saldo médio.

Presentemente, não ultrapassa os 3 mil milhões Kz, ou cerca de 15 milhões USD. Toda a dívida ao BPC já foi paga. E, em relação ao Banco Sol, a nossa política financeira é manter, em cada momento, os saldos no mínimo possível, relacionando as receitas de vendas com a conta-corrente de apoio às importações.

Tem sido possível realizar investimentos no desenvolvimento da rede logística?

Os projectos de extensão da nossa rede logística passam, pelo menos, por mais três novos centros de armazenagem – em Malanje, Cunene e Uíge –, resultantes preferencialmente da requalificação de estruturas já existentes. Já foi submetido dentro do quadro do Plano Estratégico do Ministério do Comércio e a concretização é esperada no período do segundo semestre de 2017 a finais de 2018.
Outros investimentos, como linhas de embalagem, mais meios rolantes e de manipulação de mercadorias, software e redes informáticas estão em curso, conferindo à empresa vitalidade e bases para a sua expansão, fortalecimento e modernidade.

Houve necessidade de reduzir o quadro de pessoal?

O Plano Estratégico previa o despedimento de algum pessoal, mas, em nenhum momento, a empresa tomou medidas nesse sentido, em virtude dos custos sociais que representariam para a sociedade, no presente momento.
Os que saíram foi por razões de reforma, óbito ou vontade pessoal de se movimentarem no mercado de trabalho. Temos cerca de 350 efectivos a nível da Sede e Delegações, que estarão todos comprometidos com o bom desempenho, tanto mais que a actividade está a aumentar, e as perspectivas futuras podem até levar à necessidade de rever o quadro, no sentido de o dotar de mais valências.

Qual o vosso maior desafio?

A sustentabilidade. Todos os objectivos a que o Entreposto se propõe passam pela condição de uma sustentabilidade de nível de compras e consequente nível de vendas, que cumpra o que todos os stakeholders esperam da empresa.

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