Mercado

Avanço tecnológico explica 50% da perda de importância do emprego

13/04/2017 - 14:23, Capital Humano, Universidade

Cazaquistão foi o país mais fustigado. Filipinas, Brasil e Grécia foi onde o trabalho mais ganhou valor face ao capital, conclui o Fundo Monetário Internacional.

Por Luís Reis Ribeiro*

O avanço da tecnologia — com a consequente substituição de pessoas por computadores (tecnologias da informação) e outras máquinas — explica cerca de metade (50%) da perda de importância dos rendimentos do trabalho face ao capital ao longo das últimas décadas, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI), num estudo divulgado na passada segunda-feira.

A globalização e a deslocação de actividades para países mais baratos (a que o FMI chama de “integração global”) explica 25% do declínio total verificado. Portanto, os dois factores juntos são responsáveis por três quartos (75%) da redução da relevância do trabalho nas economias avançadas, medida como proporção do rendimento nacional, estima o Fundo. Só para se ter uma noção aproximada do que está a acontecer em Portugal, o INE indicou recentemente que o peso percentual das remunerações no rendimento disponível das famílias equivalia, em média, a 63,9% do total. Em 2011, essa proporção superava os 65%.
E, como se sabe, Portugal, um dos países mais negativamente afectados pelas crises dos últimos anos, viu a sua taxa de emprego a cair até um mínimo de 49,7% do total em 2013. Esta chegou a ser próxima de 60% no início dos anos 2000.

Depois de 2013, o peso do trabalho até tem vindo a recuperar, mas ainda não compensou as perdas. Em 2016, a taxa de emprego estimada pelo INE foi de 52%, o que corresponde a 4,6 milhões de postos de trabalho.

De acordo com o estudo do FMI, um capítulo analítico divulgado em antecipação do World Economic Outlook (que será integralmente publicado a 18 de Abril), mostra que Portugal é, desde 1991, um dos países mais penalizados por esse fenómeno de perda de importância do trabalho.

Por cada década, a proporção do rendimento gerado pelo emprego nacional interno recuou quase dois pontos percentuais, em média.

O Cazaquistão foi o país mais fustigado (quase 4 pontos a menos por década). Filipinas, Brasil e Grécia foram os que mais ganharam.

O impacto das máquinas

“Nas economias avançadas, cerca de metade do declínio da quota de emprego pode ser atribuída ao impacto da tecnologia.

O declínio foi impulsionado por uma combinação de avanços rápidos nas tecnologias de informação e comunicação (TIC) e por um peso elevado de trabalho que poderiam ser facilmente automatizados”, refere o Fundo no novo estudo.

Além disso, houve o efeito globalização, através do qual muitas indústrias fogem dos países desenvolvidos à procura de mercados mais baratos (como China, Índia, Indonésia, Bangladesh, etc.).

O impacto da globalização

“A integração global — como se vê pelas tendências do comércio de bens, pela participação nas cadeias de valor globais e pelo investimento directo estrangeiro — também desempenhou um papel. O seu contributo foi estimado em cerca de metade do da tecnologia.”

“Como a participação em cadeias de valor globais geralmente implica a deslocalização de tarefas intensivas em mão-de-obra, o efeito dessa integração é reduzir os níveis de participação do trabalho nos sectores transaccionáveis”, os que exportam. Assim, “os resultados para as economias avançadas são convincentes” e “em conjunto, a tecnologia e a integração global explicam cerca de 75% do declínio no peso do emprego na Alemanha e na Itália e perto de 50% nos Estados Unidos”.

Além disso, continua o FMI, esses dois efeitos (mais tecnologia e globalização) tiveram um efeito negativo nas economias avançadas.

Desvalorizaram o trabalho e isso pode ter agravado as desigualdades, por exemplo. “A parte do rendimento do trabalho diminui quando os salários crescem mais lentamente do que a produtividade, a quantidade de valor produzido por hora de trabalho. O resultado é que uma parte crescente dos ganhos de produtividade tem ido para o capital. Uma vez que o capital tende a concentrar-se no topo da distribuição de rendimentos, essa diminuição na proporção dos rendimentos do trabalho é susceptível de aumentar a desigualdade.” O estudo do FMI também conclui que, no conjunto de várias dezenas de países analisados, o sector onde terá havido maior destruição da relevância do emprego desde 1998 foi a indústria transformadora e os transportes. O sector da hotelaria e acomodação foi o que ganhou mais em termos de emprego.

*Dinheiro Vivo

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