Mercado

O homem que deixa o dragão ferido

09/10/2015 - 13:55, Capital Humano, Upgrade

E sobre Li Ka-shing caiu uma chuva de críticas . “Os capitais não têm fronteira, mas os empresários têm pátria”, escreveu, em editorial, o Diário do Povo.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Bloomberg

O órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC) criticou o magnata Li Ka-shing por ter vendido activos (imobiliário) na China num momento em que a economia chinesa enfrenta sérias dificuldades – com as mais baixas taxas de crescimento dos últimos 25 anos. “Os capitais não têm fronteira, mas os empresários têm pátria”, escreve o Diário do Povo. Claramente, a double standard. Do outro lado está Li Ka-sing, que nos últimos meses reorientou os seus negócios da China para a Europa. O jornal prossegue dizendo que o magnata “aproveitou a prosperidade quando tudo ia bem mas recusa-se a ficar ao nosso lado quando enfrentamos obstáculos e estamos em dificuldades”. E não é nada brando nos epítetos, classificando-o de “imoral” e “ingrato”. Excessivo? Talvez não, se pensarmos que a fortuna de Li Ka-shing também se fez a partir do imobiliário e que essa prosperidade só foi possível com a cumplicidade do governo chinês. É, pois, quase compreensível que o órgão oficial do partido acuse o senhor Li de ingratidão. Há ainda um outro facto nada despiciendo: a saída do magnata do mercado chinês pode ter um impacto muito negativo na confiança de outros investidores (sendo que os analistas já perceberam que o capital está a deixar a China).
Este ano, Li fez importantes investimentos na Europa, que agora se assumem como uma mudança de estratégia. O magnata adquiriu à Telefónica a O2 no Reino Unido (um gigante das telecomunicações europeu e o maior negócio fora da economia asiática de Li). Ao mesmo tempo, deslocava para as Caraíbas as suas empresas de Hong Kong. Ao que parece, este homem de 87 anos que é também conhecido por “super-homem”, aos seus dotes empresariais soma algum poder divinatório.
Mas quem é o homem que faz tremer a segunda economia do mundo? Era uma vez… um chinês que começou por produzir e vender flores de plástico, arrecadou uma fortuna que a Bloomberg estimou em 33 mil milhões USD, e tornou-se uma fonte de orgulho para a China e de inspiração para o mundo. Na mais recente actualização da Forbes, Li surge como o 25.º homem mais rico do mundo e o 1.º de Hong Kong, com 25 mil milhões USD.
Li Ka-shing nasceu na China, na província de Guangdong , a 13 de Junho de 1928, filho de Li Yunjing, professor e director de uma escola primária. Quando Li tinha 12 anos, em 1940, a família foge à invasão japonesa, e é como refugiados sem grandes recursos que chegam a Hong Kong. Passados três anos, Li Yunjing, o pai, adoece gravemente e morre. Li Ka-shing, ainda um adolescente, começa a vender artigos de plástico – pulseiras de relógio e cintos, e a contribuir para o sustento da família. Na década seguinte, em 1950, o jovem ambicioso e vendedor capaz tem a sua própria fábrica de plásticos – produzia e vendia flores. Em 1958, o negócio começa a expandir-se e nasce a Cheung Kong Industries. Ao longo dos anos 60 do século XX, Li esboça-se como o grande empresário que viria a ser. Li Ka-shing adopta como princípio básico nunca se endividar excessivamente, comprava e construía à medida do dinheiro que tinha, procurando parcerias várias, quer com os proprietários das terras, quer com amigos ou vizinhos. Dando um salto no tempo e nos detalhes, em 1979, Li era o maior proprietário privado de Hong Kong. Por essa altura adquire 23% da Hutchison Internacional, uma empresa britânica, fundada em finais do século XIX, que atravessava um período de sérias dificuldades. Não é uma aquisição qualquer, Li Ka-shing foi o primeiro chinês a deter uma importante empresa britânica que há muito dominava a economia de Hong Kong – é, podemos dizer agora, um momento de viragem.
De aquisição em aquisição, Li constrói e consolida um império que estende ao Canadá, onde os filhos estudaram, com investimentos no Canadian Imperial Bank of Commerce e na Husky Oil. Entretanto a Hutchison Telecommunications (da holding Hutchison Whampoa Limited – HWL), transformava-se num importante player no sector das telecomunicações. No início de 2004, as várias empresas da Cheung Kong representavam 11% do capital na Bolsa de Valores de Hong Kong. E a Hutchison Whampoa passou a uma das maiores operadoras portuárias no mundo também nesse ano.
Décadas depois da fuga da família da China, o empresário não regressa ao país mas mantém as melhores relações com o governo chinês, envolvendo-se de forma relevante nas negociações que levaram à passagem da soberania de Hong Kong do Reino Unido para a China, e fez consideráveis investimentos no país natal, com destaque para os 150 milhões USD na construção da Universidade de Shantou, na província de Guangdong.
A sua ligação ao governo de Pequim foi particularmente importante quando o seu filho mais velho, Victor Li, foi sequestrado, em 1996. Li pagou o resgate de 125 milhões USD e contou com o apoio e a ajuda do governo continental. Dois anos depois, o sequestrador foi capturado e executado.
Li Ka-shing é tido pelos próximos como despretensioso e frugal, com um estilo de vida modesto e discreto, que valoriza os valores tradicionais chineses. A sua filantropia é outra das suas marcas de água. A Fundação Li Ka-shing, criada em 1981, já contribuiu com 500 milhões USD nas áreas da saúde e da educação.
Consolidado o império, é tempo de passar o legado aos filhos Richard e Victor, o que o magnata tem feito com alguma parcimónia. Richard Li, o mais jovem e mais extravagante dos dois, tem sua própria empresa, Pacific Century CyberWorks, e faz o seu caminho. Victor Li, o mais velho, permaneceu ao lado do pai e é vice-presidente da Cheung Kong. Acredita-se que Victor tomará o controlo do império fundado pelo pai depois de prometer ao avô moribundo (a morrer na pobreza) que toda a família teria uma vida melhor.

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