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O xeque que investiu no El Corte Inglés e poderá ter cargo na ONU

31/07/2015 - 11:38, Capital Humano, Upgrade

El Corte Inglés abriu o capital a um investidor de fora de Espanha pela primeira vez desde a sua fundação, em 1935. O xeque do Catar, Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani, decidiu investir 1000 milhões de euros por uma posição de 10% na retalhista. Mas quem é este novo accionista da cadeia espanhola?

Hamad bin Jassim, ou HBJ, como também é conhecido, nasceu em Doha (capital do Catar) em 1959 e notabilizou-se a partir do início da década de 90 como ministro dos Negócios Estrangeiros, cargo que acumulou com o de vice-primeiro-ministro em 2003. Quatro anos depois, assumiu a chefia do governo do Catar, sendo em simultâneo responsável pelas relações exteriores do pequeno país, com pouco mais de dois milhões de habitantes, quatro vezes a população do concelho de Lisboa. Hamad bin Jassim também ganhou fama por ter sido líder do QIA, o fundo soberano de investimentos do Catar.
Este fundo é accionista do banco britânico Barclays, onde chegou a ser o maior accionista. Está presente na petrolífera holandesa Shell, tem participações em empresas como a Porsche e a Volkswagen e é dono do Paris Saint-Germain, o actual campeão do futebol francês. Aquisições feitas durante a liderança de Hamad bin Jassim, que colocaram o fundo soberano a gerir entre 100 mil e 200 mil milhões USD de activos (entre os 90 mil e os 185 mil milhões de euros, pouco mais do que o PIB nominal português em 2014).
“O homem que comprou Londres”, como escreveu o The Independent, referindo as operações financeiras que levou a cabo na capital do Reino Unido, comprou o Harrods a Mohamed Al-Fayed por 2,15 mil milhões de euros em Maio de 2010 e o Shard, o edifício mais alto da União Europeia.
Hamad bin Jassim também tem reforçado a própria carteira de activos nos últimos anos. O quadro de Picasso Les Femmes d’Alger (versão “O”) é uma das compras mais recentes. Custou 180 milhões USD, batendo o recorde para o leilão de uma pintura a nível mundial.
O xeque do Catar tem também um valioso património imobiliário que conta, entre outros, com três apartamentos em Hyde Park, Londres, e aplicou recentemente 47 milhões USD numa mansão de cinco andares em plena zona de Manhattan, em Nova Iorque. Um luxuoso iate, com 133 metros, e vários carros de luxo fazem ainda parte da sua fortuna pessoal.

Diplomata e bom negociador
Responsável durante quase 20 anos pelas relações externas do Catar, tornou o país um Estado aberto ao diálogo com países como os Estados Unidos ou a Eritreia, mantendo, ao mesmo tempo, relações com os talibãs que têm suscitado polémica. Sob a sua liderança, o país assegurou a ponte na resolução de rivalidades entre partidos no Líbano, o conflito entre forças do governo e rebeldes na região do Darfur, além da mediação de disputas nas fronteiras entre a Eritreia e Djibuti.
Hamad bin Jassim é mesmo descrito como alguém com “um olho de falcão para o negócio e enorme capacidade para estabelecer acordos. Basicamente, se quiser que aconteça, ele faz por isso. Ele toma as decisões e é preciso chegar a ele. Não se pode falar com outros intermediários”, referia um especialista da região árabe ao The Telegraph em Junho de 2013.

Marca quer ir além da Península Ibérica devido à crise
A entrada do novo investidor no El Corte Inglés permite a expansão da cadeia espanhola para fora da Península Ibérica. A marca quer atravessar os Pirenéus e entrar nas montras da Europa. Este é o plano da empresa liderada desde Setembro de 2014 por Dimas Gimeno Álvarez, sobrinho de Isidoro Álvarez, que trabalhou durante 60 anos na marca.
A saturação do mercado espanhol é a principal razão para este alargamento. O sector do vestuário deixou de ser o seu principal negócio.
Entre 2003 e 2014, devido aos efeitos da crise económica no país, com menor poder de compra para os consumidores, as vendas foram reduzidas a metade e passaram a representar apenas 9% do mercado espanhol.
Itália deverá ser a próxima paragem da marca espanhola, por uma questão de logística e de adaptação à legislação comunitária. O El Corte Inglés mantém desde há vários anos um pré-contrato para lançar um projecto urbanístico em pleno centro de Milão, mas o arranque já foi adiado várias vezes por causa da crise financeira. O projecto na Polónia parece estar fora do horizonte.
A marca de armazéns espanhola, uma das líderes desta área na Europa, também poderá reforçar a presença na América Latina, principalmente no México e no Peru, onde é representada com a venda de roupa para jovens.
A redução da dívida da cadeia espanhola é outra das metas da entrada do xeque árabe no capital. Mais de três quartos da dívida do El Corte Inglés deverão ser reestruturados. Corresponde a cerca de 2,7 dos 3,5 mil milhões de euros do valor devido pela marca espanhola junto dos credores.
O El Corte Inglés é constituído por 88 grandes armazéns e 43 hipermercados.

Diogo Ferreira Nunes | Helena Santareno | Dinheiro Vivo

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