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Trump está prestes a testar a nossa teoria sobre a importância dos dirigentes

19/12/2016 - 15:02, Capital Humano

Dirigentes como Trump – figuras exteriores ao sistema e que não são apoiadas pelas elites – apresentam geralmente grandes variações no seu desempenho.

Por Harvard Business Review*

Não vou fingir que este foi um artigo fácil de escrever. Estava absolutamente convencido de que Hillary Clinton não só ganharia como ganharia com facilidade, e estava certo de que Donald Trump, caso fosse eleito, seria um desastre como presidente, não só porque eu discordava das suas políticas, mas também porque sentia que a sua conjugação de tomada de decisões errática e de ignorância sobre as questões básicas da governação equivalia quase de certeza a uma catástrofe. Agora, só espero que o tempo demonstre que eu estava enganado acerca do segundo como acerca da primeiro.

Para mim, este erro é particularmente pungente. O meu livro Indispensable: When Leaders Really Matterfala precisamente sobre dirigentes inexperientes e oriundos de fora do sistema (chamo-lhes dirigentes não filtrados) e sobre como e quando eles assumem o poder. Donald Trump bem poderia ter-se destacado nas páginas do livro como o exemplo acabado de um dirigente não filtrado. Isto deveria ter-me dado a capacidade de prever a sua vitória.

Depois de me ter equivocado desta maneira quanto às eleições, hesito em fazer mais previsões. Para tornar o problema mais complexo, evidentemente, está o enorme grau de incerteza quanto ao que Trump pretende efectivamente fazer enquanto presidente e em que medida ele deixará à decisão do Congresso os pormenores, e até mesmo as linhas gerais, do seu programa político. Mas o meu trabalho é reflectir sobre liderança e política, em especial sobre vitórias surpreendentes como a de Trump, por isso, aqui estão as minhas reflexões, valham elas o que valerem. Dirigentes como Trump – figuras exteriores ao sistema e que não são apoiadas pelas elites desse mesmo sistema – apresentam geralmente grandes variações no seu desempenho. Fazem coisas que mais ninguém faria e, por essa razão, ou se saem muito bem ou muito mal.

O seu impacto maximiza-se quando os constrangimentos à sua liberdade de acção se minimizam, e é nesta situação que Trump se encontrará até às eleições intercalares de 2018.

O controlo dos republicanos na Câmara de Representantes e no Senado, a que supostamente se seguirá muito em breve a nomeação de um juiz conservador para o Supremo Tribunal, dará a um Partido Republicano radicalizado um controlo unificado do governo que não tinha desde 2007.

Como tal, podemos esperar que a administração Trump tenha de início uma liberdade quase total na definição da política governamental.

Embora Trump não tenha ganho a votação popular, o precedente criado pela administração de George W. Bush em 2000 sugere fortemente que isso não condicionará Trump nem o seu partido de maneira significativa, se bem que possa reduzir a sua legitimidade aos olhos de alguns. O facto de ele ter sido apoiado durante a campanha por muitos republicanos que ocupam cargos de destaque sugere que, agora que ele tem atrás de si o peso pleno da presidência, é provável haver pouca oposição dos republicanos ao seu programa. Mesmo que os dirigentes republicanos queiram fazer-lhe frente, Trump acabou de conseguir o maior milagre político na história da América. Comecemos com os desafios que se levantam à administração Trump e avancemos depois para as oportunidades.

Presidente-eleito Trump poderá ter de lidar, tal como aconteceu com o presidente Obama, é a volatilidade dos mercados financeiros. Se a turbulência for apenas momentânea, a situação poderá estar estabilizada na altura em que Obama terminar o seu mandato.

No entanto, é preocupante o facto de a economia global e o sistema financeiro não terem ainda recuperado da crise financeira de 2008, pelo que temos pelo menos de considerar a possibilidade de uma recessão muito mais duradoura.

Detalhando esta ideia, Trump concorreu com uma política fiscal que combina amplos cortes fiscais dirigidos principalmente aos americanos mais ricos com grandes cortes nas despesas, particularmente nos gastos sociais, que visam os contribuintes mais pobres – posição que os republicanos do Congresso também têm defendido. Parece provável que Trump faça acompanhar estes cortes de medidas proteccionistas que podem diminuir substancialmente o comércio global. Dependendo da dimensão dos gastos com infra-estruturas que Trump está a planear (incluindo o seu anunciado muro ao longo da fronteira EUA-México), pode verificar-se um significativo impacto negativo nas perspectivas de crescimento tanto americano como internacional. As previsões económicas são uma perda de tempo quase tão grande como as previsões políticas acabaram de demonstrar que são, mas o risco de uma grande recessão global é hoje maior do que era ontem, possivelmente exacerbado pela incerteza que rodeia as capacidades e intenções do governo americano. O risco seria ainda mais acentuado se Trump continuar com os seus devaneios de incumprimento no que se refere à dívida dos EUA.

Em termos de política externa, podemos assistir a reavaliações imediatas da sua situação por parte de países como o Japão, a Coreia do Sul e outros aliados dos EUA protegidos por garantias de segurança norte-americanas. O Japão e a Coreia podem reconsiderar a sua confiança na dissuasão nuclear norte-americana e pensar na hipótese de se retirarem do Tratado de Não-Proliferação e adquirirem armamentos nucleares próprios.

A aliança da NATO também está em perigo. Parece provável que a Rússia, talvez o vencedor mais extraordinários das eleições americanas, faça em breve um teste à NATO.

Mas as questões de política económica e externa parecem hoje em dia ser estéreis. A um nível mais profundo, teremos de nos debater com a questão de qual é a identidade da América e o que é o que o país representa. Enquanto candidato presidencial, Trump sugeriu o desejo de que as forças armadas norte-americanas adoptem políticas que incluam o uso da tortura e o assassínio deliberado de civis. Será que Trump levará por diante estes planos quando for presidente? Se o fizer, não tenho nenhuma dúvida de que os membros das forças militares obedecerão à lei. Mas a lei pode ser alterada e, com os republicanos a controlarem o Congresso, essa é uma forte possibilidade. Os membros das forças armadas norte-americanas poderão ter de enfrentar em breve testes éticos diferentes de todos aqueles a que já foram sujeitos – não como desobedecer a uma ordem ilegal mas se deverão ou não obedecer a uma ordem imoral. Os membros da Segurança Interna terão de perguntar a si próprios se estão na disposição de deportar refugiados sírios que já foram admitidos no país. São estes os dois primeiros desafios que me vêm à mente. Pode haver outros. Admito que me é difícil imaginar uma presidência Trump bem-sucedida, dado o seu historial de fracassos e tramóias nos negócios e o seu programa vago e com frequência contraditório. Mas, garantidamente, uma presidência bem-sucedida é no mínimo uma possibilidade, e rezo para que seja isso o que vamos ter. Como seria ela? Quais as possibilidades que estão abertas a Trump e que não estariam abertas a um presidente convencional? Os dirigentes não-filtrados são bem-sucedidos quando utilizam as capacidades e o saber dos seus rivais com experiência e quando têm percepções e optam por abordagens a que os dirigentes convencionais são cegos.

O discurso da vitória de Trump foi, nesse sentido, encorajador. Estendeu a mão a Hillary Clinton e aos seus apoiantes em tons completamente diferentes dos que utilizou durante a campanha. Não aproveitou o discurso para defender políticas que parecem dirigir-se unicamente a determinadas etnias e religiões. De facto, a principal proposta política que ele pareceu apoiar foi uma iniciativa de obras públicas – coisa que a maioria dos democratas também apoiaria e, de facto, poderia apoiar até com mais empenho do que a maioria dos republicanos.

No mínimo, a presidência de Trump romperá o impasse cada vez mais amargo que paralisou o governo norte-americano nos últimos seis anos.

Pelo menos nos próximos dois anos, o Partido Republicano é o dono de tudo. Controla o governo. Ao bloquear a nomeação de Merrick Garland para o Supremo Tribunal, os republicanos deitaram fora mais de dois séculos de tradição de funcionamento do governo, numa aposta para conquistar o controlo completo do governo norte-americano – e ganharam. A dimensão desse êxito, tanto o seu potencial como os seus riscos, não pode ser por demais sublinhada. O que acontecer a seguir, para o bem ou para o mal, será responsabilidade dos republicanos. Agarrem-na, e o controlo da política norte-americana pelos republicanos durante uma geração estará provavelmente quase garantido. Se fracassarem, a queda de uma tão grande altura será terrível.

Perante esta derrota catastrófica, os democratas têm umas quantas obrigações. O Partido Democrático encontra-se na sua posição institucional mais fraca da história dos Estados Unidos. Se Trump for bem-sucedido como presidente, os democratas não têm nenhuma hipótese de um regresso a médio prazo. Mas, se ele fracassar, o que farão os democratas? O partido deveria certamente concorrer com melhores candidatos. Igualmente importante, precisa de aprender a falar de uma maneira que aborde os problemas da justiça racial mas sem alienar os eleitores brancos.

Trata-se sem dúvida de uma tarefa difícil, mas a taxa de popularidade de 54% do presidente Obama demonstra que não é impossível. Não posso dizer o que o futuro trará. Os países não são aquilo que abraçam; são aquilo que fazem. O credo americano tem inspirado milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. Mesmo que nem sempre nós próprios tenhamos estado à altura desse credo. Não sabemos o que acontecerá a seguir. Ninguém sabe. Mas, se me tivessem perguntado na véspera das eleições em que é que eu acredito, teria respondido que acredito em Deus, acredito nos meus pais e acredito nos Estados Unidos da América. Por muito perplexo que possa estar com o que aconteceu, continuo a acreditar.

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