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Um príncipe multitasking

24/09/2015 - 14:23, Capital Humano, Upgrade

Tão importante como ter dinheiro é o que fazemos com ele. Alwaleed Bin Talal, Warren Buffett, Bill Gates, Mark Zuckerberg ou Michael Bloomberg ganham milhões e dão milhões.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Corbis /VMI

Em Julho deste ano, enquanto decorria o Ramadão, o príncipe saudita Alwaleed informou que iria doar, nos próximos anos, cerca de 32 mil milhões USD, através da Alwaleed Philanthropies, para a promoção da saúde, na erradicação de doenças, para levar a electricidade a comunidades remotas, para a construção de orfanatos e escolas e no apoio ao empreendedorismo feminino. “A filantropia é uma responsabilidade pessoal na qual embarquei há mais de três décadas e é uma parte intrínseca da minha fé islâmica”, afirmou. É o seu “compromisso com a humanidade”.
Insistimos, tão importante como ter dinheiro é o que fazemos com ele. E Alwaleed dá, partilha, intervém. E doou a instituições que estudam o Islão e o Médio Oriente, o que inclui Harvard, Georgetown, Cambridge ou Edimburgo. Promoveu (e pagou) a ala islâmica do Museu do Louvre, um espaço projectado pelos arquitectos Rudy Ricciotti (francês) e Mario Bellini (italiano) para 10 mil peças – vitrais, cerâmica, arte otomana e uma das mais importantes colecções de tapetes do mundo.
“O Departamento de Arte Islâmica do Museu do Louvre auxilia na compreensão do verdadeiro significado do Islão, uma religião de humanidade e de aceitação de outras culturas. É um símbolo positivo, reforçando a compreensão entre as culturas ocidental e islâmica.” Quem é que disse isto? O mecenas, o príncipe Alwaleed Bin Talal.
O Savoy é um chique clássico dos hotéis londrinos – 268 quartos elegantemente decorados e suites em estilo eduardiano e Art Déco –, por lá passaram e ficaram Gershwin, Sinatra, Charlie Chaplin, John Wayne, Ava Gardner e Humphrey Bogart. Por lá passaram e ficaram os Beatles. E por lá passaram e dançaram no telhado Ginger Rogers e Fred Astaire. O hotel esteve à beira da ruína até que, em 2005, foi comprado por um consórcio liderado pelo príncipe Alwaleed e a gestão entregue ao Fairmont Hotels & Resort, uma das empresas da Kingdom Holding Company (KHC), o reino empresarial do príncipe saudita. E o Savoy não é o único hotel de um luxo clássico e lugar privilegiado de uma capital europeia que o saudita possui. É proprietário do não menos requintado George V, em Paris. Depois de ter gasto uns quantos milhões para renovar o hotel dos Champs Élysèes, o magnata que também é proprietário do Plaza, em Nova Iorque, disse: “Estou confiante que o George V vai ser a jóia da coroa de hotéis do mundo. Foram feitos todos os esforços para oferecer o melhor dos serviços de luxo. Estou certo de que os hóspedes do George V vão experimentar um serviço inigualável.”
Quando um dia o confrontaram como uma das críticas mais recorrentes, comparando a Buffett como “buy and hold” (o investidor que nem sempre sabe quando vender), Alwaleed defendeu-se, respondendo: “Por exemplo, a News Corporation, o Citigroup, o Hotel George V, o Plaza em Nova Iorque – são activos insubstituíveis. Nunca poderei ter outro George V, nunca poderei ter outro Savoy ou nunca poderei ter outro Plaza.”
Da filantropia ao luxo, quem é o homem? É um saudita que se deixou cativar pelos ideais americanos, um beduíno, um fenício, um príncipe e um empresário, tantos num só fizeram dele um homem complexo. Apesar de ser membro da família real saudita, cresceu com relativa modéstia. O pai é o príncipe Talal bin Abdulaziz Al Saud, o 21.º filho do fundador da Arábia Saudita. A mãe é Mona El Solh, filha do ex-primeiro-ministro libanês Riad El Solh. Os pais divorciaram-se quando Alwaleed tinha 5 anos. Ficou a viver com a mãe, no Líbano, enquanto o irmão mais novo e a irmã viviam com o pai, em Riade. A viver com a mãe, a educação do jovem príncipe estava longe do esmero e do cuidado dos seus reais primos sauditas.
O príncipe Alwaleed fez-se e construiu a sua carreira a partir de 1979, depois de se graduar nos Estados Unidos, no Menlo College, Silicon Valley’s Business School (uma das mais prestigiadas instituições americanas de onde saíram inúmeras celebridades). Mas, como investidor, como homem de negócios, o príncipe saudita só começa a fazer-se notado no início dos anos de 1990, quando resgata o Citigroup por 590 milhões USD. À época a instituição estava à beira do colapso, e qualquer que fosse o investidor teria de ter em conta que se tratava de um negócio de risco. Apesar de uma maioria esmagadora de opiniões em contrário, Alwaleed desafiou a sorte e correu o risco (ele que nunca usa, nos negócios, a palavra jogo, porque é anti-islâmica). Ganhou. E o Citigroup tornou-se o ponto de partida e pedra angular da fortuna do jovem príncipe. Chegados a 2007, ao final do ano, todos sabemos o que aconteceu. O Citigroup quase que submerge na crise do Lehmon Brothers (subprime). Em 2008, o príncipe fez um esforço tremendo, com o apoio do fundo soberano de Singapura e fundos de Abu Dhabi e do Kuwait, mas as acções não pararam de cair, só em 2010 voltaram a um plano mais estável. Os reveses de uma fortuna que não o excluíram da lista Forbes dos multimilionários. Quando a revista, em 2013, o colocou na lista em 26.º lugar (com 20 mil milhões USD), Alwaleed protestou e processou a Forbes, porque, segundo as suas contas, deveria estar em 10.º (com 30 mil milhões USD). A verdade é que este ano a revista lhe atribuiu o 34.º lugar, com 24,3 mil milhões USD.Mas uma coisa é certa: o príncipe saudita é o maior investidor privado nos Estados Unidos.
É igualmente conhecido pelas suas incríveis capacidades multitasking (capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, falar, atender telefones, responder a e-mails, etc.). Um homem deste tempo, portanto, que se tem como uma pessoa religiosa que crê no destino, mas recusa a ideia de que “o que será, será”, defende que é preciso trabalhar de forma intensa, e depois, e só depois… confiar no destino.

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