Mercado

Uma fortuna com a resistência do aço

03/09/2015 - 15:14, Capital Humano, Upgrade

“Eu vejo oportunidades, onde outros só vêem problemas”, diz o homem que resiste à crise da China com uma fleuma hindu.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Bloomberg

Londres é a cidade que tem mais multimilionários no mundo. Dos 147 multimilionários (ou bilionários) da mais recente lista do Sunday Times, 80 vivem em Londres, e entre eles está Lakshmi Mittal, CEO e chairman da ArcelorMittal. E não é o único indiano multimilionário em território de sua majestade, os vizinhos são os irmãos Sri e Gipi Hinduja.
Continuando, os empresários e executivos indianos ou de origem indiana não param de crescer, em número e nos números – milhões de dólares americanos ou libras esterlinas, no caso, tanto faz para uma contabilidade que dá também outras contas: apesar da crise ou para além da crise, os ricos estão mais ricos.
Entre os indianos temos: Satya Nadella, da Microsoft; Indra Nooyi, da PepsiCo; Rakesh Kapoor, da Reckitt Benckiser; Francisco Dsousa, da Cognizant, ou, mais recentemente, Sindai Pachai, o novo CEO da Google, a principal empresa na nova holding Alphabet.
E, ainda que a fortuna de Lakshmi Mittal não esteja imune “ao efeito borboleta” – e com isto queremos dizer que a crise na China está a provocar um tufão em muitas fortunas e, já agora, em muitas economias do mundo–, ele e a família mantêm-se na lista dos dez homens mais ricos do Reino Unido, onde é o sétimo, com uma fortuna estimada em 14 mil milhões USD.
A lista é feita a partir de cálculos de riqueza que incluem terrenos, propriedades, activos ou acções, mas deixa de fora contas bancárias.
A ArcelorMittal, a maior produtora de aço do mundo, esteve todo o primeiro semestre deste ano a registar perdas que atingiram os 549 milhões USD, com um “modesto lucro” de 179 milhões USD, ainda assim três vezes mais do que o lucro obtido no ano passado no mesmo período. Em comunicado, Lakshmi Mittal fez saber ao mundo que: “No contexto da árdua e persistente pressão nos preços do aço e minério de ferro, a ArcelorMittal produziu resultados operacionais consistentes em relação ao primeiro trimestre.” É um facto, mas a quebra aconteceu a partir do segundo semestre de 2014, quando o desempenho da ArcelorMittal entra em declínio. No segundo trimestre, o lucro operacional bruto (EBITDA) caiu para 1,4 mil milhões USD, 20,6% em relação a 2014. No entanto, o grupo mantém o EBITDA na sua meta anual com um intervalo entre 6 e 7 mil milhões. Para o resto do ano, a siderurgia espera a estabilização da procura a nível global, com a continuação da recuperação na Europa e uma melhoraria nos Estados Unidos. Lakshmi Mittal congratulou-se com “o aumento sustentado na Europa”, região onde o grupo realizou uma ampla reestruturação desde o início da crise, encerrado o alto-forno de Florange, em Lorraine.
Enquanto o Velho Continente recupera de uma crise que já vai longa, no Novo Mundo, no Canadá, a ArcelorMittal Mines registou valores recordes no minério de ferro. O problema está mesmo na China. Vejamos como a ArcelorMittal faz frente ao preços que estão em queda – 10% em relação ao mês passado.

Mittal, um mundo de excentricidades
O mayor de Londres, Boris Johnson, conseguiu do magnata do aço 1400 toneladas para a segunda maior escultura do mundo, a ArcelorMittal Orbit, de Anish Kappor, visível hoje no Queen Elizabeth Olympic Park. Segundo Mittal, Johnson convenceu-o numa breve conversa de “45 segundos onde Boris falou 40”. O encontro decorreu em Davos, onde, pelos vistos, se fala de tudo e até de negócios.
Mittal assume-se como um corredor que corre em várias pistas da economia: a lenta – Estados Unidos e Europa; e a mais rápida – a China e a Índia. E uma terceira pista, intermédia – o Brasil e o Médio Oriente. Reconhece-se ainda que, na pista lenta, os Estados Unidos recuperam mais depressa do que a Europa, porque a estrutura política europeia “não é muito clara”.
Lakshmi Mittal nasceu em Sadulpur, Rajasthan, na Índia, e estudou no St. Xavier’s College, em Calcutá. Começou a sua carreira no negócio do aço da família. Em 1994, vários conflitos familiares levam-no a assumir a Mittal, uma empresa siderúrgica que é o ponto de partida para a consolidação da sua imensa fortuna. Ainda nesse ano, a Forbes incluiu-o na lista dos homens mais ricos do mundo, e nos anos seguintes Mittal viu-se envolvido em algumas polémicas que, se não beliscaram a sua fortuna, beliscaram um tudo-nada a sua reputação, fazendo dele um novo-rico. Falamos da sua imensa casa em Londres, em Kensington, comprada a Bernie Ecclestone e que transformou na casa mais cara do mundo. Uma residência à semelhança do Taj Mahal, com uma dúzia de quartos e estacionamento para mais de 20 carros.
E as compras não se ficaram por aqui, continuou a comprar casas aos vizinhos ricos, entretanto menos, de Kensington Gardens. Como prenda de casamento, ofereceu à filha Vanisha, que casou com Amit Bhatia, uma propriedade em Mayfair. “A qualidade da fome mudou, a fome não mudou”, e manter-se-á sempre, a fome que é mesmo fome, e a fome do dinheiro, do poder, da riqueza, do reconhecimento. é pelo menos o que pensa o homem que tem no escritório, em lugar de destaque, um desenho que a filha pintou quando tinha oito, 12 e 13 anos.

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