Mercado

Alexandre Carreira: “O sector necessita de capacidade de retenção e solidez financeira”

12/12/2016 - 09:46, featured, Finanças

O actual estado do mercado segurador, os projectos, além da estabilidade financeira das companhias, foram alguns dos temas abordados pelo administrador-executivo da Nossa Seguros.

Por Estêvão Martins | Fotografia Carlos Muyenga 

Qual é o balanço que faz da actividade da Nossa Seguros durante o ano que está prestes a terminar?

À semelhança de 2015, 2016 tem sido um ano de grandes desafios para o sector segurador em Angola.Como é consabido, a economia angolana desacelerou devido aos baixos preços do petróleo, que em 2016 atingiram mínimos de mais de 10 anos. A baixa taxa de crescimento económico e a inflação alta resultantes deste momento difícil da economia criaram constrangimentos importantes na operação das companhias do sector segurador. O baixo crescimento económico teve impacto directo no volume de receita, enquanto os altos níveis de inflação influenciaram os custos de estrutura. Sendo investidores institucionais, no entanto, as companhias de seguros têm beneficiado das altas taxas de juro disponíveis no mercado monetário e de capitais locais. Apesar do contexto económico desafiante, a Nossa Seguros tem conseguido preservar uma posição financeira sólida, fruto de uma gestão e de políticas prudentes, bem como tem preservado uma moderada mas confortável capacidade de geração lucros.

Quais foram as áreas com registo de maior crescimento?
As áreas de saúde, engenharia e construção foram as que mais se notabilizaram na nossa actividade.A Nossa Seguros colocou no mercado em 2015 um produto de saúde bastante competitivo, com coberturas complementares de evacuação médica de emergência e extensão territorial a Portugal, África do Sul, Namíbia e Brasil. Esse produto tem mostrado elevadas taxas de crescimento.
O crescimento nos ramos de engenharia e construção reflecte a resiliência do sector empresarial local neste período de crise, bem como os esforços da Nossa Seguros em acompanhar o crescimento dos nossos clientes. O ramo automóvel é o que regista o maior volume de vendas, apesar do seu decréscimo relativamente ao ano passado, reflectindo o deficiente cumprimento desse seguro obrigatório. Até Junho de 2016 o ramo automóvel registou um volume de vendas de cerca de 1,1 mil milhões Kz.

Qual foi o volume de negócios durante o primeiro semestre do ano?

No primeiro semestre de 2016, o volume de negócios situou-se em cerca de 3 mil milhões Kz, o que representa um crescimento de 5% relativamente ao registado em Junho de 2015. Apesar do crescimento registado, as nossas vendas de seguros obrigatórios diminuíram. Em 2016 esperamos atingir um volume de prémios emitidos que rondará entre os 5,6 e 5,8 mil milhões Kz. No ano passado terminámos as contas com um volume de prémios de 5,5 mil milhões Kz. Estamos portanto a perspectivar um crescimento que poderá rondar os 5% durante o ano de 2016.

Que projectos (programas) de realce fora desenvolvidos durante o ano?

Durante o ano, a Nossa Seguros passou a comercializar, por intermédio do canal bancassurance, produtos não ligados ao crédito, nomeadamente o automóvel, vida, viagens e multirriscos habitação. Temos estado a trabalhar para o lançamento de um fundo de pensões aberto cuja comercialização deverá ocorrer em breve.

Estamos envolvidos na actividade de gestão de fundos de pensões fechados desde 2012. Demos continuidade ao processo de expansão geográfica com a abertura de duas agências, nomeadamente a do Dundo, Lunda Norte e a do SIAC Talatona (Lunada). Hoje contamos com 26 agências espalhadas pelo território nacional, o que nos torna, seguramente, detentores da segunda maior rede de distribuição do sector em Angola. A Nossa Seguros é a única seguradora local com um rating atribuído por uma das maiores agências de rating mundial, nomeadamente a Fitch.

Esse exercício que ocorre anualmente, embora sendo um trabalho interno, é de grande importância, pois cristaliza o nosso compromisso com a transparência e a disciplina.

Que quota de mercado a Nossa Seguros possui?

Não possuímos dados de todo o mercado, no entanto, estimamos que a actualmente a quota de mercado da companhia se situa em 6,5% e que nos encontramos entre as cinco maiores seguradoras do mercado angolano.

Qual é a perspectiva de crescimento da seguradora para o próximo ano e quais são os planos para que fique entre os três primeiros lugares do mercado?

Para o ano de 2017, estimamos um crescimento da receita superior ao deste ano. A nossa VISÃO 2020 estabelece que devemos tornar-nos numa seguradora top 3 do mercado angolano até ao ano de 2020. Essa visão assenta numa proposta de valor diferenciada para os diversos segmentos de clientes; reforço da nossa quota de mercado e da nossa presença nacional através de uma estratégia multicanal.

O que lhe oferece dizer em relação ao mercado segurador nacional?

O sector tem estado a crescer, mas a taxa de penetração (prémios vs.PIB) é de apenas cerca de 1%, sendo das mais baixas no contexto africano. Contudo, devo realçar que o baixo desempenho desse indicador também nos sinaliza o forte potencial de crescimento do mercado. Os ramos não-vida dominam o mercado em mais de 90%, com forte preponderância dos seguros de saúde, dos seguros obrigatórios e dos seguros petroquímicos. A componente de microsseguros ainda não está desenvolvida. O ramo vida é exíguo e regista-se a ausência do seguro de vida financeiro, apesar do reforço do canal bancassurance. Existem apenas três seguros obrigatórios, sendo que a adesão aos mesmos por parte do mercado ainda está longe do desejável. Trata-se de um mercado em crescimento, mas que ainda não cresce à sua capacidade potencial porque existem constrangimentos a ultrapassar.

Como a seguradora tem contornado a escassez de divisas no mercado para honrar com os compromissos no exterior relativamente ao resseguro?

A Nossa Seguros tem-se deparado com os mesmos problemas que a maioria das empresas em Angola. Temos adquirido divisas junto da banca nacional para fazer face aos seus compromissos com o exterior.

Como consequência, observamos igualmente fragilizada a nossa posição negocial, sobretudo com os resseguradores, empresas fornecedores de serviços de tecnologia de informação e empresas de consultoria. Entendemos que, a médio-longo prazo, a solução passa por adquirirmos o máximo possível desses serviços localmente ou em moeda local. Esse diálogo com os nossos fornecedores/parceiros já está a ocorrer.

Acredita que a Ango Re, em fase de criação, poderá satisfazer as necessidades do mercado?

Iniciativas como a criação de uma resseguradora nacional, esquemas de co-seguro ou a consolidação do sector por intermédio de fusões e aquisições num mercado que conta com 24 licenças de seguradoras atribuídas, são bem-vindas.

O sector necessita de capacidade de retenção de negócio e solidez financeira. Note-se que o sector apenas retém cerca de 50% do negócio, cedendo os remanescentes 50% a resseguradoras internacionais. A retenção do negócio do resseguro localmente aumenta a riqueza nacional e gera empregos para os cidadãos angolanos. A poupança de recursos cambiais seria uma vantagem adicional e de grande importância para o País.

Devo ressaltar, no entanto, que é importante que os canais de acesso ao mercado ressegurador internacional se mantenham abertos às seguradoras locais para se garantir eficiência, preços correctos e a existência de conhecimentos especializados que determinadas linhas de negócio exigem. A taxa de penetração dos seguros no PIB ronda os 1%.

Neste contexto, o que acha que deve ser feito para que os seguros aumentem a sua contribuição na economia nacional?

Temos outros países em África com taxas de penetração substancialmente superiores. Na África do Sul, por exemplo, essa cifra é bem superior aos 10%, no Quénia ronda o triplo do que se observa em Angola, e na Costa do Marfim é cerca do dobro do nosso País.

Penso que há algumas tarefas que podem ser feitas para melhorarmos o quadro actual. Por exemplo, existe um enorme potencial para o crescimento dos produtos do ramo vida. O desenvolvimento da oferta de produtos de microsseguros seria outro eixo importante de desenvolvimento num país como o nosso.

Acha que a corretagem e a mediação devem ser tidas em conta neste processo?

A potenciação do canal de mediação e corretagem é outro aspecto a considerar, pois trata-se efectivamente de um importante canal para o crescimento do mercado.

Os canais electrónicos ainda não apresentam um nível de desenvolvimento adequado, e o canal bancassurance também tem desafios a ultrapassar. Há ainda outros aspectos a considerar.

A adesão aos seguros obrigatórios ainda está longe do desejável e é necessário que o sector trabalhe mais na promoção de uma cultura de seguros apostando na educação financeira e na divulgação dos benefícios dos seguros. Por fim, devo dizer que as companhias de seguros devem esforçar-se para serem sólidas, fiáveis, inovadoras e terem acesso às competências especializadas necessárias para conseguirem liderar esse processo.

É de opinião que é necessário a criação de outros seguros obrigatórios para que se aumente igualmente a taxa de penetração dos seguros no PIB e alavancar o próprio mercado?

Segundo a legislação angolana, existem três tipos de seguros obrigatórios: (1) Seguro de Responsabilidade Civil Automóvel; (2) Seguro de Responsabilidade Civil de Aviação, Transportes Aéreos e Infra-estruturas Aeronáuticas e (3) o Seguro de Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais.
Primeiramente, é importante notar que há espaço para a melhoria do cumprimento desses seguros obrigatórios. Quanto à possibilidade do alargamento da lista dos seguros obrigatórios, sou de opinião de que o sector está preparado para que o seguro de transportes de mercadorias seja obrigatoriamente feito localmente.

Apoio igualmente a ideia da obrigação do seguro multirriscos habitação para projectos habitacionais financiados com fundos públicos.

Como contribuem os seguros para o processo de diversificação da economia?

Por um lado, o seguro reduz a quantidade agregada de risco na economia, substituindo perdas incertas por custos certos e espalha o impacto das perdas que ocorrem pelos vários segurados. O seguro, em si, não elimina as perdas, nem reduz o custo das perdas na economia como um todo. Mas a previsibilidade e a possibilidade de controlar custos é um elemento bastante desejável na óptica das empresas e empreendedores.
De facto, o seguro contribui para o aumento dos investimentos e a rentabilidade, bem como melhora a produtividade e a sustentabilidade das empresas. Por outro lado, o seguro também proporciona uma utilização mais eficiente do capital.

Sem o seguro, os indivíduos e as empresas teriam de manter reservas relativamente grandes de fundos para fazer face aos riscos que assumem. Esses fundos, em forma de numerário ou investidos em instrumentos financeiros seguros, líquidos e de baixo retorno, seriam um uso ineficiente do capital. Em contraste, as seguradoras, gerindo os riscos de forma profissional, conseguem manter menos reservas, e esses fundos são utilizados para fins mais produtivos. É através destes dois mecanismos que os seguros contribuem para o crescimento de todos os sectores da economia.

Que sectores são prioritários, na sua opinião?

É importante sublinhar que há sectores económicos que, pela sua criticidade nas estratégias económicas e por estarem expostos a riscos bastante elevados, carecem de um enquadramento cuidado, que poderá passar por uma maior ou menor intervenção do Governo. O sector agrícola deverá ser visto à luz desses argumentos.

Em que medida o seguro agrícola, em fase de implementação, pode traduzir-se numa plataforma para o aumento da produção agrícola?

A Nossa Seguros faz parte arte de um programa-piloto patrocinado pelo Executivo e pelo órgão regulador para o lançamento do seguro agrícola. Os resultados do programa-piloto permitirão recolher dados para a formulação de políticas e legislação do seguro.

O programa resulta do reconhecimento de que a actividade agrícola está exposta a variadíssimos riscos que têm um impacto negativo na produtividade do sector.

O programa apoia o relançamento da actividade agrícola nacional na medida em que contribui para a redução dos riscos por intermédio de uma maior previsibilidade dos custos e melhora o acesso ao crédito. Espera-se que a rentabilidade, a produtividade, diversificação de colheitas e a sustentabilidade do negócio dos segurados aumentem. A utilização e promoção de seguros agrícolas é normalmente acompanhada de fortes níveis de subsidiação com impacto nos prémios cobrados aos segurados, em especial para os segurados de renda mais baixa e em situação de catástrofes.

Quais são os benefícios que pode trazer o seguro marítimo de mercadorias?

De facto, não há razões que justifiquem que o seguro de importações de bens não seja feito em Angola. A quantidade de recursos cambiais que Angola despende em importações CIF, na componente do seguro, é substancial, e esses recursos cambiais poderiam ter um uso mais útil para o País. Se os importadores nacionais adquirissem localmente os seus seguros de importações de bens, estaríamos a contribuir para a geração de empregos e riqueza em Angola. Penso que se deve incentivar a compra de serviços produzidos localmente que possuem qualidade equivalente aos dos que se produzem internacionalmente.

Qual é a constituição do fundo de pensões da Nossa Seguros?

Presentemente a companhia faz a gestão de apenas um fundo fechado, pelo que a divulgação de informação detalhada sobre o fundo que gerimos configuraria uma violação do princípio do sigilo profissional a que estamos obrigados enquanto entidade gestora de fundo de pensões.

Onde e como tem sido aplicado o dinheiro desse fundo?

Os fundos de pensões têm investido os seus recursos sobretudo em obrigações e bilhetes do Tesouro, depósitos bancários a prazo e em imobiliário. Aguardamos por um maior desenvolvimento do mercado de capitais para termos mais opções em termos de maturidades dos instrumentos financeiros e mais possibilidades em termos de instrumentos titulados de capital e dívida corporativos.

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