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António Assis de Almeida: “No Atlântico cultivamos a transparência da gestão e redução de riscos”

04/11/2016 - 09:36, featured, Finanças

O vice-presidente da comissão executiva do Banco Millennium Atlântico fala em exclusivo ao jornal Mercado sobre o processo de consolidação, volvidos 150 dias da primeira fusão na banca nacional.

Por Aylton Melo | Fotografia Njoi Fontes

Os indicadores macroeconómicos apontam para um ano tão difícil quanto 2015, a entrarmos na recta final de 2016, qual é a percepção do Banco Millennium Atlântico em relação ao ano em curso?

É consabido que o actual ambiente macroeconómico é particularmente desafiante. Para Angola e para a maioria dos países emergentes.

O País está a fazer o ajustamento necessário que advém da redução abrupta das receitas do seu principal produto. E esse ajuste causou expectáveis impactos na taxa de câmbio, na taxa de inflação, na redução de venda de moeda e na limitação da capacidade de investimento das empresas e do Executivo. Os principais números dos indicadores macroeconómicos são públicos e decorrem de um ajustamento que era necessário e inevitável.

No entanto, os números tiveram reflexo real nas famílias, nas empresas e no Estado, que tiveram de fazer um duro e rápido ajuste das suas expectativas e despesas face à nova realidade.

O ano de 2016 consolidou o quadro de ajuste, mas os indicadores permitem-nos perspectivar que o ponto mais baixo da crise já deverá ter ocorrido. Pensamos que o caminho é, de facto, aquele que tem sido apontado pelo Executivo: Diversificar a economia, manter o foco nos investimentos prioritários e na eficiência, dinamizar os sectores de bens transaccionáveis que reduzam a dependência das importações e contribuam para uma maior acumulação de RIL; refiro-me ao sector das pescas, da agricultura, da agro-indústria, da pequena e média indústria de transformação, do turismo e o investimento na qualificação profissional dos angolanos.

O ano de 2015 foi marcado por visíveis retrocessos no crescimento económico do País, mas nem tanto na banca nacional.

De acordo com os nossos cálculos, cresceu em activos acima dos 15%. Mas quais são, na sua opinião, os eventuais riscos ainda latentes?

Não conheço a origem do vosso dado, mas é provável que o sector bancário tenha registado um comportamento proporcionalmente melhor do que a maioria dos restantes sectores. No entanto crescer em recursos não significa necessariamente crescer em rentabilidade e em resultados.

O que pode explicar parte do crescimento dos activos sob gestão é a modernização e sofisticação da abordagem dos bancos ao mercado, a expansão nacional da rede bancária e o aumento dos níveis de literacia financeira, que têm sido factores que concorrem para o aumento das taxas de bancarização dos angolanos e, consequentemente, para a inclusão no sistema de recursos que antes estavam na economia informal.

No entanto, nos momentos de dificuldades económicas, o sector bancário depara-se com elevados desafios e, no actual contexto em particular, é necessário continuar a investir em meios tecnológicos, em processos e reforço de conhecimento e de competências, para haver um elevado controlo dos processos de risco de liquidez em moeda estrangeira, no risco operacional e nos processos de concessão e gestão do risco do crédito concedido à economia.

Sem o devido controlo destes riscos, os bancos não iriam conseguir honrar os recursos confiados pelos seus clientes e pelos seus accionistas, nem conseguiriam manter uma relação sólida com os bancos contrapartes internacionais.
O que pode a banca nacional fazer para ajudar o País a contornar o actual momento da economia, perante os conhecidos vectores macroeconómicos voláteis, como o Brent e outras commodities exportáveis?
Os bancos existem porque existem clientes. E os bancos sabem que têm de estar ao lado dos seus clientes, nos melhores momentos e nos momentos mais desafiantes.

Esse é o nosso foco, e não é por causa de dificuldades económicas que todos estamos a atravessar que vamos perder de vista o que é realmente importante. Apesar das limitações impostas pela política monetária restritiva, actualmente em vigor, que reduz a capacidade de conceder crédito, os bancos desempenham um importante papel no financiamento do sector privado, nomeadamente em projectos que contribuam significativamente para a diversificação da estrutura do PIB.

Os bancos também ajudam o País, se criarem soluções flexíveis para as empresas. Por exemplo, no Atlântico reforçamos a oferta de produtos de crédito especializado, nomeadamente operações de factoring, confirming e leasing, porque, cremos, podem conferir maior agilidade à gestão das operações de tesouraria das empresas e assim contribuir para uma melhor circulação de capital, fomentando o dinamismo da actividade económica.

Por outro lado, para que os bancos sejam capazes de ajudar os seus clientes, eles precisam de operar em Angola e ter sólidas e respeitadas relações com as contrapartes no mundo. Para o fazerem, necessitam de estar num sistema financeiro reconhecido nas praças financeiras internacionais.

E neste particular gostaria de destacar as acções que o regulador, Banco Nacional de Angola, tem realizado, com vista a devolver a credibilidade do sector financeiro angolano no mundo.

Mas isso não chega, cada banco em particular tem de trabalhar diariamente para se reger pelas mais exigentes regras internacionais de compliance, para poder ter bancos correspondentes que o reconheçam e respeitem. Só assim é que os bancos conseguem ajudar o País, as famílias, as empresas e o Estado, na sua relação com as praças financeiras internacionais.

No decorrer do segundo semestre do ano passado, o BNA deu início ao plano de acção de implementação da nova avaliação IAS/IFRS, no sentido de padronizar a demonstração de resultados dos bancos. Como está o Atlântico nesta matéria?

Estamos a cumprir escrupulosamente o plano definido pelo BNA, que passa por termos as IFRS implantadas até ao dia 31/12/2016.Estamos a trabalhar para ajustar os meios tecnológicos, os processos e a formação dos nossos quadros, para adaptarmos as nossas práticas bancárias às novas regras.Com serenidade e confiança, certos de que as novas regras são positivas. Porque vão ao encontro da padronização contabilística, em linha com as regras internacionais. A generalidade dos bancos lida de maneira distinta em relação ao percentual crescente do crédito malparado.

Como está o Atlântico a lidar com o seu malparado?

No Atlântico monitoramos permanentemente a evolução dos projectos dos nossos clientes; sempre que existe uma maior dificuldade num cliente, trabalhamos com este e encontramos soluções em conjunto. Esta atitude de parceria e de proximidade tem-nos permitido manter um nível de crédito vencido reduzido. Apesar disso, não deixamos de continuar a acumular provisões para eventuais riscos futuros. Actualmente, o nível de provisões do nosso balanço é muito confortável.

Como está a ser tratado este tema agora com a fusão?

Exactamente da mesma forma como o fazíamos anteriormente, porque em matéria de gestão de riscos, os dois bancos tinham procedimentos e atitudes muito semelhantes.
Agora, é óbvio que a adversidade económica que afecta o nosso País impacta na actividade das empresas e no mapa financeiro das famílias angolanas.
O Atlântico acredita nos seus clientes, nos empresários e nas famílias angolanas. Por isso, estamos permanentemente a trabalhar com estes para ajudá-los a estruturar melhor as operações de financiamento para que possam cumprir com as suas responsabilidades financeiras.

Na sua opinião, por que razão a taxa de juro sobre o crédito permanece das mais altas da região da SADC e Europa, quando especialistas e a história das crises indicam que devem baixar para estimular a economia?
Permita-me discordar, em 2016 chegámos a um pico próximo de 40% de taxa de inflação, e a taxa nominal de referência está próximo dos 16%. Ou seja, a taxa de juro real é significativamente negativa. E neste contexto deixe-me enaltecer o sentido de responsabilidade do Comité de Política Monetária porque, apesar da elevada inflação, manteve um crescimento moderado das taxas de referência. Porque, caso contrário, se tivessem efectuado uma subida das taxas nominais para o valor da inflação, esse passo seria desastroso para as famílias e para as empresas que contraíram créditos. Temos de esperar que as medidas em curso e a melhoria da balança de pagamentos tragam a inflação de volta à normalidade, para que depois seja possível ir reduzindo o valor das taxas de juro.

Até que ponto as alterações das taxas de referência do BNA causam retracção no crédito que o banco concede?

Como já referi, as taxas de referência do BNA estão em termos reais em níveis negativos.O que acontece é que, mesmo nesse contexto, as empresas e as famílias reduzem as suas intenções de contrair novos créditos, o que é natural. Adicionalmente, recordo que os níveis de reservas obrigatórias actuais limitam a capacidade dos bancos de continuarem a aumentar de forma significativa o volume de crédito.

Como os recursos que estão parqueados no banco central não são, na sua maioria, remunerados, os bancos não têm outra forma senão fazer reflectir esse custo financeiro na taxa de juro dos créditos que concedem. Mas, volto a referir, temos de deixar que o ajuste económico aconteça, para observarmos um retorno das taxas para uma normalidade financeira.

Como lidar com tais alterações, visto que limitam a disponibilidade dos bancos comerciais na interacção com os investidores?

A relação entre um cliente e um banco não se esgota na relação de crédito. Hoje, vivemos num quadro económico que não incentiva os nossos clientes a recorrer ao crédito, nem os bancos têm elevadas disponibilidades para o fazer. Neste contexto, apesar dos constrangimentos existentes, o Atlântico mantém uma proactiva atitude de aconselhamento financeiro aos seus clientes, orientando-os sobre as melhores soluções financeiras e para projectos sustentáveis que agreguem valor à economia e contribuam para a redução dos factores que potenciem a inflação e que estejam em linha com o objectivo de diversificação do PIB de Angola.

O Atlântico continua a abordar os clientes para melhorarem a sua relação com o banco, mas o que está a fazer para tornar os produtos mais atractivos? Por exemplo, as diferentes aplicações a prazo?

Se se recorda, um dos lemas do Atlântico é “O Amanhã começa agora”. E isso não é uma frase solta.É uma frase que personifica a nossa cultura de queremos ajudar os nossos clientes a definir o seu mapa financeiro de médio prazo, incentivando-os a poupar hoje, para o futuro. E, para isso, temos equipas empenhadas a criar e a desenvolver as soluções mais rentáveis para as poupanças dos nossos clientes.O ano está marcado pelo início da fusão entre os bancos Privado Atlântico e Millennium Angola. Mas já se pode falar de consolidação efectiva desta fusão?

Os accionistas do Banco Privado Atlântico e do Banco Millennium Angola decidiram aprofundar a parceria estratégica que já existia desde 2007, decidindo por uma fusão para potenciar as forças complementares destas instituições, em que a soma do todo fosse maior do que a soma das partes. A fusão era uma operação de alguma complexidade. Mas, hoje, podemos afirmar que, em matéria de cultura, processos, serviços, produtos e placas tecnológicas, a fusão está concluída.

A par do processo de integração das pessoas, a integração tecnológica foi o maior desafio que tivemos. Conseguimos, em 150 dias, concretizara transição de quadros do banco e a integração dos sistemas de informação, garantindo a segurança e a integridade dos dados.

Nota importante para o facto de todos estes processos terem sido conduzidos e implementados, maioritariamente, por jovens quadros angolanos forjados no Atlântico. Estamos de facto numa nova era. Após a fusão materializada, estamos em processo de consolidação e de melhoria contínua.

Qual será o passo seguinte?

Terminada esta fase, estamos a trabalhar para afinar a estratégia que nos guiará para os próximos três anos.

Na sua opinião a disponibilidade em divisas (EUR, USD), apesar de recuperar timidamente, pela banca comercial poderá manter-se limitada em 2017?

Nem eu, nem ninguém poderá responder-lhe de forma assertiva a esta questão. As dificuldades na obtenção de divisas resultam do facto de se registarem quebras acentuadas na oferta, para os actuais níveis de demanda. É uma variável intrinsecamente ligada ao volume de receitas geradas pelas exportações. O que se observa é uma recuperação progressiva do preço do petróleo, por diversos factores conhecidos, e isso perspectiva uma tendência de melhoria da nossa balança comercial. Se essa tendência se mantiver, então é de esperar uma melhoria gradual da oferta de divisas.

Que factores continuarão a influenciar (positiva e negativamente) e que podem ser apontados?

Do lado positivo, a mudança comportamental dos agentes económicos e o foco destes em investir nos sectores de bens transaccionáveis, é um factor que vai contribuir, progressivamente para a menor dependência do sector do petróleo.
Por outro lado, a subida moderada e progressiva dos preços do petróleo, como já referido, é em si um factor relevante de recuperação. Do lado negativo, destaco os sinais de instabilidade económica que vêm do exterior. A China está a desacelerar o crescimento, o Brasil está em contracção, a Europa está numa encruzilhada económica e política, e nenhum destes factores ajuda à pujança económica do mundo. Consideramos a continuada capacidade de Angola de aumentar os níveis de produção petrolífera para mitigar o impacto da queda dos preços, permitindo alterações para cima na capacidade de acumulação RIL que, recomenda-se, deve ser gerida no sentido de ajudar a economia a se estruturar para crescer de forma consolidada e sustentada no M/L Prazos, o que apenas será possível se o objectivo da diversificação do PIB for alcançado. Do outro lado, consideramos existirem alguns factores de risco, sobretudo associados à manutenção ou possível redução do preço do barril de petróleo e o recurso cada vez maior ao endividamento externo.

Tais factores podem traduzir-se em maior necessidade de recurso às RIL, para, por um lado, assegurar as importações e, por outro, o cumprimento do serviço da dívida externa, colocando em risco o objectivo de diversificação da economia.

Como está o banco a responder ao dilema da limitação das divisas no País?

Ao nível da política cambial, o Atlântico tem interagido regularmente com os seus clientes, com as autoridades governamentais e de supervisão, bem como com os bancos contrapartes internacionais, para criar equações e soluções financeiras, com vista a apoiar as famílias e as empresas, a superar com sucesso estes momentos desafiantes.

Recentemente veio a público uma notícia a respeito de uma dívida da Sonangol ao Banco Millennium Atlântico no valor de 1,2 mil milhões USD. Qual o posicionamento do banco relativamente a esta questão, apesar do desmentido?

O banco mostra-se surpreendido, porque a notícia não corresponde de todo à verdade. A Sonangol não tem nem teve empréstimos dessa dimensão no Banco Millennium Atlântico. Segundo as normas prudenciais do BNA, para níveis de exposição de tal montante a um único cliente, o banco teria de ter fundos próprios na ordem de 4,8 mil milhões USD. Nenhum banco em Angola tem tamanho balanço.  Seria um sinal excelente se por esta altura o Atlântico já tivesse esta dimensão. Mas estamos certos de que um dia alcançaremos essa dimensão, com trabalho e rigor.

Que impacto gerou esta informação interna e externamente?

Ficámos surpreendidos, mas, quando trabalhamos de forma séria e com base em factos, aprendemos a ler essa notícia como ela é, ou seja, uma desinformação. E, por isso, foi também com serenidade que explicámos este facto a quem nos questionou sobre ele. Para nós, é um caso encerrado. Há um novo modelo de governance do banco.

Como vice-presidente quais são as suas responsabilidades?
Temos uma comissão executiva que sai do conselho de administração que é composta por sete dos 15 conselheiros. Como mandam as boas práticas internacionais, a pessoa do PCA e do PCE são diferentes, por conseguinte, quadros diferentes do banco. Enquanto vice-presidente da comissão executiva, levo a responsabilidade de COO (chief operating officer).

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