Mercado

Carlos Cerqueira: “O pós-venda é o que sustenta hoje os custos da empresa”

13/02/2018 - 09:19, Business, featured

CEO do Grupo Salvador Caetano conta como a empresa se reestruturou para aguentar a crise e garante que Angola poderá vir a ser o “epicentro” do desenvolvimento do Grupo Salvador Caetano na África subsariana.

Por Aylton Melo

O mercado automóvel cai desde 2015, sobretudo, sendo a falta de divisas apontada como a principal ‘culpada’. Como é que a Robert Hudson tem resistido a estes tempos difíceis?

Após o boomde 2014, quando as marcas venderam, oficialmente, ou seja, segundo dados da ACETRO [associação do sector], 44 mil carros, mas as importações foram de 132 mil carros, começou a crise. Nós caímos de 2440 carros para 1306. Fizemos a restruturação que achámos, na altura, que devíamos, e temos tentado segurar a estrutura. É uma realidade que já conhecemos, porque temos passado por várias crises, em diferentes mercados, com as vicissitudes de cada país.

Qual foi a queda?

Em Angola, em termos de vendas de automóveis, o mercado caiu 90% nos últimos quatro anos. O Grupo Salvador Caetano, com a Robert Hudson a representar a Ford, e a Drive Angola a representar a VW/ /AUDI/SEAT, também representa máquinas e equipamentos, através da Lusilectra, e temos procurado diversificar o negócio, por exemplo, através de outras representações oficiais, tais como a venda de empilhadores Toyota, e com produtos que mais se adeqúem ao desenvolvimento da economia angolana. Estamos ainda, e cada vez mais, a alavancar, fidelizar e conquistar clientes no pós-venda, algo que é estratégico.

O pós-venda está a correr bem?

Estamos a conseguir sustentar esse negócio, apesar da quebra nos últimos dois anos. Estamos a conseguir manter os postos de trabalho, e isto faz com que sejamos mais céleres nas respostas, a acompanhar melhor o cliente e a aumentar os níveis de satisfação. O facto de existirem cada vez menos peças no mercado paralelo faz com que mais clientes venham até nós. Hoje, o negócio está estruturado de modo a que o pós-venda suporte os custos da empresa, com uma componente de mão-de-obra nacional. Estamos à procura de produtos alternativos, com a importação do que ainda não é produzido em Angola, baseados na alocação de divisas. Se houver uma aposta forte na indústria, e tudo indica que tal venha a existir, as empresas vão precisar de equipamentos, e cá estaremos com estes produtos, também, para oferecer.

Sofreram mais com a falta de oferta, ou de procura?

Angola é um mercado com uma especificidade completamente diferente de outros. Normalmente, nas crises, especialmente no negócio automóvel, fazemos campanhas, descontos e promoções para vender carros. Em Angola, não se passou isto. A crise afectou do lado da procura, em termos monetários, e do lado da oferta, pois vivemos de produtos importados – venda, serviço pós-venda e peças. A falta de divisas afectou drasticamente a importação destes produtos, o que fez com que a oferta fosse inferior à procura.

Qual é a previsão de vendas de carros para este ano?

Prevemos vendas iguais às do ano passado, cerca de 4 mil viaturas para o mercado de todas as marcas. Mesmo que haja melhorias, o esgotamento do stockvai reduzir vendas. Se quiser um carro hoje, não tenho para vender. Mas teremos, daqui a quatro ou cinco meses… assim, parte do ano já se perdeu, em termos de potencial de venda.

A procura também foi afectada pela subida acentuada dos preços, que chegou a 200%. Porque subiram tanto?

Os preços subiram, fruto da desvalorização do kwanza e por não haver divisas. Antes, 1 USD custava 98 Kz, agora a banca comercial cobra acima de 240 Kz, o que tem logo repercussão directa. Depois, é preciso perceber que aqui, ao contrário da Europa, onde há sistemas de distribuição perfeitamente definidos, há um ciclo entre a encomenda e a chegada do carro. Na nossa marca mais representativa, a Ford, por exemplo, encomendamos carros a sete fábricas, em função do modelo, e as fábricas obrigam a uma pré-planificação, ou seja, temos de informá-las sobre os carros que queremos que sejam produzidos no próximo mês. Para eles alocarem a produção deste mês, se for na África do Sul, o carro demora depois três semanas a chegar a Angola. Estamos a falar de três meses, no ciclo todo. Se for um modelo fabricado na Índia ou na Turquia, pode demorar oito. Neste espaço de tempo, havendo uma desvalorização cambial, o preço da encomenda em dólares é o mesmo, mas em kwanzas, não. Por outro lado, temos a pagar 27 milhões USD à Ford, que não deixa vir carros enquanto não pagarmos.

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