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“Com o barril de petróleo a 8 USD, o País garantiu estabilidade”

20/01/2017 - 13:20, featured, Finanças

Cunha Neto, antigo governador do BNA e que acompanhou a substituição do escudo português para o Kwanza, em entrevista para o Vanguarda.

Leia um excerto da entrevista realizada por Amílcar Cabral. Fotografia: Carlos Muyenga 

Estamos a assinalar os 40 anos da troca de moeda no País, como foi esse processo?

Na altura fui destacado para fazer a troca de moeda, na antiga base da Força Aérea aqui em Luanda, numa operação que foi tão sigilosa que só nos apercebemos quando vimos os camiões a descarregarem volumes de dinheiro. Sem sabermos para que era aquilo tudo, tanto dinheiro a ser descarregado no Banco Nacional de Angola. Estava aquele aparato todo, mas para um bom entendedor, percebemos que alguma coisa estava a aproximar-se. Digo com toda a sinceridade que o segredo da troca da moeda foi mantido a sete chaves. No véspera do dia aprazado da troca da moeda, fomos aconselhados a não sair do Banco, e de manhã fomos distribuídos uns para as províncias e outros como eu para diversas áreas aqui em Luanda.

Com quem trabalhou nessa operação? Lembra-se?

Lembro-me que, para além do doutor Nicolau Ferreira que também era membro da Comissão Sindical, estava na altura o Cipriano Lopes que depois foi para a OBC e muitos outros que a memória vai apagando.

Antes de ser vice-governador do Banco Nacional de Angola ocupou outros cargos de chefia dentro do banco?

Ocupei. Fui subindo a escadinha, passei por tudo o que era canto dentro do Banco Nacional de Angola. Entrei para aquilo a que se chama hoje o balcão da frente como operador daquelas máquinas que lançavam os depósitos para a entrada de dinheiro no banco e os levantamentos através dos cheques e outras operações gerais. Depois passei para a contabilidade. Na altura, os quadros de contabilidade eram ineficientes, eu tinha perfeita noção do que se fazia na primeira posição, a que eu me referi, a entrada e saída de dinheiro. Paralelamente a esses lançamentos, havia no andar de cima um movimento idêntico que era feito na medida em que saiam da nossa área para lá. No dia seguinte, antes do banco começar a funcionar era preciso garantir que não tinha havido nenhum erro de lançamento e, provavelmente, de erro de pagamento a mais. Depois disso criou-se a DOI (Direcção de Operações Internacionais, que depois saíu da sede para um prédio na Marginal. Fui para lá como técnico de análise de contratos, onde, praticamente também tive projecção ate chefiar esse gabinete técnico. Nessa altura, já tinha sido indicado para acompanhar a nossa inserção no Banco Africano de Desenvolvimento, tendo sido, três anos depois, indicado para ser administrador adjunto e três anos depois indicado para administrador, cargo que não cheguei a desempenhar por ter sido chamado a regressar ao Banco Nacional para ser nomeado vice-governador.

Quando chegou a vice-governador, quem era o governador?

Na altura, o governador era o doutor Augusto de Matos que acumulava também as funções de ministro das Finanças. Como pessoa o doutor Augusto era de um humanismo profundo, ele conseguiu, de facto, ter em conta os problemas dos trabalhadores, numa altura em que as nossas finanças, quer internas quer externas, estavam de facto no limiar da estaca zero. Para ter uma ideia, em 1982 houve uma baixa no preço do petróleo, que foi, de facto, o primeiro ‘back’ que tivemos em termos de exportação do nosso produto principal, o petróleo. Nessa altura, tivemos que começar a negociar a nossa divida externa que já não era pequena. Em 1986 tivemos uma segunda e dramática baixa do petróleo que saiu dos 32 USD o barril para os oito, chegando aos seis USD, nesta altura já não estávamos bem com as finanças internas e externas. Ainda assim, conseguimos manter um certo equilíbrio porque com o recrudescimento da guerra de 80 a 86, o Pais vivia de importações, quer para alimentação da população quer para alimentação e municiamento das Forcas Armadas. Foi um processo conduzido no Clube de Paris, onde estavam inseridos todos os países europeus, que tinham formado uma espécie de sindicato para que todos os devedores, antes de irem negociar unilateralmente, primeiro tinham que sentar-se nesse fórum que traçava as bases, através das quais, iriam ser negociadas as dívidas relativas a cada um deles. Em 86 foi a última vez que negociamos com o Clube de Paris. A partir daí só com a entrada de Angola no Fundo Monetário Internacional (FMI) é que voltaríamos a ter acesso o a negociações com o Clube de Paris que permitiriam abrir portas para novos créditos. Quer dizer que ficamos com as importações dependentes de todos os países europeus, fechadas. Era preciso passar por uma tramitação que nos levou cerca de três anos, de 86 a 89, passando, primeiro como observadores, para a criação de ambiente de aproximação, e depois com o estatuto de pré aderentes para depois de obedecer a alguns requisitos, nos tornarmos membros do FMI e de outras instituições como o Banco Mundial, etc.

Como foi ultrapassada essa situação?

O Pais conseguiu ultrapassar essa situação através da serenidade do doutor Augusto de Matos que conseguiu abrir alguns caminhos. A única forma de conseguir que o Pais não caminhasse para situações extremas, quer para a alimentação da população quer para as Forcas Armadas foi abrir três janelas. A primeira foi com a Espanha, um país que tinha de facto uma aproximação connosco, com quem negociamos algumas linhas de crédito de curto prazo, com base em garantias reais, sendo um carregamento de petróleo por mês. O Brasil que mantinha excelentes relações a nível financeiro e não só, embarcou também no mesmo princípio e Portugal não fez excepção. Deste modo, ficamos as portas abertas com esses países e as linhas de crédito asseguradas com base na garantia do petróleo. Fomos mantendo essa situação, numa gestão permanente de tira aqui e põe ali, porque o petróleo não chegava para todos. Passamos a ser como aquele tipo de comerciantes vendedores de banha da cobra, um carregamento num mês ia para um e noutro mês ia para outro (risos). Conseguimos manter, durante algum tempo, a vela acesa e mantivemos o Pais em termos de estabilidade alimentar.

Como surgiu o convite para ser governador do BNA?

Como disse, eu estava a caminho do Banco Africano de Desenvolvimento como administrador e nessa altura tinha que terminar um estágio em Londres para aperfeiçoar o meu inglês. Estava a 15 dias desse estagio quando fui contactado para regressar imediatamente para o Pais. Claro que não me adiantaram mais nada. De facto, achei estranho porque tinha deixado tudo em ordem e, na altura, o governador Augusto de Matos ligou para mim duas ou quatro vezes para que eu tomasse o avião o mais depressa possível. Bom, eu tinha que obedecer. Chegado cá, estava em curso um inquérito a propósito de uma empresa de construção angolana que tinha erguido prédios na avenida que dá acesso ao aeroporto e havia indícios de algumas irregularidades. Fui então indigitado, para, em termos de banco, integrar a comissão encarregue a apurar os factos. Nessa altura tínhamos alguma aceitação junto do partido. Éramos como que os olhos e os ouvidos junto do partido para informar o que se estava a passar no Banco. Acredito que foi nesse quadro que fui chamado para integrar a equipe de governo como vice-governador e mais tarde, como Governador no elenco conduzido pelo doutor França Van-Dúnem, nas vestes de primeiro-ministro.

Saiba mais, na nova edição do Jornal Vanguarda, já nas bancas.

 

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