Mercado

Frederico Izata: “A produção nacional de cerveja é suficiente para cobrir o consumo nacional”

06/02/2017 - 09:00, featured, Finanças

O responsável das relações institucionais da Cuca diz que a actual situação económica do País afectou o volume de vendas da empresa e alerta para as consequências da falta de divisas em função da importação de matéria-prima.

Por André  Samuel | Fotografia Njoi Fontes

Qual é o balanço que faz da actividade realizada pela cervejeira nestes dois últimos anos, comparativamente a 2014, por exemplo?

Em 2014 verificou-se um ligeiro decréscimo de vendas, face a anos anteriores. Em 2015, observámos dois momentos: o primeiro antes dos constrangimentos económicos, onde se verificou uma evolução positiva das vendas, fruto de medidas que visaram a expansão e o crescimento do negócio, o segundo momento com a desvalorização da moeda e consequente aumento dos preços e perda de poder de compra, vivemos momentos mais complicados, com quedas nas vendas a atingir os 40%.

Em 2016, reajustámos a operação para fazer face à actual conjuntura económica, salvaguardando a qualidade e disponibilidade de oferta. A partir de meados deste ano, observamos uma clara recuperação do mercado, com a procura a reflectir o aumento de vendas face ao período homólogo.

De acordo com a actual conjuntura económica, como explica o vosso desempenho?

Acreditamos que esta recuperação é fruto de uma mudança dos padrões de consumo dos angolanos. Hoje verificamos no mercado nacional preços exagerados e inacessíveis, como caso do vinho e bebidas espirituosas.

A Cuca, como cerveja nacional, tem uma presença constante nas mesas dos nossos consumidores, nos diferentes momentos de consumo. As importações destes produtos também baixaram e foram substituídas por marcas nacionais. Hoje, a produção nacional de cerveja é suficiente para cobrir todo o consumo nacional, que é um objectivo fixado pelo Executivo.

Que análise faz da concorrência numa altura em que se verifica o surgimento de novas cervejeiras?

O mercado das cervejas é muito concorrencial, com um enorme volume de negócios. O gosto dos angolanos é muito particular, e é preciso saber satisfazer esse apetite. A concorrência quer-se dinâmica, atenta e com capacidade para satisfazer as necessidades do mercado, para que no fim do dia seja o consumidor quem ganhe com as estruturas de produção em Angola.

Qual o feedback que têm tido junto dos consumidores nacionais?

É muito gratificante receber dos nossos consumidores o reforço da preferência pelo nosso sabor.

A concorrência é saudável em qualquer mercado, e este não será diferente. Certamente que as empresas que entram no mercado das cervejas em Angola constroem equipas para encontrar soluções que vão ao encontro das preferências deste mercado.

A Cuca tem uma equipa de profissionais muito experientes, que tem como desafio cada vez maior garantir os padrões de qualidade e segurança aos mais altos níveis internacionais, garantindo assim que a preferência dos consumidores é fundamentada.

Não preocupa à Cuca o facto de este ano o mercado vir a contar com novos players?

A Cuca é líder por mérito próprio, pelo seu sabor inigualável. Olhamos o futuro concorrencial de forma segura e confiante.
Sabemos que temos o melhor produto do mercado, e acreditamos que iremos continuar a estar na preferência dos consumidores. A Cuca produz e controla a qualidade dos seus produtos a pensar no público e nas suas necessidades. Todos os nossos produtos são concebidos de acordo com as preferências dos consumidores e de acordo com as suas expectativas. Desenvolvemos o nosso trabalho a pensar sempre no consumidor, pelo que a nossa preocupação estará sempre voltada para a garantia de que satisfazemos as necessidades do mercado.

Qual é a quota da Cuca no mercado nacional?

Como é de conhecimento público, não existe medição exacta das quotas de mercado em Angola, no entanto, o que lhe posso dizer é que a marca Cuca historicamente mantém uma quota de mercado superior a 50%.

Qual foi o valor do investimento feito em 2016?

Fruto da conjuntura vivida no País, mantivemos os nossos investimentos focados na reposição de maquinaria, essencial à manutenção da qualidade e da nossa capacidade produtiva. O Grupo Cuca-BGI investiu, nos últimos 15 anos, em Angola, mais de 1000 milhões USD, com a efectiva entrada de capitais no País, o que lhe permite em momentos de maiores restrições poder gerir de forma serena e sem riscos o seu esforço de investimento. Este esforço foi reconhecido como o maior investimento em Angola, na última edição dos Prémios Sirius.

Qual é o valor que contam investir em 2017?

Existem vários projectos em avaliação pela administração que estão condicionados à disponibilidade de divisas.
A nossa prioridade é ter acesso a matérias-primas e outros materiais que ainda requerem acesso a divisas e sem as quais não podemos abastecer o mercado.
É verdade que hoje já adquirimos internamente a maioria das nossas necessidades produtivas, no entanto, existe um conjunto de materiais que ainda estão dependentes de importação.

Como resolver este problema, então?

É neste sentido que o grupo Cuca-BGI vai avançar, ainda neste ano, com um projecto agrícola de 4000 hectares, na região de
Malanje que implicará um esforço financeiro de 50 milhões USD, para a produção de cereais que nos permitirá no futuro depender menos de importações.

Qual foi a taxa de crescimento em 2016, comparativamente a 2015?

Apesar da recuperação que o mercado tem revelado, continuamos com um volume de vendas inferior a 2015. Fechamos o ano em paridade com período homólogo.
Expliquem um pouco o vosso processo de internacionalização.

O projecto de internacionalização é recente, em linha com o actual cenário económico que o País vive, e que visa contribuir positivamente para aumentar da disponibilidade de divisas, através da exportação. No entanto, um verdadeiro processo de internacionalização implica autonomia de recursos, para assegurar a necessidade de produção.

Mas já está a acontecer…

Sim, o nosso projecto de internacionalização está profundamente relacionado com o nosso projecto agrícola e com uma visão de futuro de uma Cuca produzida essencialmente com materiais locais. Esta é uma visão de uma Cuca espalhada pelo mundo, que ajuda a transmitir valores angolanos e a ser uma fonte de receitas para o País, fortalecendo a balança comercial.

Como é que a empresa vem lidando com o actual cenário de crise e falta de divisas?

A falta de divisas é uma preocupação efectiva. Reduzimos bastante as nossas necessidades de divisas mensalmente. Por exemplo, a maioria das embalagens para os nossos produtos são fabricados em Angola (latas, garrafas com a Vidrul, caricas e tampas, rótulos, etc.).
Importamos apenas matérias-primas como malte, gritz, lúpulo, entre outros, e peças de reposição para as nossas máquinas. A forte subida do consumo, a partir de Julho de 2016, aumentou proporcionalmente as nossas necessidades mensais de divisas.
Um cenário complicado…

Estamos a trabalhar com os ministérios da Indústria, da Economia e das Finanças no sentido de garantir as divisas necessárias para o normal funcionamento da nossa indústria e para abastecer o mercado.

É importante evitar a flutuação de divisas e garantir a sustentabilidade económica e financeira da estrutura e da operação.

Qual foi o impacto que a crise teve na produção, nos quadros e no programa de expansão da empresa?

Todos estes momentos de dificuldades económicas vividos nos últimos dois anos tiveram um impacto menos positivo na nossa produção, que teve como consequência uma necessidade de ajustamento dos nossos quadros e estruturas de custos.

Um processo levado a cabo de forma concertada com os nossos sindicatos e parceiros.

Esperamos que a recuperação económica se consolide e que nos permita futuramente crescer. Por outro lado, consequência do ajuste que teve de ser feito, houve também investimento na optimização de processos e recursos,que não só melhoraram o desempenho, mas também permitiram aumentar a qualidade e a segurança.

Quais são as medidas que tomam para garantir a qualidade do vosso produto?

A preocupação com a qualidade do produto é transversal a toda a operação e claramente a questão mais importante de todo o processo produtivo/industrial.
O controlo de qualidade começa na rigorosa selecção de fornecedores e matérias-primas, passa pelo eficiente sistema de manutenção e limpeza dos equipamentos e termina com um controlo físico-químico, microbiológico e organoléptico do produto durante todas as fases de produção.
Trata-se de um processo rigoroso?

Sim, somos muito rigorosos em relação à qualidade. Além do controlo laboratorial do produto durante todas as fases do processo, todas as matérias-primas (com especial foco na água) e materiais de embalagem são analisados com todo o rigor e de acordo com o plano de inspecção e ensaio de cada unidade. As nossas fábricas têm um rigoroso sistema de qualidade implementado. Algumas delas têm as certificações internacionais de gestão da qualidade ISO 9001 e de segurança alimentar ISO 22000.

Que acções estão a tomar para alavancar as vendas em função da baixa que se regista actualmente?

Analisamos o mercado e respondemos adequadamente em função das suas necessidades, sempre com vista à satisfação última do mercado. Capacitamos as equipas comerciais para uma melhor entrega e execução; optimizamos recursos e processos que melhoram não só as vendas mas também garantem uma melhor execução de todos os projectos, entre outras medidas técnicas e ao nível da operação. Estamos focados todos nesse sentido.
Que inovações foram feitas no produto nos últimos anos?

Estamos a estudar novos lançamentos para ir ao encontro das oportunidades que vamos identificando no mercado. Parte destas soluções estão pendentes de investimento em novas linhas de produção e/ou alterações às linhas já existentes que dependem directamente de disponibilidade de divisas.
Como vai ser feita esta gestão?

Esta gestão é feita em função da evolução da economia, sem nunca colocar em causa o normal abastecimento dos nossos clientes e parceiros, bem como a disponibilidade dos nossos produtos nas mesas dos angolanos.

Como optimizam a produção de Cuca nas várias fábricas?

Como grupo, trabalhamos sempre com base em planos de vendas negociados com os nossos clientes e parceiros, em função das necessidades e oportunidades do mercado em cada momento.

Depois são ajustados os fluxos logísticos entre as fábricas para responder a uma dupla equação: Máxima eficiência versus disponibilidade de produto ao cliente. Trabalhamos em rede nacional, com produção e distribuição local para prestarmos o melhor serviço.

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