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Gás natural: a energia incontornável

22/01/2018 - 16:36, featured, Opinião

O gás natural é sem dúvida um recurso valioso para o futuro de Angola

Por Rui Amendoeira
Advogado e especialista em assuntos petrolíferos

De todas as fontes de energia existentes na Terra,  o  gás  natural  é, provavelmente, aquela que gera sentimentos mais ambíguos e indefinidos. A narrativa imposta pelo pensamento ‘politicamente correcto’ em matéria de energia afirma que existem fontes ‘boas’ e ‘más’. As más integram o carvão e o petróleo. As boas são representadas pela água, o vento, o sol, as plantas e as arvores. Umas são apelidas de ‘não renováveis’, e outras, de ‘renováveis’, ainda que, em bom rigor, todas sejam não renováveis, posto que um dia, esperemos que muito distante, a Terra e o Sol também irão desaparecer. Esta dicotomia entre fontes de energia boas e más, limpas e sujas, verdes e negras, está de tal modo enquistada no discurso político, social e até científico, que adquire o estatuto de verdade insofismável. Ainda que uma análise cuidada, e despida de preconceitos ideológicos, sobre o saldo final das várias fontes, considerando todos os factores envolvidos (económicos, sociais, ambientais, etc.), mostre que nem as fontes boas são assim tão boas, nem as más assim tão más.

Nesta visão binária, o gás natural é uma espécie de swing energy, ora vista como ambientalmente mais limpa que o carvão e o petróleo, ora considerada um obstáculo ao pleno desenvolvimento das energias renováveis. Os ambientalistas mais radicais desconfiam do gás natural, porque o vêem como uma espécie de cavalo de Tróia que os interesses energéticos instalados, nomeadamente as grandes companhias petrolíferas, utilizam para manter o status quodo domínio dos combustíveis fósseis e retardar a progressão das energias renováveis. Quem assim pensa gostava que a transição energética se fizesse por saltos quânticos e não graduais, como se toda a frota de Chevrolets a gasolina fosse instantaneamente trocada por Teslas eléctricos da última geração, sem espaço para quaisquer automóveis híbridos. Nesta visão voluntarista do mundo e da economia, o gás natural não é mais do que uma (muito) transitória etapa na inelutável marcha para o admirável futuro da energia totalmente limpa, abundante, segura e barata.

Na realidade, porém, o gás natural é um elemento essencial (porventura o mais decisivo) na equação energética do futuro, tanto ou mais do que já é no mixenergético dos próximos 30 a 50 anos (mas desconfio que será menor que as optimistas previsões actuais indicam), como não sei qual o grau de resistência do carvão e petróleo (mas desconfio que seja maior do que essas previsões), mas não tenho dúvida de que a produção e o consumo de gás natural irão crescer significativamente. Basta atender a algumas (simples) tendências económicas, sociais e até tecnológicas para se perceber como o gás natural se ajusta perfeitamente a essas tendências. Várias regiões do mundo vão electrificar-se crescentemente (a maioria da população de África ainda não tem acesso a electricidade de rede) e o gás natural é uma fonte ideal para a geração dessa electricidade. A produção industrial (indústria química, fertilizantes, etc.) crescerá progressivamente, como sempre cresceu no passado, e também aí o gás natural é uma fonte de energia preferencial.

Até no sector da mobilidade e transportes o gás natural vai fazer movimentar cada vez mais autocarros, veículos pesados, navios, entre outros. Por outro lado, o desenvolvimento do gás natural está inserido na própria estratégia de transição para as energias renováveis, na medida em que o gás permite colmatar o problema da intermitência de abastecimento da energia eólica e solar. As energias renováveis precisam da fiabilidade, constância e flexibilidade do gás natural, e assim será durante muito tempo. Embora de forma mais discreta e com menor reconhecimento público, o gás natural tem contribuído de forma mais efectiva para o abrandamento das emissões de CO2 do que as próprias energias renováveis. Essa realidade é particularmente visível nos Estados Unidos, sobretudo a partir do aumento exponencial da produção de gás não convencional (shale gas). O gás natural faz parte da solução, não do problema, na estratégia de combate ao aquecimento global.

Em África, o gás natural foi desprezado durante décadas pelas companhias petrolíferas, investidores e até pelos poderes públicos. Os mercados nacionais ou regionais eram limitados e dificilmente permitiam  a  rentabilização  dos  elevados  custos associados aos projectos de desenvolvimento de gás.

A exportação do gás para mercados fora de África exigia investimentos massivos na construção das infra-estruturas de liquefacção (GNL) e transporte.

Em consequência, o destino normal do gás africano era (e ainda é em parte) a queima, e assim se incineraram muitos biliões de dólares de riqueza potencial que nunca chegou a ser aproveitada. Progressivamente, este cenário vai-se alterando à medida que os mercados regionais crescem, por um lado, e os projectos de GNL se tornam viáveis pela crescente procura de gás nos mercados internacionais, sobretudo por parte dos países asiáticos. Tudo indica que o continente africano irá registar nas próximas décadas os níveis de crescimento mais elevados na produção, consumo e exportação de gás natural. Não se conhece a verdadeira dimensão das reservas de gás de Angola, mas é seguro afirmar-se que se trata de um recurso economicamente valioso e que tem de fazer parte da estratégia de futuro desenvolvimento energético do País. Estão em curso iniciativas que visam criar um quadro legal e regulatório que estimule o desenvolvimento das reservas gasíferas de Angola. Trata-se de um projecto estratégico para Angola, seguramente um dos mais importantes que o actual Executivo pode (e deve) realizar. Do bom sucesso dessas iniciativas depende o futuro da indústria do gás em Angola.

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