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Oren Rozenblat: “Gostaria de que a TAAG fizesse vôos directos para Israel”

17/07/2017 - 09:14, featured, Gestão

A TAAG poderia tirar partido do fluxo de viajantes entre Israel e o Brasil, criando, em Luanda, um hub para o país sul-americano, diz embaixador israelita. Agricultura, águas e tecnologia têm potencial para gerar novos negócios bilaterais.

Por Aylton Melo | Fotografia Njoi Fontes 

Está em Angola há sete meses, mas já esteve, há alguns anos, no Quénia como cônsul. Angola está a corresponder às expectativas, de um modo geral?

O Quénia foi, de facto, a minha primeira experiência em África. Mas Angola, face a outros países africanos, parece-me mais desenvolvida. Posso citar, por exemplo, os bons hotéis ou o facto de Luanda ter edifícios que não encontramos em várias cidades da África subsariana. Além disso, sente-se cá uma cultura viva, há mais cultura cá do que em toda a África subsariana junta.
Vejo em Angola concertos musicais quase todas as semanas. Além disso, os angolanos são muito elegantes. As relações entre os dois países somam 21 anos.

Qual o ponto da situação das relações bilaterais?

Os povos angolano e israelita são essencialmente semelhantes, ambos lutaram pela independência. Angola consolidou a sua paz, e Israel faz de tudo para também a conquistar. Os nossos laços de amizade e as boas relações diplomáticas fortificam-se. Ao longo destes anos, não só juntámos ideais, como também os nossos povos.

Em 2017, espero celebrar estes 22 anos com maior entrosamento de projectos a todos os níveis de cooperação. Com muito orgulho, posso afirmar a boa vontade do Estado de Israel em cooperar cada vez mais na educação, na saúde e no sector económico. Contudo, visamos, para os próximos anos, o desenvolvimento de novos projectos nas áreas de energias e ciências.

Angola, nos últimos anos, tem conquistado um lugar cada vez mais importante nas decisões regionais e internacionais. E, como embaixador, o meu objectivo é fortalecer não só as relações bilaterais, mas também aumentar as regionais e multilaterais, bem como exponenciar Angola como um parceiro importante para Israel.

Ainda a nível das relações multilaterais, contamos com maior apoio de Angola nas organizações.

Quais os principais temas que encontrou sobre a “mesa” quando chegou a Angola?

O principal tema entre os dois países é o político, é um assunto sempre corrente. Para já, estamos atentos ao período de transição que estará a ocorrer em Angola, sobretudo no que diz respeito à mudança de liderança. Queremos ver como iremos encarar a nova liderança.Mas há também as questões económicas e corporativas.

Quantos israelitas têm residência em Angola, e vice-versa?

Cá devem ser mais ou menos 100. Sinceramente, não tenho ainda informação sobre os angolanos a residir ou a estudar em Israel.

Há dados sobre o fluxo de turistas entre os dois países?

Posso dizer que é mais fácil um angolano ir fazer turismo a Israel do que o inverso. Angola cobra emolumentos para o visto equivalentes a 100 USD.
Nós cobramos 38 USD. É, desde a partida, muito caro vir a Angola. Além disso, o israelita vai a qualquer parte sem necessitar de visto. Não precisa de um visto para ir à Europa ou à América.

Então, quando se cobra por um visto, torna-se desafiante. Por outro lado, sei que cerca de mil angolanos visitaram Israel em 2014. Mas, devido às dificuldades do País, este número reduziu-se consideravelmente, e agora deverá rondar os 300.

Por que outras vias Angola e Israel podem cooperar no que diz respeito ao turismo?

Tenho uma iniciativa que penso poder contribuir muito para a economia de Angola. Gostaria de que houvesse voos directos Angola-Israel através da TAAG. Não pelo facto de os angolanos gostarem de viajar a Israel e vice-versa, mas porque muitos israelitas gostam de viajar ao Brasil e muitos brasileiros vão a Israel.Acontece que não há voos directos: tem de se fazer escala na Europa.

Já que há voos quase diários entre Luanda, São Paulo e o Rio de Janeiro, a TAAG poderia ‘pegar’ nos passageiros das companhias europeias, fazendo-os passar por Angola.

São milhares de israelitas que vão todos meses ao Brasil, e vice-versa. Se a TAAG fizer quatro voos semanais, terá 15 mil passageiros por mês. Se cobrar o equivalente a 1000 USD por passageiro, serão 750 milhões USD em receitas para a transportadora por ano. Penso ser uma grande oportunidade para a TAAG e para o País. Assim, mais israelitas virão a Angola.

Que temas a nível económico estão na ordem do dia?

Estamos a auscultar as áreas de foco do Governo angolano – e sabemos que estão focados na diversificação económica. Pensamos que podemos contribuir em muitas situações relacionadas, nomeadamente, com a agricultura e com as águas. Até 2013, Angola não tinha problema financeiro, porque tinha o preço do barril de petróleo a seu favor. Mas, nos últimos três anos, esta situação mudou drasticamente. Por isso, recentemente, Israel abriu uma linha de crédito de 200 milhões USD para desenvolver projectos nos sectores da agricultura, águas e aquicultura.

E porquê a agricultura?

Porque somos muito bons neste sector. Até muito recentemente, Angola importava a maioria dos seus produtos alimentares, mas hoje já se vê alguma produção nacional, produtos com o selo ‘Feito em Angola’.
Por isso, estamos felizes por estar a contribuir para o desenvolvimento do sector agrário. Em relação à agricultura, acompanhámos a participação de empresas israelitas no projecto Aldeia Nova.

Que impacto tem hoje o projecto?

A nossa participação como construtores e gestores de grandes projectos inclui fazendas de raiz, como a Aldeia Nova – e agora a Quiminha –, que está a ajudar o País a ser auto-suficiente em termos da produção de ovos, iogurte, queijo e vegetais. Hoje, sabe-se que não é bem verdade que haja terras férteis abundantes em Angola. Mas Israel tem companhias que produzem fosfato, um elemento essencial para adubar os solos. Temos cá, há alguns anos, a Valfertil, que está a desenvolver estudos relativos ao projecto de exploração de fosfato no Zaire e em Cabinda, para melhorar a produção agrícola nestas províncias. E a Quiminha está prestes a fornecer 25% das necessidades de hortícolas de Luanda.

A produção agrícola nacional ainda não atende às necessidades do País, mas vemos experiências pontuais de exportação.

A Aldeia Nova e agora a Quiminha podem, a médio prazo, potenciar as exportações?

Julgo que sim. Há muito potencial. No futuro, porque é que não?, Angola tem produtos que podem gerar boa rentabilidade, por exemplo, o abacaxi.
Não sou perito em agricultura, mas vejo grande potencial para Angola ser forte em termos de exportação de produtos não-petrolíferos.
Outros exemplos são o mármore e o granito.
Verifico que muitos importam de Itália, mas não vejo razões para tal, se podem ser adquiridos cá. Existem já empresas a explorar cá, estando uma empresa de Israel envolvida nalguns desses projectos.

E em relação à água…

Temos muitas empresas especializadas em todos os aspectos relacionados com a água.

Agora mesmo, empresas israelitas estão a trabalhar a nível da captação, tratamento e distribuição de água nalgumas províncias, incluindo Luanda.
Há uma grande preocupação com a necessidade de tratamento e aproveitamento de águas, pelo que penso que podemos cooperar muito neste sector.
De 12 a 14 de Setembro, estaremos a realizar, em Telavive, uma exposição – a Watec – para a qual convidámos autoridades angolanas, públicas e privadas.
Trata-se de uma ‘arena’ que permite que profissionais da água, interessados e inovadores de todo o mundo, partilhem as suas experiências, tendências actuais e futuras. África precisa de saber mais sobre água, especialmente Angola, que não tem chuva suficiente para irrigar os solos. Em Luanda, por exemplo, chove pouco, o que é um mau augúrio para a ‘cintura verde’ da província. É preciso encontrar novas formas de captação,
distribuição e aproveitamento racional da água.

Mas não se trata de um problema só de Angola, também é de Moçambique, Namíbia e África do Sul. Em Israel, resolvemos este problema, porque desenvolvemos técnicas de dessalinização.

Estudos recentes indicam que 66% da população mundial não terá água suficiente em 2050. As cidades, hoje, desperdiçam 25% da água.

Qual é o volume de negócios e das trocas comerciais entre os dois países?

Em relação ao volume de negócios, os números não são muito significativos – no último ano, rondaram os 5 milhões USD. O comércio e as exportações de Israel estão muito orientados para o mercado oriental. Exportamos produtos e serviços no valor de cerca de 1000 milhões USD por ano, sendo que Angola representa 0,05% deste montante. Mas perspectivamos aumentar nos próximos anos. Por isso, organizámos, recentemente, um fórum empresarial.

Em que áreas podem ser alavancadas as relações comerciais bilaterais?

Penso que podemos fazer mais naquilo em que somos óptimos, que é exportar a tecnologia israelita no domínio da agricultura e águas. Ainda há muito por explorar aqui. Já estão cá algumas, mas são companhias que estão com relevantes projectos.
Não sei indicar-lhe todas as empresas, porque a maioria é privada, mas a presença é muito relevante, estendendo-se das tecnologias de informação, mais em termos de software, cibersegurança, até à construção civil. Resido num prédio construído por uma construtora israelita. Penso que, a nível do desenvolvimento de cibersegurança, devemos ser os líderes.

Não sei até que ponto Angola está protegida. Recentemente, o vice-presidente, Manuel Vicente, inaugurou uma nova barragem no Cuanza Norte, mas não se sabe até que ponto está protegida contra um ciberataque que, eventualmente, provocaria danos avultados ao País. Vejo, assim, um potencial por explorar.

O que pode Angola aprender com Israel em termos de posicionamento económico, na região e no contexto das nações?
A economia israelita tem sido bem-sucedida, especialmente nos últimos 10 anos. Enquanto as principais economias entraram em recessão, desde 2008 a nossa tornou-se mais robusta. Para ter uma ideia, o nosso PIB per capita tornou-se superior ao da França e ao do Reino Unido.
O ‘segredo’ deste feito está no facto de não termos recursos naturais.

Só muito recentemente foram encontradas reservas interessantes de gás, mas antes tivemos de contar com a capacidade do ser humano e do que este fosse capaz de fazer.

Além disso, o nosso território é muito pequeno, logo, tivemos de pensar no que iríamos produzir para exportar.

Onde estão mais fortes?

Temos um sector industrial forte voltado para a agricultura, tecnologias e, actualmente, estamos a investir muito em tecnologias de informação.
Todas as grandes empresas possuem centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em Israel. A Intel, por exemplo, uma das maiores companhias do mundo, adquiriu uma empresa de tecnologia de carros autónomos israelita por 15 mil milhões USD. O fundador desta empresa tinha, inicialmente, um activo, o seu próprio cérebro.
Para mim, Angola pode seguir este exemplo também, apostar na capacidade inata do ser humano de criar coisas novas, através do investimento no conhecimento.
As universidades em Israel são óptimas, por isso temos muitos Prémios Nobel, desde físicos a economistas. É o ambiente propício para o surgimento de inventores e empresários.

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