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“Grandes empresas não apreciam pequenos intervenientes que questionam seu controlo”

18/01/2017 - 08:10, featured, Finanças

Sindika Dokolo concedeu uma entrevista ao Jeune Afrique na qual é matéria de capa. Leia na íntegra.

O seu pai era um homem de negócios e um coleccionador de arte. Considera que o que faz é a continuação do seu trabalho?

O meu pai possuía um fogo criativo. Levantava-se às 4 horas da manhã para ir aos estaleiros, estava sempre a reflectir, pensava e projectava o seu futuro. O seu percurso, bastante singular na República Democrática do Congo, não é suficientemente celebrado: foi o primeiro africano a fundar um banco e era o arquitecto de uma visão africana tanto ao nível dos negócios como da sua vida. O seu envolvimento nas artes estava ligado a esta visão e considero-me o herdeiro desse legado. Tal constitui para mim uma inspiração na forma como encaro a minha responsabilidade social, os meus interesses económicos e os meus projectos.

Trabalha em prol do reconhecimento dos artistas africanos. Parece que esse reconhecimento acabou por chegar nestes últimos anos…

Ao nível africano, trata-se de um campo em pousio. No plano das infraestruturas, do acesso do público à criação, do mercado e das instituições, ou seja, de tudo o que deve formar a base de um mercado de arte estruturado, as fundações como a minha não passam de casos isolados. Além disso, os próprios africanos revelam um profundo desconhecimento do seu património. Há um enorme trabalho a fazer para reabilitar o continente no contexto da história da arte. Ainda assim, a descoberta da arte clássica africana foi o grande impulsionador da modernidade.

A sua paixão pela arte foi-lhe transmitida pelo seu pai?

Sim. E também por um dos seus melhores amigos, um grande coleccionador belga, algo discreto por motivos fiscais. Tive a sorte de ser seu convidado durante alguns fins de semana na casa onde vivia sozinho com o seu cão, uma espécie de museu de curiosidades com obras pré-colombianas e africanas. Foi graças a ele que compreendi até que ponto a arte africana trazia consigo algo nunca antes proposto, com uma acuidade e intensidade sem paralelo. Hoje, o grande desafio da arte africana contemporânea passa por conseguir estabelecer essa ligação e assumir o papel de depositário desse fenómeno excepcional que foi a arte clássica. E não somente quanto ao que essa arte produziu, mas também relativamente ao papel da arte na sociedade, na maneira como se definem artistas e obras e na forma de vivência da arte.

De onde surgiu a sua intenção de recuperar as obras de arte clássicas localizadas fora do continente?

Mesmo sendo essa discussão legítima, não foi a presença de obras-primas em colecções europeias que motivou a minha iniciativa. Há um museu em Angola, em Dundo, que era uma referência em termos de cultura Tchokwe. Durante o difícil percurso de Angola rumo à independência, o país foi pilhado, frequentemente por portugueses que trabalhavam no local. Estou a pensar em particular em duas estátuas de Tshibinda Ilunga, o herói fundador da civilização Tchokwe, que talvez valham hoje entre 15 e 20 milhões de dólares [14 a 19 milhões de euros]. Vem-me também à ideia a máscara mwana pwo que recuperei numa feira de Maastricht, pela qual pediam 600 000 euros. Quando visitei o museu de Dundo com o negociante de arte Didier Claes, não vi as cerca de trinta máscaras que lá deveriam estar. Como é que um museu perfeitamente reabilitado e seguro não possuía nenhuma obra-prima?

Foi por isso que partiu à caça de obras roubadas…

Se a minha acção ao nível da cultura pretende servir uma melhor autoafirmação e uma exigência de dignidade, importa não desviar o olhar. Tal evoca questões universais ligadas ao património, quer se trate do friso do Pártenon ou dos bens espoliados aos judeus. Já que vamos ser caricaturados como membros da elite corrupta africana, mais vale que esse cartão de visita seja usado de forma sensata. Escolhi um método bastante radical, dizendo o seguinte aos negociantes de arte: «Disponho de um exército de advogados, possuo os meios financeiros para tornar a vossa vida um inferno e posso retratá-los como inimigos da África, que é a expressão contemporânea de racistas básicos». E geralmente, as pessoas que apreciam a arte africana, mesmo que nunca tenham posto os pés no continente, não suportam a ideia de serem considerados ladrões ou racistas. Expliquei também que estas obras deveriam servir para que a população africana ganhasse consciência do seu património.

E funcionou?

Alguns tentaram resistir, mas propus indemnizá-los em linha com o preço de compra. Ao final do dia, entendi-me bem com os que aceitaram. Creio que os aliviou de um fardo, talvez pelo facto de eu ser africano. Foi o que aconteceu com Philippe Ratton, um grande negociante de arte, a quem adquiri depois outras obras. Daniel Hourdé informou-me que possuía uma cadeira tchokwe originária de Dundo e que pretendia cedê-la. Além disso, muitas pessoas em Angola manifestaram-me a sua vontade de contribuir financeiramente para esta iniciativa polémica, o que lhe conferiu um considerável impacto no país.

Qual é o seu objectivo?

Reunir a mais bela colecção de arte clássica do mundo. Comparadas com as máscaras kwele gong do Quai-Branly ou do MET [Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque], as minhas dão-lhes 10 a 0. Não obstante, idolatro um objecto que não era o objectivo do artista: a obra, o que os ingleses chamam “the masquerade”, o espectáculo, do artista, e o transe colectivo que o acompanha. Erro, mas tento manter-me fora da minha zona de conforto para aprofundar estas questões, reconhecidamente periféricas, mas essenciais.

Só as iniciativas privadas podem ser eficazes em matéria de arte?

Não. É preciso um catalisador e o sector privado pode desempenhar esse papel. Em Angola, não seria possível chegar onde chegámos sem o governo.

Os empresários do continente estão muito envolvidos?

As iniciativas dos Zinsou ou de alguns nigerianos e sul-africanos irão, espero, inspirar outros. Até futebolistas como Peguy Luyindula começam a coleccionar. Didier Claes é o negociante de arte número um, eu sou o coleccionador número um em arte contemporânea e há cada vez mais curadores de exposições…

O que é para si uma colecção?

Uma colecção de arte contemporânea deve reflectir as mutações do continente e representar uma espécie de eletrocardiograma da época.

Ao nível dos negócios, o exemplo do seu pai continua a ser o modelo fundamental?

Sim, ele tinha essa força que identifiquei nalgumas outras pessoas. Na minha mulher, que é um verdadeiro génio criador. Um fogo inextinguível. No empresário Moïse Katumbi, que encara todos os desafios em termos das possibilidades e nunca dos perigos, e que não necessita de se afirmar junto dos outros. Se abandonássemos este tipo de pessoas numa ilha deserta e voltássemos três anos mais tarde, elas teriam construído algo de incrível com os meios ao seu dispor. Não reivindico essa qualidade, mas ela define o meu nível de exigência quando tento construir algo e mudar o que me rodeia. A África necessita de jovens inspirados com apetite pelo futuro.

Moïse Katumbi é um deles?

Sim. Começou a transportar caixotes para a câmara frigorífica do seu irmão. É uma pessoa genuína, com uma ligação forte à terra e de grande sensibilidade perante as diferentes realidades. Tem este lado saudável, colocando um tijolo sobre outro para construir uma parede bem alinhada. E conseguiu transpor esse traço de personalidade para o seu envolvimento na política. Não sou de Katanga nem vivi lá, mas visitei-a antes e depois e sei que há mais possibilidades de ganhar a lotaria do que desenvolver uma província por acaso…

«O meu sogro anunciou que abandonaria o poder em 2018. Que interesse teria em não o fazer?»

Para si, que viveu o fim do reinado de Mobutu Sese Seko, existe algum paralelismo com a situação actual?
O único que vejo é que muitas das pessoas marcantes dessa época continuam lá. E duvido que passem à História como os grandes arquictetos do desenvolvimento do país.

Qual a sua opinião sobre o presidente Kabila, cujo último mandato, nos termos da Constituição, deveria ter terminado a 19 de Dezembro?

Joseph Kabila marcou a sua época: restabeleceu a paz, pôs o país a crescer, voltou a dar uma forma de autoridade ao Estado e estendeu a mão aos seus adversários. Consigo compreender que, do ponto de vista dos seus apoiantes, ele seja o melhor presidente da história do país. No entanto, o respeito pela Constituição é importante. Tendo em conta as tragédias que o país conheceu, é fundamental protegê-la e aplicá-la. O acordo político que surgiu no final do ano criou a expectativa de um maior respeito por estes princípios.

Isso deixou-o optimista?

Conheço demasiado bem a política congolesa para o ser totalmente… prefiro ser razoável a esse nível.

A retirada, em finais de Dezembro, das tropas angolanas da República Democrática do Congo foi uma forma de pressionar os responsáveis congoleses a assinar esse acordo?

Sem a intervenção angolana desde 1997, já não existiria família política kabilista no poder. Assim, ainda que a retirada não tenha envolvido um contingente mas sim oficiais angolanos que participavam na formação de militares e polícias congoleses, pode ter sido uma forma de «incentivar” uma solução que garanta o interesse comum, ou seja, a paz e a estabilidade na região. A prioridade angolana é desenvolver relações entre dois povos mais do que entre dois indivíduos, parece-me. Mas esta não é mais do que a minha interpretação enquanto cidadão congolês. Convém realçar este aspecto, uma vez que os meus comentários correm o risco de serem interpretados à luz das minhas circunstâncias pessoais.

O facto é que se encontra na encruzilhada de muitos caminhos…

Isso é uma perspectiva teórica. As minhas relações com o Estado angolano limitam-se ao domínio cultural. Sei se o presidente angolano toca guitarra ou joga futebol, mas nunca o revelarei! Tenho um relacionamento com o meu sogro, ou seja, com o homem, e não com o chefe de Estado. Não sou seu defensor nem seu confidente.

Cresceu com uma boa parte da classe política congolesa atual. Não recorrem a si para passar mensagens ou organizar encontros?

Nunca. Em Angola, quando não desempenhamos um cargo oficial, não temos voz na matéria. E eu adiro a essa cultura. O mesmo é válido para os negócios: não organizo encontros para ninguém. Não represento ninguém. Não me envolvo nas funções de ninguém.

Pondera uma carreira política?

Alguns meios perturbados de Kinshasa afirmaram-no, mas é falso e ridículo.

Incomoda-o que se interessem por si, pela sua família e pelos seus negócios?

De forma alguma. É certo que a notoriedade é um fardo, mas também dá poder. Em Angola, alguns jovens recentemente encarcerados não foram muito simpáticos comigo. No entanto, dou muita importância à liberdade de expressão e até à irreverência. Tornam a sociedade mais interessante. No Congo, existem, por exemplo, o Filimbi e o la Lucha [movimentos de cidadania]. O seu direito de se exprimirem deve, além disso, ser proporcional ao direito que possuo de me defender.

O seu sogro anunciou que abandonaria o poder em 2018. Irá adiante com isso?

Que interesse teria em não o fazer? Não está numa posição de fraqueza, não existe crise interna no MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder], goza de uma legitimidade histórica universalmente reconhecida e a oposição é fraca. Se quisesse, poderia facilmente recandidatar-se.

Já aconteceu que um dirigente tenha anunciado a sua partida para no final ficar…

Sobretudo os que não possuem a mesma legitimidade que o presidente Eduardo dos Santos! Dizem: «Não quero ficar, mas…» Não o anunciam claramente, como ele fez. Por exemplo, se Joseph Kabila tivesse realmente a intenção de se manter no poder, poderia ter-se revelado mais hábil a montante. Desde a sua revisão em 2010, a Constituição angolana não impede o presidente de se recandidatar. In tempore non suspecto.

Ele é então um homem de palavra?

As pessoas não o conhecem, de facto. É uma pessoa bastante simples e sensata, e fala pouco. Mas estranhamente, quando diz as coisas com clareza, poucos acreditam nele.

Possui ainda interesses na República Democrática do Congo?

Existem imensos, nos quatro cantos do país, nos sectores portuário, imobiliário e outros. O meu pai foi um criador, todos os dias até à sua morte, demasiado cedo, aos 67 anos. Manter esse património é um trabalho a tempo inteiro. Neste momento, esses interesses estão dormentes. Vivo em Angola e o crescimento levou os meus negócios para esse país. Em resultado, adquiri uma série de competências, por exemplo, no domínio industrial com a [cimenteira] Nova Cimangola. Gostaria de fazer o mesmo na República Democrática do Congo, mas as condições para tal não estão reunidas. O meu referencial é a espoliação dos negócios do meu pai. Estou a tentar recuperá-los, nomeadamente o banco, e a questão está muito avançada a nível judicial. Daqui em diante, somente uma decisão política poderá restituir à minha família os direitos perdidos.

Portanto, continua a travar esse combate…

Claro. Trata-se também da memória e da honra do meu pai e da minha família! Um banco de Katanga [o Trust Merchant Bank] diz-se hoje proprietário da sede do Banco de Kinshasa, fundado pelo meu pai praticamente no local onde nasci. Não é aceitável. O que iria eu fazer num país que não está em condições de reconhecer isso?

A economia angolana assenta no petróleo, cujo preço caiu drasticamente. O país está hoje em crise…

Esta crise é benéfica. Serviu para revelar os defeitos do modelo. Obriga a classe política e o MPLA, que vai provavelmente ganhar as próximas eleições, a reflectir sobre o que faltou para que estes anos de crescimento se tivessem traduzido numa verdadeira descolagem. Deve ocorrer um debate profundo sobre o Estado omnipresente, sobre a importância do sector privado, sobre a corrupção e outros temas. Tal acabará por ser extremamente positivo e vemo-lo já com o trabalho efectuado na Sonangol [empresa pública que gere os recursos petrolíferos do país, dirigida pela sua mulher], um exemplo que me sensibiliza de forma muito próxima.

Como encara a nomeação da sua mulher para a dirigir?

Essa discussão não faz sentido. A Sonangol é a segunda maior empresa petrolífera africana. Deveria até ser a primeira. É a coluna vertebral da economia angolana e não vejo quem seria mais competente e capaz do que a minha mulher para voltar a colocar as coisas na ordem. Basta ouvir o que os seus parceiros do setor privado dizem da sua coragem e da sua liderança. É um general chamado para o campo de batalha no momento decisivo. Trata-se de mudar completamente a cultura desta empresa, a qual já não se pode contentar em ser um simples consultor, um árbitro ou um treinador. Tem de ser um jogador, o número dez, e marcar golos.

Investiu em muitos setores: diamantes, petróleo, imobiliário, telefonia – e em vários países: Angola, Portugal, Suíça, Reino Unido, Moçambique…
Em Moçambique não sei exatamente onde nos encontramos…

Qual é a coerência deste conjunto?

O objetivo não é criar um grande grupo integrado, mesmo sendo eu o único, pelo que me é dado a saber, a ter a sorte de encarar Angola e a República Democrática do Congo como um só conjunto complementar. Imagine que eram um só país! Um eixo Luanda-Kinshasa poderia criar um contrapeso à supremacia sul-africana. Existem por isso diversos projetos aos quais dou grande atenção e que tento levar adiante, como os caminhos-de-ferro de Benguela ou a barragem do Inga.

Parece insistir na raridade dos perfis como o seu…

Os próximos oligarcas, tais como os que vemos na Rússia, virão da nossa região. A influência deste país não seria o que é sem eles. Mas na República Democrática do Congo, à exceção de Moïse Katumbi, ninguém consegue rivalizar com os dez ou vinte mais importantes empresários angolanos.

Possui ainda activos na República Democrática Congo no sector extractivo, nas minas e no petróleo?

Detenho ainda activos mineiros na República Democrática do Congo, nomeadamente ao nível do ouro, mas não os desenvolvi. O comércio de minérios está, desde há muito, interdito aos zairenses. O meu pai foi um dos arquitectos da liberalização do sector e um dos seus primeiros intervenientes no início da década de 1980. Desde essa época, tivemos minas de ouro e diamantes, empresas de exploração…

Em Angola, o seu envolvimento nestes sectores é profundo. Falou-se muito da sua aquisição do maior diamante alguma vez encontrado neste país. Porque o adquiriu?
Adquiri o 404, mas também o diamante mais caro do mundo, extraído da mina de Lucara no Botsuana, com 813 quilates. Fizemos publicidade apresentando-os em Cannes e no Dubai para salientar o facto de sermos um interveniente africano, ou seja, originário do local onde esta riqueza se encontra, e presente em toda a cadeia, incluindo onde se obtêm as margens mais significativas: no segmento de luxo.

Embora o diamante estimule o imaginário coletivo, este setor é muito pequeno. É certo que podemos ter 5 milhões de dólares na palma da mão, mas esse valor continua a ser inferior ao preço de uma frota de camiões de uma qualquer mina a céu aberto. Dito isto, esta pedra é uma das riquezas naturais que a África é capaz de produzir. E orgulha-me o facto de ter implementado, em pouco tempo, uma plataforma integrada: a Nemesis, no Dubai. Esta está hoje em primeiro lugar a nível mundial no comércio de diamantes, se não contarmos com as empresas produtoras como a De Beers.
Qual a sua ligação com a empresa de comercialização de diamantes de Angola [Sodiam]?

A lei confere à Sodiam a exclusividade em matéria de comércio de diamantes em Angola. Somos seus clientes através da Nemesis. A empresa vende a sua produção nas condições normais de concorrência e de mercado. Além disso, participamos conjuntamente com ela no capital da [empresa suíça de joalharia] De Grisogono. Hoje, se dois terços das nossas pedras têm origem em Angola, um terço provém de outros países.

«Não sou um desses novos-ricos que se sentem obrigados a restituir uma parte das suas fortunas.»

O que responde aos seus detratores que afirmam que os seus negócios são favorecidos pela sua proximidade com o poder angolano?

Nunca conseguiremos impedir que as pessoas pensem que a ocasião cria forçosamente o ladrão. O meu pai e o meu sogro deram-me ambição e a ideia de que é melhor fazer do que comentar. Não sou um desses novos-ricos que se sentem obrigados a pedir desculpa por o serem ou a restituir uma parte das suas fortunas! Assumo que há quem não goste de mim ou considere o meu perfil difícil de digerir. Isso não me incomoda desde que não me impeça de fazer o que me interessa.

Numa entrevista concedida ao diário francês Le Monde em 2015, afirmou que «as pessoas politicamente expostas» [PPE, suscetíveis de se envolverem em conflitos de interesses], dos quais faz parte, são os «novos pestíferos». Pode ser mais específico?

Nunca me vi confrontado com essa condição de PPE antes de conhecer a minha mulher. É verdade que é difícil, até para os meus filhos, dizer: «Julgam-me sem me conhecerem como se eu fosse culpado de um pecado original.» Sei que serei um dia levado a justificar o que fiz e donde vem o que fui capaz de adquirir. Ninguém será benevolente comigo, pelo que aplico o maior rigor possível no que faço. Com as pilhas de informações que sou obrigado a fornecer sobre o que possuo, ser-me-á difícil passar pelas malhas da rede. Todas estas verificações não seriam uma coisa má se aplacassem as suspeitas. No entanto, paradoxalmente, constato que ambas avançam em paralelo: à medida que o controlo aumenta, aumentam também as suspeitas.

Não recorre aos paraísos fiscais?

Claro que recorro, e é um objectivo! Pago os meus impostos onde os devo, mas não sou estúpido! Venho de países (Angola ou República Democrática do Congo) que praticamente não participam em acordos sobre dupla tributação. Assim, é normal que estruturemos os nossos projetos no sentido de evitar perder dinheiro cada vez que atravessamos uma fronteira. Caso contrário, o lucro potencial é nulo.

Há quem considere que isso não é muito ético…

A optimização fiscal não é imoral. Se fizermos batota e nos deixarmos apanhar, tanto pior para nós. Mas tal é cada vez mais difícil e espero que um dos desfechos seja a redução da desconfiança relativamente aos meios empresariais africanos.

Os meios empresariais ocidentais são alvo de menos suspeitas?

As grandes empresas, maduras e consolidadas, não apreciam os pequenos intervenientes emergentes que questionam o seu controlo. É por vezes muito confortável para elas fazerem sair um cartão amarelo ou vermelho e afirmarem: «Não tem o direito de entrar aqui.» Nesta matéria, importa saudar Portugal pela sua abertura de espírito, que deu aos angolanos a oportunidade de entrarem em sectores estratégicos europeus. Nunca um africano francófono teve a possibilidade de adquirir uma multinacional francesa como um banco, uma empresa de telecomunicações ou um grupo farmacêutico. Isso tem de mudar.

Entrevista publicada pela revista Jeune Afrique, Janeiro de 2017*

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