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Ladislau Ventura: “Onde for feita uma auditoria, nada volta a ser como antes”

30/10/2017 - 14:52, featured, Finanças

Presidente do Instituto de Auditoria Interna de Angola (IIA Angola) garante que todos ganham com a actividade, que deve ser exercida com independência, para evitar conflito de interesses. No futuro, instituto pode evoluir para ordem.

Por Aylton Melo | Fotografia  Njoi  Fontes

Já passaram cinco anos desde o simpósio em que foi indicado como presidente do instituto, que no entanto ainda não tem estatuto de instituição de pleno direito. O que falta?

Embora sejamos um instituto, somos, no fundo, uma associação de profissionais de auditoria interna, cujo objectivo principal é garantir a capacitação desses profissionais, para estarem ao nível internacional. Há um ano, fomos integrados na rede internacional da IIA Global, que funciona em mais de 180 países, com uma base em termos de know-how e bibliografias de várias instituições internacionais, em termos de auditoria interna.

O que falta?

É um processo, como tirar uma certificação também é. Começámos as nossas actividades, candidatámo-nos ao IIA Global e estamos agora numa segunda fase. Estamos registados como instituto em formação, porque temos garantida a capacidade, esforço de trabalho e ofertas de serviços.

Quantos membros têm?

Temos alguma dificuldade em definir quem é membro, porque a maior parte dos associados ainda não pagou as suas quotas este ano.
Há ainda a dificuldade de termos de pagar as quotas anualmente ao IIA Global em divisas, o que fez com que muitos associados não tivessem ainda actualizado a relação com o Instituto. Até ao final do ano, temos de garantir 50 membros efectivos a pagar quotas.

Vamos conseguir, porque agora temos um acordo com o IIA Global, que neste momento vai aceitar pagamentos do pessoal que está activo, em kwanzas. Quem já está inscrito terá essa renovação paga em moeda nacional, e estamos a negociar para que os novos membros, que tenham uma reserva, também o possam fazer.

Qual é o valor anual da quota?

200 USD. A realidade do País fez com que muitos membros não revalidassem as suas quotas, mas temos tido contactos com eles, de modo a ultrapassar esta situação.

Qual é vosso objectivo em termos de número de membros?

É termos o controlo da maior parte dos profissionais. Do estudo que fizemos, em função da dimensão do mercado nacional, achamos que seja possível termos mais de três mil membros.

Que vantagens os associados podem ter?

O membro activo pode tirar partido das vantagens da afiliação no IIA Angola, que ajuda os membros a descobrirem novas estratégias e a aprenderem sobre as últimas tendências da profissão a nível mundial. Para além do acesso a bibliografia, tem direito a descontos nas actividades internacionais que o IIA organiza, como por exemplo a conferência internacional anual, os cursos que as outras IIA organizam e programas de certificação internacional.

Qual a realidade do País, no que à auditoria interna diz respeito?

Hoje, a gestão moderna das organizações faz com que tenham um controlo interno organizado. A realidade do País faz com que a maior parte das organizações que têm auditoria interna sejam as que estão concentradas em alguns ramos, nomeadamente o sector financeiro, caso, por exemplo, dos bancos. Também há empresas com ligações internacionais e, por via das parcerias, são obrigadas a ter uma área de auditoria, por questões de compliance. Há sectores que, pelo seu desenvolvimento, ainda não têm auditoria interna, principalmente ao nível da função pública.

A auditoria interna é uma actividade transversal a todas as organizações. Quem pode fazer parte do Instituto?

Como disse, e bem, é uma actividade transversal. Podem fazer parte todos aqueles que, na sua organização, desempenham a função de auditoria interna ou externa, gestão de risco corporativo, especialistas em controlo e em eficiência… todos são enquadrados no que chamamos ambiente de controlo interno, incluindo estudantes e académicos.

Todos podem ser membros do IIA Angola. O importante é estarem interessados nesta função.

Em que riscos as organizações incorrem por não terem um auditor interno nem apostarem na formação contínua desses especialistas?

Quando dizemos que queremos capacitar o especialista da área, é porque queremos que seja profissional. O facto de não conseguir ou não lhe ser permitido que seja profissional pode colocar a empresa ou a organização a que pertence em risco.

Faz sentido a auditoria interna, quando existe a auditoria externa?

Para além do controlo que é feito pelos accionistas, o proprietário da empresa e o conselho da administração, há uma série de tarefas e riscos que são dinâmicos e que vão aparecendo, naquilo a que chamamos ‘declarações de missão, visão e valores’. Principalmente no que diz respeito à missão, há uma série de objectivos que têm de se cumprir e, naturalmente, há o risco de não o serem, portanto devem ser monitorizados.

E quem melhor para fazer isso senão alguém da própria empresa?

Fica mais barato, conhece todos, sendo funcionário! Não seria necessário um externo para monitorar os riscos. O auditor interno pode, metódica e periodicamente, dar a conhecer aos accionistas os riscos. Este acompanhamento sistemático é de todo conveniente, para que, caso sejam detectados desvios, ainda se poder corrigi-los em tempo útil. Mais vale prevenir um incêndio do que apagá-lo. A auditoria interna é um controlo preventivo que também traz ganhos, podem encontrar-se oportunidades.

A auditoria interna detecta oportunidades de negócios?

Sim. Por vezes, surgem oportunidades que a organização não está a utilizar. Nunca foram estudados, e só a auditoria interna consegue vê-los, porque ocorrem mudanças de mercado e de ambiente de negócios que, sendo detectadas em tempo próprio, podem ser aproveitadas. Uma das nossas divisas é: “Auditoria interna é acrescentar valor.” Onde for feita uma auditoria, nada volta a ser como antes. Tanto se corrige o que
está mal, como se exploram oportunidades. A organização fica por vezes afectada, durante uma mudança de contexto, por não se aperceber, por falta de informação profissional, bem estruturada.

Recentemente, vieram a público notícias de alegados desvios de fundos por parte de funcionários da Administração Geral Tributária (AGT).

Este tipo de situações pode ser detectado por uma monitorização sistemática pela auditoria interna?

Não estou autorizado a falar em nome da AGT, mas, do ponto de vista do Instituto, devo dizer que os auditores se orientam por princípios éticos e de confidencialidade de todos os eventos que ocorram nas suas organizações. Preocupa-nos que façam o seu trabalho na base do profissionalismo.

O que pode revelar do primeiro estudo sobre o estado da função de auditoria interna em Angola?

Uma das nossas tarefas é dar a conhecer à comunidade económica o estado desta função, pelo seu carácter preventivo e de salvaguarda de uma gestão adequada. Fala-se muito em valores, mas depois temos dificuldades em cumpri-los, do mesmo modo que o cumprimento da missão encontra barreiras.
O Instituto tem limitações em termos de estrutura física, comparativamente ao Brasil, por exemplo, que tem mais de 50 mil membros. Este estudo vai dar-nos uma primeira radiografia do estado da auditoria interna em Angola, em termos de percentagem, onde existem, etc., mas não posso revelar mais detalhes, devido aos direitos de autor, reservados pela KPMG, com quem estamos a trabalhar, e há também informações, relativas a empresas do Estado, reservadas exclusivamente para o Instituto para o Sector Empresarial Público (ISEP).

O estudo abrangeu todas as empresas do Estado?

O que posso dizer é que se trata de um estudo abrangente em que estão as empresas do Estado, bem como empresas e organizações privadas que têm auditoria interna.

No que diz respeito à qualidade e ao nível do controlo interno nas empresas e organizações, quais os pontos fracos?

Um dos pontos fracos é a inexistência desta função em muitas organizações, enquanto noutras está implantada de forma desadequada, estando mais voltada para a auditoria forense, ou seja, ‘apagam incêndios’ para entender o que aconteceu. A própria valorização dos auditores internos, em alguns casos, também é fraca, por serem supervisionados de modo desadequado. A supervisão deve interessar primeiro à presidência da empresa e aos accionistas.
Quando a empresa é supervisionada por alguém que também precisa de anuência para decidir, normalmente, é desvirtuada a informação. Como assim?

Normalmente, os administradores têm vários pelouros. Imaginemos um administrador que também responda pela auditoria interna e contabilidade. Se, por acaso, a auditoria interna apontar para uma área em que ele seja responsável, estará menos interessado a passar esta informação ao conselho de administração. Isto pode ser prejudicial para a empresa. Há também pessoas que são indicadas para trabalhar na área de auditoria interna, mas que ouviram pela primeira vez a palavra ‘auditoria’ no momento em que foram indicados. Ou põem pessoas muito novas que não conhecem, ou em fim de carreira, para as ‘acomodar’.

Isto não revela também o pouco conhecimento por parte das empresas sobre a importância desta função?

Exactamente. Por isso queremos advogar esta função. Estamos convidar os PCA de grandes organizações, para que estes, ou alguém de grande responsabilidade, possam tomar conhecimento da vantagem de ter um auditor interno. Porque há alguns que até têm, mas é como dizemos na gíria, “só para inglês ver”. O que interessa é que o auditor interno exerça a sua função com o máximo de informação científica, adequada e profissionalmente.

Apesar deste quadro, quais são as nossas forças?

As nossas valências estão numa grande apetência pelo conhecimento. Hoje existem empresas em Angola com uma gestão moderna que sabem que um dos pilares da boa gestão é o controlo interno.

Então, somos também contactados para fazer a avaliação do próprio controlo interno dessas empresas.
Está a decorrer um curso básico de auditoria interna, e ficamos muito contentes quando vemos inscritos dez elementos do BNA. Numa turma de 30, temos cinco elementos da Inspecção Geral do Estado. Isto mostra o reconhecimento que estas entidades dão a esta área.
Temos também pessoas da AGT, Porto de Luanda e Banco Sol.

É um indicador de que o interesse pela função tem vindo a crescer…

Já vamos na sexta edição do curso, e o interesse por estas formações tem vindo a crescer, de tal modo que não temos espaço na turma para incluir todos os interessados, o que demonstra a dimensão do interesse e que a necessidade é grande.

O que significa que precisamos de continuar a fazer estes cursos com maior periodicidade e estarmos à altura das necessidades.

E o que o IIA Angola vai fazer para estar à altura das necessidades?

Se vamos advogar a profissão, há a necessidade de formarmos estes auditores. Temos de ter a capacidade de dar esta formação. Vamos, possivelmente, estudar várias modalidades, entre as quais, a formação on jobe outras formas, para além do e-learning. O campo é grande, penso que, no futuro, faremos o mesmo que outros IIA, atribuiremos normas ISO e, periodicamente, acompanharemos a actividade destes profissionais, para saber se estão a cumprir.

Nessa altura, teremos de evoluir para uma ordem. Até que ponto a formação desenvolve competências éticas?

O curso não faz ‘lavagem cerebral’. Mas foi estruturado por várias instituições internacionais, incluindo universidades dos EUA e outras grandes universidades ligadas a este complexo de instituições, que promovem esses cursos, ligadas ao IIA Global. Temos dois documentos principais, as IPPE, que são as normas para exercício profissional de auditoria interna, e o Código de Ética. Este é obrigatório para quem é membro do Instituto. Faz parte de um livro, a que chamamos “livro vermelho”, em que estão, primeiro, o Código de Ética e depois o IPPE. A partir de 2015, estes foram também estabelecidos com 10 princípios principais que não estão só ligados ao auditor interno como profissional, mas também às condições necessárias para que o auditor interno possa, realmente, exercer adequadamente a sua função.

É como eu dizia: o auditor interno tem de estar ligado à supervisão da administração superior da organização, senão não vale a pena pedir responsabilidades ou um desempenho que venha resolver realmente os problemas que a organização venha a ter.

É preciso ter alguma formação académica especial para exercer auditoria interna?

Normalmente, são técnicos superiores que fazem a auditoria interna, e depois temos uma coisa muito importante que são as certificações. A certificação é um diploma que, ao nível da pós-graduação, exige no mínimo um curso superior. Mas a principal é a que chamamos CIA – Certified Internal Auditor (temos conhecimento de que, em Angola, existem três pessoas com esta certificação), que é uma certificação internacional e o seu detentor é reconhecido em qualquer parte do mundo, podendo ter o seu próprio gabinete de consultoria ou de auditoria interna em qualquer parte.

Esta certificação já se obtém cá?

Ainda não, apenas damos cursos de preparação, mas o exame já pode ser feito aqui, e em língua portuguesa. É um exame que pode ser feito online. O Certified Internal Auditor é feito em três módulos e leva dois a três anos, portanto, não é algo rápido. Pressupõe, normalmente, um módulo por ano, mas há quem consiga em menos tempo. Para fazer um segundo módulo, é preciso ter, no mínimo, seis meses de distância entre um exame e outro.

Que condições devem ser reunidas?

É preciso ter determinadas condições, principalmente, reunir um certo número de pontos. Estes pontos são dados por horas de formação e por horas de trabalho em auditoria interna.

Cada hora de formação, por exemplo, dá um ponto e, para uma candidatura a exame, são necessários 25. Tendo estes 25 pontos reunidos e bem-sucedidos, pode candidatar-se ao exame, e isso pode fazê-lo aqui, através da Person view.

Há interessados em fazer esta certificação?

Os interessados têm feito os cursos no IIA Brasil.

Ajudámos, pagámos passagens e a estada, e neste momento estamos a conversa com o IIA Brasil a fim de que nos possa fornecer um formador, em condições mais apropriadas, mas ainda não fechámos as negociações.

 

 

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