Mercado

Liderança no sector bancário está em transição

16/01/2017 - 09:41, featured, Finanças

A nova geração de líderes que emerge no governo da banca nacional tem no seu ADN a formação especializada, contínua, e carrega consigo as premissas da passagem de testemunho: uma gestão mais transparente e eficiente.

Por Pedro Fernandes | Fotografia Njoi Fontes 

A escalada da economia angolana no período entre 2004 e 2015 possibilitou o crescimento do sector bancário, com o surgimento de novos players. Desde 2010, mais de 10 instituições bancárias surgiram, garantindo não só a diversificação dos serviços e produtos, como também maior competitividade no sector.
Consequentemente, o sector bancário cresceu em dimensão e em rentabilidade, marcadas pelo aumento do activo, resultado líquido e postos de trabalho, respectivamente.

No entanto, 2015 foi um ano marcado pelo contexto macroeconómico adverso para a economia nacional, tendo criado grandes desafios às instituições financeiras do País. Depois de vários anos de estabilidade e crescimento. Face a este contexto, está a emergir no governo da banca nacional nova liderança que tem no seu ADN a formação especializada, contínua e carrega consigo a premissa de uma gestão mais transparente e eficiente. Se há mais de três décadas o perfil do banqueiro angolano se baseava, religiosamente, em pressupostos que envolviam, entre vários aspectos, os temerosos traços da idade e experiência comprovada, para os próximos anos, as previsões de ampliação significativa dos resultados sustentados da banca em Angola estão sob a égide dessa massa cinzenta jovem. Uma evidente demarcação para com a geração dos veteranos da banca. Deste modo, o cenário criado e a perspectiva a curto prazo fazem surgir, na sequência deste processo, por exemplo, novos presidentes para a comissão executiva dos bancos da nossa praça.

A lista de jovens a darem cartas na banca é infinita, sendo que “os veteranos” olham para este processo sem receio, como sublinha, por exemplo, Fernando Teles. O presidente do conselho de administração do BIC dá garantias de um futuro risonho da banca, no que toca a gestão do sector. “Penso que o futuro está garantido. Ao nível do Banco BIC, por exemplo, tenho muita gente boa, tenho três jovens com menos de 40 anos na administração, nós temos onze anos, e eles são administradores há cerca de quatro anos, o que significa que, ao fim de sete anos, nós aumentamos o conselho de administração”, argumentou o responsável, lembrando que toda a mudança deve ter em consideração os riscos envolvidos.

“Se esta liderança difundir as melhores práticas, estiver altamente comprometida com o código de ética e governação, não considero que seja um risco liderar pelo tempo que os órgãos decisores acharem necessário”, disse.

“Somos uma boa escola, assim como o BFA. Eu imponho regras que devem ser cumpridas, não podemos deixar que os bancos passam a ser uma bandalha, tem de ser uma instituição com credibilidade, por isso precisa de pessoas sérias, com objectivo de fazer crescer o País e ajudar a economia angolana, logicamente procurando sempre a rentabilidade do banco, e penso que tem sido conseguido. Em relação ao Banco BIC, posso garantir que, se eu faltasse amanhã, o BIC continuaria sem problema nenhum. Não consegui falar dos outros, mas dos que conheço, que é o BIC e BFA, posso cair que temos bons quadros.”

Os novos líderes da Comissão de Executiva

A passagem de testemunho é já um facto, sendo que nos exemplos mais recentes se destaca o actual PCE do BPC, Zinho Baptista Manuel. Entre outras funções sociais, na banca entrou pela primeira vez em 2007 e assumiu de imediato o cargo de director do gabinete jurídico do BPC. A competência demonstrada catapultou-o para coordenador da comissão instaladora para a implementação de regras de compliance no banco público, o que deu origem à criação da actual Direcção de Compliance. Agora, como PCE do maior banco público tem a missão de elevar o nível e a reputação do BPC. O PCE do Banco Millennium Atlântico, Daniel Carvalho Santos, é outro exemplo, está há quase dois anos no main board, anteriormente, foi partnerda KPMG e líder de Project Finance do Caixa Banco de Investimento. A PCE do banco Prestígio, Maria João de Almeida, desde Abril de 2015, é responsável do Pelouro das Unidades Orgânicas ligadas à Direcção de Mercados Financeiros, Contabilidade e Planeamento Capital Humano e a de Marketing Institucional.

Arlindo das Chagas Rangel, PCE do Banco Keve, lidera o Keve desde Maio de 2015. O jovem banqueiro iniciou a carreira em 2002, na Direcção Financeira do então BESA, onde passou igualmente pelas direcções Comercial e de Empresas.

Numa entrevista recente à revista Rumo, Vera Cristina dos Anjos Tangue Escórcio, de 41 anos de idade, administradora do BFA, refere que a humildade, a formação e a aposta na superação constituem características fundamentais para jovens que queiram atingir o sucesso no ramo da banca. Vera Cristina dos Anjos Tangue Escórcio, que abre a possibilidade de a nova geração de banqueiros angolanos vir a liderar um banco dissociado do sector petrolífero, aponta a “gestão rigorosa de recursos alheios” como a principal missão de um administrador.

“A população jovem angolana está muito mais aberta ao exterior, existe cada vez mais gente educada financeiramente, melhorinformada e muito mais exigente em termos dos produtos e serviços que a banca oferece”, sublinhou a mesma.

Aos 42 anos de idade, sendo 18 dedicados à banca, Pedro Nunes Mbindingani é administrador do Banco BIC e, como o próprio refere igualmente à revista Rumo, empenhou-se, e os louros foram surgindo gradualmente até o tornarem administrador de uma das principais instituições bancárias do País. “Qualquer gestor deve, acima de tudo, saber ouvir”, refere, ao passo que compartilha a ideia da homóloga Escórcio quanto à nova família de gestores da banca angolana.
“Os bancos têm o desafio de acompanhar as exigências do mercado em geral, oferecendo melhores soluções através de um leque diversificado de produtos e serviços, com o objectivo de potencializar a fidelização e satisfação dos seus clientes”, refere.

Os primeiros vestígios da mudança geracional no sector da banca datam de 2010, quando José de Lima Massano, aos 39 anos de idade, é nomeado governador do Banco Nacional de Angola (BNA), tendo sido exonerado cinco anos mais tarde, em 2015. A nomeação de gente jovem a cargos de destaque no sector seguiu-se com a indicação de Valter Filipe para o banco central.

Capital humano e angolanização

Até ao ano de 2015, os bancos de uma maneira geral alocaram investimentos à direcção de recursos humanos, demonstrando um sério compromisso com o desenvolvimento dos seus colaboradores. O BIC investiu em mais de 36 mil horas de formação; o banco Atlântico (antes da fusão) investiu o equivalente a 466 milhões Kz em quase 30 mil horas de formação; o SOL, 53,6 milhões Kz em 948 horas de formação. Este tipo de investimento teve como objectivo, segundo os relatórios alvos desta análise, não só elevar as competências técnicas, como também contribuir directamente para a melhoria dos níveis de motivação e qualidade de vida dos colaboradores. Os investimentos efectuados permitiram iniciar e desenvolver projectos estruturantes que reforçaram o conhecimento objectivo das competências existentes, das necessidades de desenvolvimento e abertura de oportunidades de carreira. Os bancos também fizeram ajustes salariais adequados e compensatórios, sustentados na avaliação da qualidade e no mérito. A identificação de colaboradores nacionais de elevado potencial permite que desde 2015 se definisse perfis de competências adequados a cada função.

A política de gestão dos recursos humanos está orientada ao desenvolvimento de carreiras privilegiando as áreas comerciais para enquadramento dos novos quadros com menor experiência profissional. Em 2015, os bancos mantiveram a quota de 2% de colaboradores estrangeiros, sustentando assim a política de contratação e manutenção de recursos humanos essencialmente angolanos. A atracção e retenção de colaboradores considerados críticos ao bom funcionamento das equipas e do cumprimento dos objectivos das instituições foi também uma preocupação premente na generalidade dos bancos, devido ao crescimento do sector, que deu um salto neste particular, entre 2013 e 2015, com o surgimento de pelo menos mais bancos. Em 31 de Dezembro de 2015, a idade média dos colaboradores dos sete maiores bancos cifrou-se abaixo dos 34 anos, com uma antiguidade média de cinco anos. Face aos avanços que o sector tem vindo a fazer no sentido se empregar quadros com boa formação de base e potencial crescimento, verifica-se que no geral 50% do efectivo possui habilitações académicas acima do ensino médio e cerca de 40% frequentam as universidades. A distribuição do quadro de pessoal por género é equilibrada.
Os maiores empregadores

Os sete bancos mais rentáveis da praça nacional aglomeram um capital humano que ascende aos 15 mil. Este número cresceu significativamente nos últimos três anos, com um aumento de quase dois mil trabalhadores, de acordo com o levantamento feito pelo Mercado baseado nos relatórios e contas dos referidos bancos até 31 de Dezembro de 2015. O BPC é de longe a instituição bancária com o maior número de colaboradores, um total de 5354, seguido de BFA, BIC e BAI (ver tabela). Este crescimento que ocorreu no mercado bancário acompanhou por efeito a expansão do sector.

A banca nacional cresceu em instituições de 23 bancos autorizados a exercer actividade em 2013 para 30 em 2016. Aumento que teve um efeito positivo em termos da absorção de capital humano, mais correntemente chamado de recurso humano.

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