Mercado

Luís Marques: “Uma empresa nunca vai à falência por causa de erros do auditor”

05/12/2016 - 09:23, featured, Finanças

O office managing partner da EY fala, em diferentes abordagens, dos temas relacionados com a Conferência sobre Recuperação e Reestruturação de Empresas no Actual Contexto Económico em Angola, realizada pela consultora.

Por Aylton Melo | Fotografia Carlos Muyenga

Desde que a Ernst & Young mudou a sua designação para EY, que mudanças significativas ocorreram na sua relação com o mercado angolano?

Muita coisa se passou desde então. Evoluímos para um novo propósito, que é “Construindo um novo mundo de negócios” ou, como aparece no nosso site, “Building a better working world”. A mudança ocorreu quase como uma exigência de alguns dos nossos clientes de cariz internacional e que já estavam em Angola há algum tempo.

Eles questionavam a razão para não termos dado um passo à frente, semelhante ao que alguns dos nossos concorrentes fizeram.

Mas várias foram as razões que estiveram na base desse protelar de decisão, algumas relacionadas com políticas internas no universo da EY. Até que se tomou a decisão de investir de forma robusta para que a firma se reposicionasse de modo premente no mercado angolano.

Quais foram os resultados e ganhos desse investimento?

Os resultados foram significativos, não só do ponto de vista do crescimento da firma como também da percepção do mercado, enquanto player de referência neste mercado. Há também resultados visíveis ao nível da responsabilidade social, fizemos protocolos com várias universidades, com destaque para a Universidade Católica, onde desde 2014 estamos a pagar bolsas de estudo a 20 alunos dos cursos de Gestão e Direito. Além das propinas, damos subsídio de materiais escolares e de sobrevivência, que lhes permite dedicarem-se exclusivamente aos estudos. Estamos a acompanhar o processo de evolução desses alunos e portanto a bolsa de estudos vai prolongar-se no tempo, porque, além da licenciatura, acompanharemos estes alunos aos mestrados. Mestrados que podem ser feitos quer na Universidade Católica de Lisboa, quer no Porto. Tudo suportado pela EY.

Este investimento visa algum objectivo concreto?

Significa que confiamos neste mercado, e é acima de tudo uma aposta numa área que achamos ser importante para este país, que é o conhecimento e a educação. Porque um país só cresce se a sua população tiver know-how e conhecimento, não basta ter riqueza financeira, é preciso ter riqueza intelectual.
Essencialmente, o investimento feito permitiu-nos ter aqui uma equipa mais presente. Deixamos de ter caixeiros-viajantes, que vinham cá fazer o projecto e iam-se embora.

O facto de estarmos aqui com uma equipa em regime permanente fez com que criássemos laços de proximidade e de confiança para com os nossos clientes. Aprofundamos relações, realizamos conferências, workshops, lançamento de livros e trazemos para o mercado a nossa experiência e conhecimento.
Com isso, ganhamos o intangível, que é a relação com os clientes.

Em relação à bolsa de estudo, a EY pretende absorver o capital humano que está a patrocinar?

A EY dá oportunidade aos estudantes caso eles queiram. Mas não existe uma imposição, que decorre do acordo que temos com os estudantes. Portanto, este não é daquele tipo de acordos em que eu patrocino os teus estudos, mas depois tens de vir trabalhar connosco. Não temos este vínculo com os estudantes. Mas damos a oportunidade de eles fazerem um estágio na nossa organização. Este é mesmo um investimento que visa fortalecer as bases do sistema educativo, que existe em Angola.

Naturalmente ficaremos muito felizes se estes alunos vierem trabalhar connosco. A actual situação que o País vive leva-nos, cada vez mais, a sermos muito selectivos com os expatriados que queremos trazer para Angola.

Têm de ser pessoas que acrescentem valor. Não se trata apenas de substituir pessoas. Por outro lado, a contratação de nacionais não só fica mais barata como também fica mais fácil de gerir os recursos humanos, quando são angolanos.

Por que razão a EY realizou a Conferência sobre Recuperação e Reestruturações de Empresas no Actual Contexto Económico em Angola?
Essencialmente por ser uma percepção que temos do mercado.

Porque as empresas estão cada vez mais dispostas a olhar de forma crítica e assertiva. Ou seja, as empresas em Angola cada vez mais estão a olhar para a sua estrutura de custos, o seu mercado-alvo, a olhar para sua dimensão e a ver onde é que podem optimizar. Uma empresa tem de dar lucro para sobreviver ou tem de recorrer aos accionistas, senão abre falência.

Ao contrário do Estado, que, regra geral, pode dar défice, desde que não atinja um determinado referencial do seu PIB, porque conta com várias fontes de financiamento. E, portanto, começamos a ver as empresas a pedir ajuda para optimizar os seus processos e reestruturar a sua actividade. Daí que decidimos lançar este desafio, tentando pôr a tónica naquilo que são as variáveis operacionais, financeiras, laborais e fiscais, as quais devem ser consideradas quando se pensa fazer algo deste género. Outra das razões é despertar o apetite do empresariado angolano, para dizer que está na altura de haver uma grande dinâmica neste mercado. As reestruturações em mercados mais maduros acontecem com muita frequência. As empresas estão sempre a pensar em mudar e em fusões. O actual contexto económico que Angola está a viver pode não só obrigar como até facilitar a tomada de decisão para um desses processos.

Qual é a mensagem por trás dos temas da dimensão fiscal, económico-financeira contabilística e de relatórios financeiros de operações das restruturações?

Quando se pensa num processo de reestruturação, deve-se pensar num modelo, porque a lei fiscal angolana não dá ainda uma resposta cabal na sua totalidade, aquilo que são as implicações resultantes de um processo de reestruturação. No caso de, por exemplo, uma fusão, isto pode ter diversas implicações fiscais, e deve-se fazer um alerta. Escolher o modelo de reestruturação pode ser algo importante para minimizar o custo fiscal de implementação de um processo de restruturação. Por outro lado, o que se pretendeu explicar é que as reestruturações devem ter um plano económico-financeiro, um plano de viabilidade. Normalmente, quando se faz um processo destes, recorre-se à banca, com credores e, portanto, os credores precisam de acreditar que existe viabilidade naquilo que se está a apresentar. Muitas vezes as empresas não têm know-how para elaborar isto. Até podem ter as ideias, mas depois não conseguem transformá-las num produto que os bancos e os credores gostam de ver.

É aí que consultoras como a E Y podem intervir para dar informação robusta e sólida do ponto vista técnico, que seja suficientemente credível para que interessados possam olhar como sendo boa.

O actual momento da economia angolana está a obrigar as empresas a fazer que tipo de mudanças estruturais?

As empresas que têm três ou quatro segmentos da actividade estão a avaliar se faz sentido manter ou concentrá-los num ou outro que constitui o core business da empresa. Depois, há outras que estão inseridas num grupo que tem várias entidades que fazem coisas diferentes, mas a questão que se impõe é se não há maiores sinergias juntando todas as valências numa só unidade. Assim diminui-se os custos, mantendo uma empresa em vez de serem duas ou quatro.
Por vezes também faz sentido desconcentrar. São estes desafios que sentimos que hoje o mercado apresenta e é necessário fazer alguma coisa. Chegamos a um estado em que não podemos ser meros espectadores, devemos ser os agentes, intervenientes bastante reactivos e se possível proactivos, antecipando o que possa vir a ser o futuro.

Num momento de incertezas, é possível fazer antecipações?

Ninguém consegue antecipar muito bem, não é? Como diz o actual presidente eleito dos EUA, “quando eu dizia que ia ganhar as eleições, muitas pessoas riam-se”. Hoje, essas pessoas choram porque estão preocupadas com o futuro, enquanto outras batem palmas, porque acham que o futuro será melhor, nomeadamente até para os países produtores de petróleo.

A imprevisibilidade é de tal forma grande, que ninguém consegue antecipar. Mas as pessoas conseguem prever algumas coisas, e por isso olham para o seu modelo de negócios e tentam perceber se faz sentido mudar alguma coisa.

Há empresas do sector não-financeiro que já estejam a recuperar por meio da implementação de um plano de reestruturação?

Há empresas que estão no início da implementação de um plano de recuperação. Há vários casos em que nós participamos e que existe uma clara percepção de que as coisas poderão vir a mudar.

Mas isto vai depender de muitos factores. Angola é uma economia muito sensível aos efeitos externos.

Não só pela capacidade que o País tem de exportar petróleo para mercados que influenciam no preço, como também a capacidade do sector financeiro de captar fundos no exterior para conseguir financiar as empresas angolanas.

Esta conjugação de factores é um pouco imprevisível, mas, sinceramente, continuo a acreditar que o País como um todo, desde que faça os investimentos certos que permitam substituir importações por produção local, tem capacidade para sair desta situação de crise, desde que se invistam em sectores-chave. Isto é uma situação de médio e longo prazos. Foi muito rápido como chegámos aqui,mas também pode ser rápido sair.

A carteira de clientes da EY abrange entidades privadas e estatais, do sector financeiro, não-financeiro, retalho e industrial. Todos de alguma forma dependentes do Estado.

Qual é actualmente a dimensão dos efeitos dessa dependência?

Temos muitas empresas que viram as suas responsabilidades financeiras a serem liquidadas com a entrega de títulos de dívida, e é mais visível no sector da construção, porque a maior parte das obras de construção são patrocinadas pelo Governo ou através de empresas detidas 100% pelo Estado.

Portanto há um conjunto de empresas que têm estado a sofrer com esta situação. Há empresas que têm dificuldades relacionadas com o acesso às divisas para continuar a fazer negócios, porque têm um negócio a jusante que é rentável e funciona, mas para funcionar estão dependentes de importação de bens. Este é um problema transversal à economia, mas há outras empresas que têm problemas de sustentabilidade. Mesmo olhando a jusante, o negócio que têm perdeu capacidade, e isto é uma realidade, bem como existem empresas que têm crédito malparado. Ainda há bem pouco tempo, uma concorrente nossa, a KPMG, revelou um estudo sobre o sector financeiro, onde se mostrou que o crédito malparado subiu. Isto é claramente o indício de que as empresas têm de fazer alguma coisa. Angola começou nos últimos dois anos a implementar a sua reforma tributária.

Na sua relação com as empresas, como é que estas estão a encarar a dinâmica da AGT?

As empresas estão a fazer um esforço de adaptação. Acho que a grande mudança está a acontecer e é visível nos últimos dois anos, porque a reforma fiscal acabou por ser implementada no final de 2014, com um conjunto alargado de diplomas que foram aprovados no segundo trimestre de 2014.

Simultaneamente saiu um diploma sobre a amnistia fiscal, e os efeitos começaram a fazer-se sentir a partir de Janeiro de 2015. Portanto estamos a completar dois anos da conclusão desse processo, ainda é relativamente recente. O que eu acho que seja mais visível é que houve uma mudança muito grande no relacionamento entre contribuintes e administração fiscal.

A AGT está muito mais actuante, o que faz sentido num Estado moderno, porque cria nos contribuintes a percepção de que o pagamento de impostos é obrigatório. Os impostos são a principal fonte de receitas do Estado. Para que este cumpra a sua função social, nos termos da lei, o Estado tem de se financiar e, portanto, a maior parte deste financiamento provém da receita fiscal. Angola tinha e tem a particularidade de ter uma indústria petrolífera bastante robusta, mas, atendendo ao actual momento do preço de petróleo, as contribuições fiscais desse sector não são suficientes para atender as necessidades do Estado. Este paradigma mudou e, portanto, a parte não-petrolífera está a ser chamada a dar contribuição superior ao que estava habituada a dar.

Na sua opinião, dentro de quanto tempo o Estado angolano atingirá ponto de equilíbrio entre a colheita da receita fiscal não-petrolífera e a petrolífera?

Acho que será difícil para um país como Angola deixar de ter um nível de dependência do petróleo.

É uma utopia pensar que o petróleo deixará de ter uma relevância grande. O que se pode ver é se esta relevância pode ser diminuída.

Qualquer país que produz petróleo, até mesmo os EUA, é afectado por isso. Mas tem de se criar dinâmicas semelhantes às que outros países fizeram, com uma mudança de paradigma. Como, por exemplo, reduzir os tentáculos do Estado, por meio de privatizações, mas sem ser excessivo. Angola poderá caminhar nesta tendência, tal como aconteceu noutros Estados, nomeadamente europeus. Mas com outro tipo de profundidade, com a vantagem de ser outra fonte de receitas. Uma vantagem que deverá ser bem gerida, mantendo algum controlo sobre sectores estratégicos essenciais para o Governo e população em geral.

O papel do consultor e do auditor é muito questionado, quando as empresas declaram repentinamente falência. Afinal quem são os vilões? As empresas por não darem ouvidos aos auditores, ou estes por não cumprirem o seu papel?

O auditor não é o gestor da empresa. Mas muitas vezes confunde-se a culpa da falência com o auditor.

Não substitui a administração nem o gestor da empresa. É uma entidade independente que revê umas contas e emite um relatório sobre se aquelas contas reflectem de forma verdadeira e apropriada a situação patrimonial de uma empresa, numa determinada data.

Agora, muitas vezes, o auditor não consegue rever todos os documentos e faz-se alguns testes com base nalguns procedimentos e ferramentas que são aceites como bons.

Mas muitas vezes os testes são feitos com base em análises que envolvem alguma subjectividade.

Quando vamos discutir com um banco que estamos a auditar, se aquele cliente tem, tecnicamente dizemos uma imparidade, se há um risco de aquele crédito não ser recuperável, isto às vezes é muito subjectivo. O gestor do banco diz que sim, porque confia na pessoa A, porque é uma pessoa de grande reputação, mas depois há dados objectivos que contrariam esse discurso. Depois o auditor vê-se numa posição em que tem de tomar uma posição se acha que vai pôr ou não uma reserva. Também tem havido situações em que os auditores quando emitem o seu relatório dão sinais. Mas os sinais, por vezes, não são percepcionados.
Muitas vezes também há erros do auditor ou funciona como bode expiatório, tem de facto as suas responsabilidades, mas estão limitadas, nunca podem ser acusados pela falência de uma empresa.

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