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Mohamed A. El-Erian: “Dentro de cinco anos a estrada que estamos a percorrer agora, acabará”

21/11/2016 - 08:37, featured, Finanças

É um dos pensadores de economia mais influentes do mundo e diz que, dentro de cinco anos, o caminho seguido até agora pela economia deixará de existir.

Por Ana Sanlez* |  Fotografias DR 

Os bancos centrais tornaram-se o elemento mais importante das economias mundiais nos últimos anos. De repente, algo de que as pessoas nunca tinham ouvido falar tornou-se notícia de abertura de telejornais. Porquê?

O que aconteceu foi, sobretudo, uma combinação de três coisas. Em primeiro lugar, uma dependência excessiva e ampla das políticas dos bancos centrais, porque a disfunção política pusera de parte a capacidade de resposta eficaz e oportuna de outras entidades responsáveis pela concepção de políticas. Em segundo lugar, tendo carregado um fardo político excessivo durante demasiado tempo, os bancos centrais foram compelidos a experimentar cada vez mais, usando, inclusivamente, taxas de juro negativas. Em terceiro lugar, a sensação de que os benefícios de políticas monetárias não convencionais estão a diminuir, enquanto os riscos de danos colaterais e consequências indesejadas aumentam.

Acha que aumentam demasiado?

Sim, e não apenas por uma razão económica. A experimentação de políticas continuada e prolongada por parte de bancos centrais resultou em notórias disfunções do mercado financeiro e está a expor estas instituições a uma maior interferência política.
A acção dos bancos centrais evitou o que podia ter sido uma catástrofe?

Sim, na primeira das três fases do seu activismo bancário central, na sequência da crise financeira global de 2008. Na verdade, se não fosse por um corajoso envolvimento dos bancos centrais, o mundo ter-se-ia inclinado para uma depressão global que duraria muitos anos e seria muito dispendiosa. A segunda fase, que foi lançada em Agosto de 2010 pela Reserva Federal americana, viu os bancos centrais passarem do foco na normalização do mercado para a necessidade de assumirem a responsabilidade de produzir excelentes resultados macroeconómicos. Ao fazê-lo, esperavam construir uma ponte para um tempo em que o sistema político estaria em posição de assumir as suas responsabilidades económicas. Acredito que entrámos recentemente numa terceira fase, desta vez liderada pelo Banco do Japão. Com a resposta política a demorar e a mudança política a ser repetidamente adiada, o foco está agora na eficácia em declínio dos bancos centrais. Assim sendo, crescem as preocupações com a possibilidade de os bancos centrais se tornarem não só ineficazes, mas também contraproducentes. Hoje, isso é particularmente relevante para o Japão. E o risco associado é que os bancos centrais possam passar de parte de uma solução mais ampla a parte de um problema crescente.

Julga que algumas das medidas tomadas pelos bancos centrais foram precipitadas?

Olhando para trás, penso que a comunidade bancária central se teria saído melhor se tivesse conseguido evitar as taxas de juro negativas e, no caso do Banco do Japão, os limites às taxas de juro. Em ambos os casos, os benefícios potenciais serão provavelmente igualados pelos custos e pelos riscos.

Pensa que os bancos centrais ainda têm algumas cartas na manga? Estarão a experimentar demasiado sem avaliarem os riscos? Ou o mercado já é tão dependente da sua acção, que deixou de reagir como era esperado?

Eles têm certamente mais medidas experimentais disponíveis. E parecem desejosos de ir por aí no caso do BCE e do Banco do Japão. Mas a verdadeira questão não é essa. Tem que ver com eficácia. E penso que está a tornar-se mais óbvio, para mais pessoas, que os benefícios líquidos de tudo isto estão a declinar e podem bem tornar-se negativos se continuar a existir uma dependência excessiva dos bancos centrais. Ironicamente, as dificuldades que os bancos centrais enfrentaram para produzir bons resultados económicos não tiveram impacto nos mercados financeiros. Assim, houve uma notável cisão entre os preços dos activos e os fundamentos corporativos/económicos.
Especificamente, os mercados financeiros foram condicionados para esperar apoio contínuo de liquidez dos bancos centrais. Assim, o risco de instabilidade financeira no futuro aumenta.

Como explica que a acção dos bancos centrais não esteja a chegar à economia real, às pessoas?

O mecanismo de transmissão é bastante imperfeito e, desse modo, as melhorias na economia real não se concretizam – tanto em relação ao que é necessário como ao que os próprios bancos centrais esperavam. Porém, em vez de pôr as culpas nos bancos centrais, devemos reconhecer que o problema está no mixpolítico extremamente desequilibrado.

Especificamente, o que é necessário inclui quatro aspectos fundamentais: reformas estruturais pró-crescimento, uma gestão da procura mais equilibrada, resolver a questão das bolsas de endividamento excessivo e fazer progressos numa arquitectura económica regional e global mais forte. Diz que são os governos, e não os bancos centrais, que têm a responsabilidade de recuperar as economias.

Julga que os governos estão conscientes de terem essa responsabilidade? Ou estão a deixar andar e a confiar demasiado em que os bancos centrais resolvam o problema?

Penso que os governos estão cada vez mais conscientes, mas sentem–se demasiado constrangidos para agir. Assim, a necessária mudança política é ainda mais adiada. O resultado é que se continua a depender demasiado dos bancos centrais.

Os investidores privados não deviam ter também um papel importante, dadas as baixas taxas de juro?Podem certamente ajudar, mas o seu papel é de apoio. Por exemplo, as parcerias público-privadas podem fazer uma diferença enorme na melhoria da infra-estrutura decadente. Mas, e isto é importante, os investidores privados não estão em posição de liderar. E, caso se continue a correr riscos excessivos, podem deixar de fazer parte da solução e tornar-se parte do problema. Eis a questão inevitável: o cenário de taxas de juro baixas parece durar para sempre.

Quando é que estas poderão acabar?

Acabarão quando as taxas artificialmente baixas destruírem demasiadas coisas no sistema financeiro e, em consequência, ameaçarem a economia real.
Já estamos a ver pressão sobre os fornecedores de produtos financeiros a longo prazo, como planos de reforma e seguros de vida. E, no caso particular do Japão, estamos a assistir a uma crescente desvinculação de empresas e famílias do sistema financeiro.

Como podem as baixas taxas de juro prolongadas prejudicar as economias?Criando as condições para uma perturbante volatilidade financeira futura. Se por acaso enfrentarmos em breve uma nova recessão, como podemos recuperar se as taxas de juro já forem tão baixas?

A recuperação dependerá da utilização de outras medidas políticas. A política monetária não pode nem deve continuar a carregar a maior parte do fardo, especialmente se este se tornar ainda maior com uma economia em recessão.

Afirma que o actual estado de coisas apenas tem duas saídas: uma muito boa e a outra muito má. Qual lhe parece ser a mais provável?
Detesto dizer isto, porque parece demasiado insípido, mas as probabilidades são bastante similares. Na verdade, não há nada que faça prever o resultado.
Recordemos que não há aqui uma questão de engenharia. A maioria dos economistas concordam em relação ao que é necessário em termos de políticas. É uma questão de implementação de políticas.

Poderá haver um terceiro cenário que não estamos a contemplar? Algo de intermédio?

Sim, é a continuação da situação actual, que traz a etiqueta de “o novo normal” ou “estagnação secular”. O problema com este terceiro cenário é que envolve a continuação do crescimento baixo, o aumento da desigualdade e mais distorções financeiras, e uma erosão mais rápida no potencial de crescimento futuro. Também implica a emergência continuada de movimentos políticos alternativos, forças anti-establishment mais activas, menos confiançana “opinião dos especialistas” e maior perda de confiança tanto no governo como nas elites do sector privado.

Dado o papel central que estas instituições assumiram nas economias mundiais, julga que perderão essa importância em breve?

Não será em breve, visto que a oportuna mudança política continuará provavelmente a ser frustrada pelas circunstâncias políticas. Nesse processo, os bancos centrais tornar-se-ão mais vulneráveis à interferência política.

Afirmou, em 2010, que o mundo precisaria de 5 anos para ultrapassar a crise. Estamos agora no ponto em que, nessa altura, julgou que estaríamos?
Sim e não. Sim, no sentido em que houve uma considerável reabilitação dos balanços financeiros, tanto no sector corporativo como no doméstico, apesar do crescimento invulgarmente lento. Não, no sentido em que houve excessiva dependência dos bancos centrais e de que isso, por si só, começou a ser um tema complicado.

Como pensa que será a economia mundial dentro de 5 anos?

Suspeito de que o caminho em que nos encontramos – o do crescimento baixo e estável e com os bancos centrais a manter a estabilidade financeira – começa a ser difícil de sustentar. Assim, encontramo-nos naquilo a que chamo uma bifurcação. Dentro de cinco anos, a estrada em que estamos agora terá deixado de existir. Mas o que vem a seguir não se sabe. Depende da resposta política. A boa estrada para fora desta bifurcação implicará que o crescimento baixo dê lugar a um crescimento alto e inclusivo e que a estabilidade financeira artificial dê lugar a uma estabilidade financeira genuína. A outra estrada envolve recessão e perturbação da ordem financeira. O contraste na bifurcação tem esta intensidade.
* Dinheiro Vivo

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