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O futuro dos aeroportos está na exploração comercial

23/01/2017 - 12:37, featured, Finanças

O segmento de non-aviation ganha peso crescente nas receitas dos aeroportos a nível mundial, hoje verdadeiros centros comerciais e de lazer. A tendência vai marcar o futuro dos aeroportos nacionais

Por Paulo Narigão Reis | Fotografia Photo Atelier WF 

Os aeroportos já não são apenas o lugar onde apanhamos um avião para ir de A a B. Tradicionalmente, o aeroporto era visto como uma parte da infra-estrutura de transporte, onde as companhias aéreas tinham ao seu dispor as condições necessárias para fazer o seu negócio. Nos últimos anos, o chamado sector de non-aviation tomou conta de parte importante da exploração comercial dos aeroportos, ultrapassando, em muitos casos, 50% das receitas. Hotéis, centros comerciais, restaurantes e até cinemas transformaram os aeroportos em verdadeiros espaços de consumo e lazer, tornando mais agradáveis experiências antes desesperantes, como esperar horas por um voo de ligação.

As receitas de non-aviation tornaram-se num número-chave para medir a performance económica dos aeroportos, principalmente desde que, um pouco por todo o mundo, a exploração comercial tem sido entregue a empresas privadas. No nosso país, a tarefa cabe ainda a uma empresa pública, a ENANA, que começa agora a trabalhar na mudança de paradigma comercial dos aeroportos angolanos.

“A actividade de non-aviation é nova no País e é extremamente importante. A ENANA pode servir-se da actividade para incrementar as suas receitas, dentro do quadro da diversificação da economia. Os aeroportos são infra-estruturas que acabam por atrair desenvolvimento, pois abrangem bastantes recursos humanos e atraem investimentos”, diz o chairman Manuel Ceita, para quem os aeroportos “são infra-estruturas e centros de negócios importantes na geração de receitas para o País”.

A redefinição da experiência do passageiro – que, em termos prosaicos, pode traduzir-se assim: se é para esperar, ao menos que haja alguma coisa para fazer – acaba, assim, por ser uma situação “win-win”. Ganham os passageiros, que vêem o seu “sofrimento” mitigado, e ganham os aeroportos, que, para além de verem crescer as suas receitas, reforçam a sua posição competitiva e melhoram a imagem do próprio aeroporto.

A importância da actividade comercial nos aeroportos aumentou na última década, de início como resposta à liberalização e desregulação da indústria da aviação, cuja face mais visível é o estabelecimento das companhias low-cost, que fizeram crescer o número de voos e passageiros e, consequentemente, o movimento de pessoas nos aeroportos.

A tendência é crescente a nível mundial e, aos poucos, começa a chegar a África e, em particular, a Angola, onde a ENANA assume o grande potencial comercial, nomeadamente no 4 de Fevereiro, em Luanda, que gera hoje 80% dos proveitos da empresa exploradora dos aeroportos nacionais. “A participação do segmento non-aviation está hoje acima dos 50%”, refere Manuel Ceita, precisando: “A actividade não aeronáutica abrange os parques de estacionamentos do lado de terra, o lado oposto aos aviões, que permite parquear as viaturas dos passageiros, visitantes, inclusive dos próprios trabalhadores. Inclui também as áreas comercias, as lojas e estabelecimentos comerciais, onde os lojistas se instalam para fazerem os seus negócios e tudo mais desde que a ENANA o permita. Compreende ainda restaurantes, entre outros estabelecimentos, como armazéns de carga, área para o rent-a-car, estações para abastecimento de combustível, shoppings, cinemas, etc. É uma actividade nova no País, e a ENANA pode explorá-la para a diversificação das suas actividades.” Quanto à rentabilidade das diversas actividades, o chairman da ENANA diz: “Alguns cálculos têm de ser feitos, e temos de ter em conta as formas de negociação, uma vez que tudo é feito à base do Regulamento Tarifário Aeroportuário (RTA). Contudo, os armazéns, lojas e inclusive os parques de estacionamentos dão um grande contributo às receitas provenientes desta actividade.”

As taxas aeroportuárias são, ainda, uma importante fonte de rendimento para as empresas gestoras dos aeroportos, mas deixaram de ser nucleares com o crescimento do non-aviation, segmento em que é a criatividade comercial das operadoras que faz a diferença e onde o potencial consumidor já não é apenas o passageiro como também os acompanhantes ou os próprios funcionários, também eles clientes de um espaço que já não serve apenas para apanhar um avião. “O novo conceito de aeroporto traz também áreas urbanizadas e outras áreas por explorar a que se consignou chamar cidades aeroportuárias”, explica o chairman da ENANA, acrescentando: “No passado, os aeroportos tinham espaços maiores e livres. Hoje, com essas cidades aeroportuárias, perdem algum espaço em benefício das indústrias, infra-estruturas turísticas, entre hotéis e restaurantes ou centros logísticos. Ou seja, são infra-estruturas e centros de negócios importantes para a geração de receitas para o País.”

O futuro dos aeroportos angolanos passa, assim, pela actividade não exclusivamente aeronáutica, como refere Manuel Ceita.

“Estamos a levar o negócio de non-aviation para os aeroportos da rede principal, da rede complementar, que têm menos frequências de movimento de aviões, e da rede de apoio, com menos frequência ainda. Mas a perspectiva é grande em relação ao novo Aeroporto Internacional de Luanda, porque, além do aeroporto em si, haverá igualmente a cidade aeroportuária, com algumas das infraestruturas que citei, sendo que o negócio da actividade não-aeronáutica será bastante visível, e os recursos vão contribuir, e de que maneira, para o desenvolvimento da economia nacional. Mas em primeira instância é a ENANA que sai a ganhar.

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