Mercado

“O mercado de seguros já não suporta a entrada de novos players”

27/03/2017 - 09:50, featured

O CEO da Bonws Seguros, Luís Vera Pedro. é da opinião de que as novas companhias não vão influenciar, em nada, o crescimento do mercado dos seguros, já que o mesmo carece de espaço para a entrada de novos players.

Por Estêvão Martins | Fotografia Njoi Fontes

Para este ano o sector prevê a criação e a entrada de novos serviços e produtos, tal como o seguro de mercadorias, o novo modelo de co-seguro dos petróleos, seguro agrícola, entre outros.

Que antevisão faz a Bonws Seguros do mercado nacional de seguros para 2017?

A Bonws considera que o mercado vai crescer. O índice de confiança do consumidor tem vindo a crescer, verificando-se um aumento no consumo. Se aumenta o consumo, é necessário produzir mais. Consequentemente, serão criados mais postos de trabalho, novas instalações vão ser criadas, assim como a ampliação das empresas existentes. À partida, em termos de mercado interno, temos condições favoráveis para que isso aconteça, tendo assim o mercado segurador de dar resposta a todos os sectores da actividade, e se esses sectores aumentarem o seu desempenho, tendencialmente o mercado segurador também vai crescer.

Parece-me que o percurso que tem vindo a ser feito em Angola é exactamente para caminharmos para uma situação de harmonização, de estabilização de muitas situações vividas no ano de 2016 e finais de 2015. O ambiente favorável que se começa a viver vai fazer com que haja condições para o crescimento do sector segurador.

Acredita que o surgimento destes serviços e produtos, assim como das novas seguradoras, poderá, por exemplo, influenciar no aumento da penetração dos seguros no PIB?

Em relação às novas seguradoras, eu gostaria de dizer que sim, mas não acredito. Actualmente, existem 27 seguradoras autorizadas em Angola, das quais apenas uma pequena parte está em plena actividade. Estas têm vindo a fazer o seu trabalho, no entanto, destacamos cinco ou seis que estão em plena maturidade de laboração. Consequentemente, gostaria de dizer que sim, mas as novas companhias não vão influenciar positivamente no crescimento do mercado dos seguros. Poderão, sim, criar algumas situações de incerteza no consumidor. Se uma entidade de seguros entra no mercado e pensa que é pelo preço que vai conquistar novos clientes, está a influenciar o seu futuro e o futuro das restantes congéneres, não basta constituir uma empresa, montar uma sala e começar a distribuir seguros, não será suficiente para influenciar positivamente a confiança dos consumidores em relação aos seguros. Estamos perante um sector em que não se pode chegar e colocar no mercado produtos de uma forma completamente aleatória e mal pensada. Existem regras a serem observadas do ponto de vista actuarial e na boa gestão de risco. Considero que já não existe espaço para tantas seguradoras no mercado.

Está a dizer que muitas das companhias não estão capacitadas para actuar no mercado?

Mas uma vez recordo que a cadeia de valor nos seguros é exactamente ao contrário das outras.
O princípio que está por detrás do sector segurador é um princípio mutualista, que já vem de muitos anos, que é exactamente todos depositarmos uma determinada quantia para que, quando algo aconteça a um de nós, haja um valor para fazer face a essa situação. Se uma empresa começar a cobrar prémios, mas estes prémios não forem suficientes para pagar os sinistros do seu segurado, quando ocorrer, vamos ter um problema sério.

Será que tem que ver com o dumping de preços?

Sim. Estou a falar de empresas que entram no mercado de forma desalmada a fazer preços baixos para conquistar clientes.

Essa poderá ser uma estratégia interessante e até poderá resultar em mercados maduros, em que já estão constituídas reservas técnicas e ferramentas financeiras nestas empresas para fazer face a eventuais sinistros. Agora, num mercado como o nosso, em que ainda estamos em fase de amadurecimento e com poucas alternativas para ganhos financeiros, tais estratégias não devem ser praticadas, essas experiências não resultaram em mercados mais maduros, como o europeu.
Não podemos deixar de pagar os sinistros aos nossos clientes, vamos ter queixas junto da ARSEG e recurso aos fundos obrigatórios criados pelo regulador. Esta situação não será benéfica para ninguém, para além de mais uma vez vir a denegrir o sector segurador no que diz respeito à sua missão.

De que forma a missão do sector pode contribuir para o fortalecimento do mercado segurador?

A missão do sector segurador é exactamente redistribuir parte do que recebemos dos nossos clientes. O dinheiro que as companhias gerem é dos clientes e da sociedade, esta confia que receberá de volta da seguradora o pagamento do sinistro e a confiança que o sistema funcionou. As seguradoras têm a obrigação e a responsabilidade de gerir os fundos colocados sob a sua gestão. A contribuição do sector segurador para o PIB irá ser incrementada através do crescimento da própria actividade fomentada pelas necessidades de mercado, pelo aumento da confiança e da consciência do papel preponderante que os seguros têm na sociedade.

O mercado segurador em Angola está em franco crescimento, a consolidar boas práticas, e cada vez mais com um foco na responsabilidade social interna e externa.

Ainda em relação à taxa de penetração de seguros no PIB, como acha que o mercado pode mudar este quadro, já que as novas companhias poderão não trazer nada de novo, como diz?

A Bonws Seguros segue a sua estratégia de eleger os corretores como o seu principal canal de distribuição. Trabalhamos em parceria com os principais corretores presentes no mercado, este canal é visto pela Bonws como um beneficio, sendo estes os seus parceiros preferenciais.
Devemos apostar em novas soluções, condizentes com as verdadeiras necessidades que emergem. O sector dos transportes é uma das áreas para as quais a Bonws Seguros tem vindo a olhar de uma forma muito atenta.

Desde 2016 que a companhia tem como seu objectivo o foco comercial no sector dos transportes de mercadorias, assim como em soluções mais amplas que as existentes, envolvendo também a protecção do risco em armazém.

Ainda neste ano serão lançadas novas soluções para além das existentes no mercado. Temos como objectivo gerir os riscos na sua totalidade. Desta forma, através da verificação das necessidades e análise customizada do caso concreto, traduzir-se-á em incremento da taxa de penetração dos seguros. Prevejo que o crescimento do mercado segurador pode passar também, por exemplo, por uma via que não tem estado a ser explorada, de forma consistente, o ramo vida através de soluções puras ou mistas como é o caso da componente poupança. No que diz respeito aos fundos de pensões, ainda existe mercado para explorar, algo que a Bonws Seguros não coloca de parte.

Como fazer com que o mercado explore, de forma mais consentânea, este ramo numa altura em que o mercado se debate com a falta de divisas?
O mercado angolano já começa a ter maturidade suficiente para começar a apostar em soluções ligadas ao ramo vida, como referi, inclusive com benefícios de poupança. A Bonws participou recentemente num fórum de Seguros em Lisboa, no dia 15 de Março, que contou também com a presença do presidente da ARSEG, Aguinaldo Jaime, onde foram partilhadas experiências, conhecimentos e novas ideias sobre a estratégia para o ramo vida e fundos de pensões. A Bonws Seguros pretende oferecer e explorar as oportunidades que o mercado apresenta. Vemos a perspectiva de exploração do seguro de vida absolutamente necessária, em que, em caso de morte ou em caso de invalidez, os herdeiros ou o lesado, na última, recebem um capital previamente estipulado na apólice. Estas soluções serão lançadas de forma faseada ao longo do presente ano.

A questão das divisas é algo que tem vindo a ser gerido de acordo com as contingências actuais, mas não têm afectado a actividade da Bonws Seguros junto dos seus parceiros resseguradores.

E quais são os desafios da Bonws em relação ao fundo de pensões?

Em relação ao fundo de pensões, a Bonws Seguros propõe-se a constituir soluções adequadas à nossa realidade. Não abdicamos de, nesta área, requerente de conhecimentos profundos e especializados, providenciar igualmente um serviço de excelência semelhante ao que os nossos clientes se encontram habituados.
Elaborar e implementar fundos de pensões é algo que requer quadros técnicos especializados, já que se trata de uma matéria muito sensível. Temos de pensar todo o circuito necessário, a custódia dos capitais entregues e a sua rentabilização, onde investir, rentabilizar, de preferência em instrumentos financeiros, com localização em Angola, potenciando a própria economia. Não podemos descurar potenciais parcerias internacionais, no entanto, atendendo às contingências existentes, será difícil pressupor envio de investimentos para entidades ou associação a fundos estrangeiros.

Nesta altura, de uma modo geral, de que forma o sector segurador pode apoiar a economia nacional?

Pode apoiar fazendo bem o seu trabalho e concretizando o seu papel dinamizador. Se o fizer, já estará a apoiar a economia.

No caso concreto da Bonws Seguros, aquando da missão que me foi confiada, em finais de 2015, tinha um principal foco, a manutenção dos postos de trabalho e a protecção das famílias que estavam a nosso cargo, mesmo que isso pudesse representar um ano menos rentável para a empresa.
Pelos resultados obtidos, provou-se que o investimento compensou, colaboradores motivados podem e são determinantes no crescimento das empresas.
Como exemplo, a Bonws Seguros atribui anualmente bolsas de estudo como recompensa pelo grau de dedicação dos seus colaboradores.
Desta forma é também a economia a beneficiar.

Por outro lado, através de acções de responsabilidade social, ajudando algumas instituições, a Bonws procura também ajudar a economia de uma forma directa e indirecta. Por final, pagando os seus impostos a tempo e horas ao Estado, faz com que de uma forma directa ajude a economia a alavancar. Se honramos os nossos compromissos, não colocamos terceiros em dificuldades.

Qual é a situação do co-seguro do sector dos petróleos , de que a Bonws Seguros faz parte?

O co-seguro está neste momento a ser liderado pela ENSA, que deu continuidade às melhores práticas do anterior líder.
O processo de colocação passa pela consulta às congéneres da aceitação ou não da retenção do risco, sendo o excedente colocado em resseguro, processo que é gerido em exclusivo unicamente pela líder do co-seguro.

A Bonws tem respondido positivamente à retenção da percentagem que lhe foi atribuída.

Em mercados como o Gana e a Nigéria, existem outros modelos em vigor, ao contrário de Angola, onde existe apenas um líder de co-seguro.
Na Nigéria e no Gana, existem modelos muito interessantes que serão debatidos no Fórum sobre Oil & Gas que a Bonws Seguros realiza nos próximos dias 28 e 29 de Março, em Luanda.

São modelos que devem ser analisados de forma a auxiliar a solução a ser adoptada para o mercado angolano.

A Bonws Seguros apenas defende um modelo que funcione, que seja eficiente, organizado e, o mais importante, seja motor e fonte de riqueza nacional.

Para si, o modelo vigente no País satisfaz o mercado?

O modelo a ser encontrado para Angola, na qualidade de principal produtor de petróleo em África, deve ser um modelo que obrigatoriamente funcione de acordo com as melhores práticas internacionais, transparente de forma a permitir um perfeito conhecimento das suas nuances e políticas inerentes, eficiente para permitir a operacionalidade e correcta gestão do risco, só possível quando este é perfeitamente exposto e explícito, rentável para todas as partes envolvidas, incluindo para o próprio Estado.

Quais são os objectivos da realização desse fórum sobre oil & gas?

O primeiro grande objectivo passa por formar e informar com vista ao conhecimento das melhores práticas de mercado e ao debate de ideias.
A Bonws Seguros tem procurado organizar eventos com um carácter tendencialmente gerador de debate e incubação de ideias.
A perspectiva de sermos pioneiros na organização de um fórum dedicado à actividade petrolífera que simultaneamente possa ser aproveitado transversalmente para outros sectores de actividade é importante para a economia nacional.

Este evento é organizado em parceria com a RKH – Hyperion Insurance Group, um dos maiores brokers do mundo, parceiro da Bonws Seguros especialista na área de energia, com trabalhos já realizados para a Sonangol.

Os vários especialistas da RKH irão expor a situação actual do sector segurador petrolífero, transmitir fórmulas e modelos de outros mercados, assim como as melhores práticas realizadas na praça de Londres para o mercado energético.

A abertura do evento será efectuada por Sarju Raikundalia, CFO da Sonangol.

Contaremos também com a intervenção de Nuno Matos, especialista da PWC na área actuarial e gestão de risco, e haverá ainda um espaço dedicado à prevenção de saúde e riscos laborais, sendo orador convidado Rui Capo, especialista na matéria, membro da Ordem dos Médicos de Angola.

O encerramento estará a cargo do presidente da ARSEG.

Que organizações estarão presentes no evento?

As organizações e instituições ligadas ao sector petrolífero, as câmaras de comércio, representações diplomáticas, principalmente dos países com participação no sector petrolífero.

Estão também convidadas as instituições do sector bancário e financeiro e empresas de variados sectores de actividade.

A nível internacional contamos com a presença de alguns especialistas da actividade seguradora, fundamentalmente da Inglaterra. Instituições estatais e representantes de órgãos de soberania, e todos aqueles que de alguma forma estão ligados ao tema.

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