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Raul Mateus: “Acesso às divisas limita actividade das distribuidoras”

09/01/2017 - 10:42, featured, Finanças

O presidente da Associação de Empresas de Comércio e Distribuição Moderna de Angola (ECODIMA) diz que a débil produção interna faz da actividade comercial refém das divisas.

Por Pedro Fernandes | Fotografia Carlos Muyenga

O ano que há pouco terminou colocou à prova a determinação de todos operadores económicos do País, exigindo adaptação ao novo paradigma imposto pela crise
cambial instalada.

Como avalia o desempenho do sector da distribuição em 2016?

O sector da distribuição sentiu os reflexos da situação económica do País. É óbvio que 2016 foi um ano muito difícil para todos. O Estado perdeu receita. As empresas viveram o desafio de se readaptar ao novo contexto. As famílias e os cidadãos perderam poder de compra. Portanto, o clima económico e financeiro foi desafiador para qualquer empresa, visto que todas necessitam de mercadorias, nalguns casos matérias-primas, do exterior, com qualidade internacional, e isso tem um impacto na nossa estrutura de custos. Há escassez de divisas, e a desvalorização do kwanza criou mais constrangimentos ao nível da importação, pondo em causa a viabilidade de muitas empresas angolanas que actuam no sector do retalho e comercialização de produtos básicos e essenciais para o bem-estar das famílias angolanas. Apesar dos esforços que as empresas vão fazendo para a diversificação de suas iniciativas empresariais, com realce para a agricultura, a produção nacional ainda é insuficiente para substituir a necessidade de comprarmos certos produtos no exterior.

É verdade que o preço é elevado, mas no final do dia vemos uma conjuntura marcada pela escassez, elevada procura e um aumento de preços.

Em termos de quantidade, qual foi o nível de importação das empresas ligadas à ECODIMA?

O nível de importação por parte das empresas ligadas a ECODIMA é relativamente satisfatório até ao presente momento, pelo facto de assegurar a quadra festiva, razão para dizer que a atribuição de divisas pelo BNA a mais operadores, com destaque para os nossos associados, permitiu a chegada todos os dias ao País de mercadorias diversas, especialmente bens alimentares. A chegada destas mercadorias originou uma redução significativa dos preços de alguns produtos no mercado. O aumento da oferta fez com que houvesse redução dos preços.

E o que se deve fazer para manter o nível?

É preciso haver e manter as alocações de divisas com regularidade, mesmo tendo em conta as adversidades do contexto actual. Se assim for, registaremos em 2017 maior estabilidade dos preços.

A ECODIMA assegurou, assim, a oferta dos bens essenciais às populações durante o período festivo, fundamentalmente produtos da cesta básica, nomeadamente: a farinha de trigo, o açúcar, farinha de milho, arroz, óleo de soja, feijão, leite em pó, e as demais iguarias tradicionais desta época, mas também outros produtos que não são da cesta básica, mas com elevado consumo na época natalícia, bem como assegurará a oferta destes bens para o próximo ano, se o Banco Nacional de Angola fizer as alocações para o efeito.

Dá para ter uma ideia da alocação de divisas feita nestes últimos meses do ano às empresas ligadas à ECODIMA?

Quanto a este ponto, a única coisa que lhe posso adiantar, e como já referi, é que as divisas atribuídas permitiram assegurar o período festivo. O problema agora prende-se com 2017. Será fundamental a alocação de divisas agora para no mínimo atender e assegurar os bens essenciais à população nos três primeiros meses do ano.

Deste modo, estamos a negociar com as entidades competentes o aumento da fasquia, pois que o valor atribuído em 2016 foi insuficiente para fazer face às nossas necessidades, tendo em conta o facto de sermos a maior associação empresarial em termos de volume de negócios e abrangência comercial. A venda de cabazes em 2015 caiu consideravelmente.

Como foi em 2016?

Caiu ainda mais. O poder de compra, em 2016, reduziu consideravelmente com a desvalorização da moeda. Os consumidores têm menos dinheiro e, consequentemente, compram menos.

O atraso no pagamento dos salários da função pública e o facto de algumas empresas terem tido igualmente essa dificuldade agudizaram ainda mais o cenário.
Vamos aguardar os números, mas num primeiro olhar, e do contacto com os associados, fica evidente que há uma queda brusca.

As perspectivas para 2017 são mais simpáticas?
Auguramos todos que 2017 seja melhor que 2016. As crises são cíclicas. Os problemas estão identificados, pelo que devemos todos trabalhar em prol da resolução destes mesmos problemas, com coragem e determinação, com diálogo e abertura, pois todos sentimos o problema e queremos participar na solução.
Numa declaração pública, o senhor previu para este ano a criação da indústria de transformação agro-alimentar.
A data continua a mesma?
Ela começa a nascer em todo o País. Infelizmente, não nos parece que este seja o ano do boom, porque a classe contava com a liquidez proveniente do pagamento da dívida pública para viabilizar os projectos. A falta de pagamentos tem vindo a condicionar a concretização de muitos projectos planificados. A alternativa ao crédito é muito cara e inibidora, mas temos fé que alguma coisa, timidamente, continuará a ser feita.

Até que ponto a produção nacional cobre o nível da necessidade alimentar do País?

Nós não temos ainda uma verdadeira produção nacional. No mundo moderno, a actividade agrícola exige a utilização de meios tecnológicos compatíveis com a actividade. A nossa agricultura ainda é essencialmente manual, sem a utilização de recursos tecnológicos de rega, colheita, combate às pragas, etc. Nestes termos, será muito difícil termos uma produção nacional em grande escala que atenda as necessidades.

A outra dificuldade prende-se com a falta de uma política clara que defina e trace as linhas mestras de todo o processo produtivo nacional. É necessário que haja um programa específico para a agricultura, definindo, de forma inequívoca, as regiões de produção, quais os produtos que devem ser produzidos em determinadas regiões de acordo com condições climatéricas e, fundamentalmente, dar-se o devido incentivo e benefícios fiscais de acordo com o que for traçado. Não podemos cair na ilusão de que temos produção nacional pelo simples facto de termos algumas pessoas que, de modo isolado, e com muito sacrifício, produzem. Deve haver uma produção estrutural, e não individual. Infelizmente, é isto que acontece. Não prestamos atenção ao ciclo, pois importamos ainda quase tudo, e a agricultura tem um forte impacto na pecuária e na indústria. Não teremos indústria com agricultura de baixa intensidade. Olhemos o que se faz na África do Sul. O peso do Estado na economia deve baixar e mudar de tom. O Estado deve deixar a produção ao sector privado e ocupar-se de criar as condições para o efeito.

Hoje, que posição ocupa o sector de distribuição na economia nacional?

Num contexto em que precisamos urgentemente de diversificar a nossa economia, o sector da distribuição deve ocupar um papel de alavancar o sector da produção e da indústria. Importa realçar que o sector da distribuição, relativamente aos outros dois, regista maior crescimento e desenvolvimento, pois há uma classe média emergente com capacidade de consumo. Não havendo produção interna, a distribuição socorre-se das importações. Deve ser dada a devida atenção a este importante sector da nossa economia, não só pelas razões já enunciadas, mas também por ser o sector privado que mais emprega e é o segundo maior contribuinte fiscal.

No contexto económico em que o País se encontra, quais os principais entraves na actividade?

O acesso às divisas, o excesso de burocracias, inspecções de mercadorias feitas de modo desconforme, o balúrdio que se cobra nas análises laboratoriais – das mais caras do mundo –, o excesso de informalização da actividade económica.

Quantas vezes temos o concorrente informal à porta dos nossos estabelecimentos?

Continuamos a ter algum problema a nível de recursos humanos, factores como a água e a energia, havendo ainda necessidade de se recorrer às cisternas e aos geradores, continuam a encarecer grandemente os nossos serviços. Ora, temos de melhorar significativamente o ambiente económico, e isso não passa apenas por fazermos leis. Estas são importantes, mas mais importante é a sua implementação.

O que se pode fazer para melhorar o quadro?

Haver afectação de recursos cambiais a mais operadores com elevada regularidade. É importante que a referida afectação de recursos cambiais seja feita a empresas com historial, profissionais do sector e a mais operadores, de forma a se evitar candongueiros, especuladores e monopólios. Se assim acontecer, não temos dúvidas de que a actual situação melhorará significativamente. Do ponto de vista estrutural, é importante que melhoremos o ambiente de negócios. É importante que o Estado dê aqui um sinal forte de reaquecimento da economia regularizando os atrasados.

Neste momento particular, quais deveriam ser as prioridades do Executivo para estabilizar o mercado de consumo?

Assinala-se neste momento maior oferta, mas também menor poder de compra por força das desvalorizações efectuadas, sem que no entanto se fizesse o proporcional reajuste salarial. Nesta altura, verificamos que as pessoas só compram aquilo de que efectivamente necessitam. Daí que é inócuo traçar prioridades, porque os consumidores, com os poucos recursos que têm em sua posse, só compram mesmo aquilo de que necessitam. E, consequentemente, as empresas só importam ou importarão os bens que serão alvo de compra pelos consumidores.

O ano teve dois momentos. Os dois semestres foram diferentes, mas acreditamos que esta situação vai melhorar porque as crises são cíclicas. É verdade que esta crise já vai longa e por isso alguns economistas começam a falar de um novo normal. A conjuntura é mundial, e penso que foram tomadas medidas certas. A revisão do orçamento foi uma delas. É importante que caminhemos nesta direcção, mas também é importante que consolidemos o diálogo entre o Governo e os parceiros sociais porque, como disse no início, todos estamos a sentir os efeitos desta situação.

Qual é a origem dos produtos comercializados pelas empresas ligadas à ECODIMA?

Os membros da ECODIMA nalguns casos são já produtores. Portanto, em primeira instância, destacaria os produtos nacionais. Por outro lado, o grosso dos produtos comercializados em Angola, alimentares e principalmente não-alimentares, é proveniente do estrangeiro, especialmente de países com os quais existe uma forte relação comercial, como Argentina, Portugal, França, Estados Unidos da América, Espanha, China, Brasil, Uruguai, África do Sul, Turquia, Bélgica e Alemanha.

A compra de produtos neste ou naquele país varia em função de situações objectivas que interferem na flutuação dos preços no mercado internacional. Factores objectivos como a chuva podem influenciar o preço de determinado produto neste ou naquele país. Procuramos o melhor preço.

Assim, se um país está num determinado momento a praticar o melhor preço para um certo produto, então, será neste país que compramos o produto. Há também alguns fornecedores com os quais existe uma relação privilegiada e, sendo internacionalmente conhecidas as dificuldades por que passa a economia nacional, estes fornecedores fazem muitas vezes vendas a crédito.

Ora, é necessário que fique claro, nenhum país do mundo está isento de importações. É porém necessário, no quadro do comércio internacional, que os países percebam os seus pontos com vantagem competitiva. No nosso caso, a agricultura e a indústria manufactureira podem ser relançadas porque temos condições naturais. Falta o investimento massivo para que possamos tirar proveito das nossas vantagens. Da parte do empresariado, posso dizer-lhe que estamos prontos se a isso formos chamados.

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