Mercado

Schadenfreude: A descida do dólar e o trunfo dos mercados emergentes

26/02/2018 - 14:40, featured, Opinião

Os mercados emergentes são hoje menos vulneráveis ao perigo de um dólar americano crescente

Por Rui Oliveira/Especialista em mercados financeiros 

E assim regressa ao mosteiro o grupo de franciscanos, após uma ausência, mas desta vez o monge calvo está com problemas em controlar o seu poderoso animal – o dólar, que, numa situação quase anedótica, continua o seu declínio dos últimos 13 meses. Entretanto, os outros mercados franciscanos emergentes à  entrada do mosteiro, ao lado de seus pares de animais amarrados, deleitam-se com o infortúnio do companheiro.

No momento de redacção, o Índice do Dólar – uma medida do valor do dólar norte-americano em relação ao valor de uma cesta de moedas (o euro, o iene japonês, o dólar canadiano, a libra britânica, a coroa sueca e o franco suíço) dos principais parceiros comerciais dos EUA – registou uma variação de 52 semanas de 10,29% (Fig. 1), após um aumento de 27% em Julho de 2017.

No mês passado, o Fundo Monetário Internacional anunciou que a participação do dólar nas reservas globais de divisas diminuiu no terceiro trimestre de 2017 para 63,5%, o mais baixo desde meados de 2014. Nas últimas semanas, eu tenho meditado sobre como interpretar essa persistente queda e sobre quem realmente beneficia dela.

O Subjacente

Devemos relembrar que uma taxa de câmbio é determinada em parte pela oferta e, em sua maior parte, pelas expectativas de tendências. E que existe um amplo universo de factores que influenciam essas expectativas, que podem abranger desde a política monetária (economia) a eleições (política), propensão para salvar (pessoas) e mudanças climáticas (meio ambiente), mas estas podem ser sistematicamente divididas em factores fundamentais e factores técnicos.

Do ponto de vista da análise fundamental, as expectativas de inflação elevada e as melhores condições económicas na Europa são as principais forças motrizes desse declínio. Outra força motriz por trás disso é a Fed. Numa entrevista recente, Steven Mnuchin, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, fez a seguinte observação: “O dólar é um dos mercados mais líquidos. Onde está no curto prazo não é uma preocupação para nós. Um dólar mais fraco é bom para nós no que diz respeito ao comércio e às oportunidades. A longo prazo, a força do dólar é um reflexo da força da economia dos EUA e que é, e continuará a ser, a principal moeda de reserva.” Esta visão não é compartilhada por muitos economistas, por exemplo, o Financial Times reportou que Larry Summers, ex-secretário do Tesouro, considerou essa declaração “problemática”, pois isso significa “menor poder de compra para os rendimentos americanos”, enquanto outros especialistas financeiros argumentam que o dólar mais fraco deve ser visto como um sinal positivo para os EUA, especialmente nos mercados de acções e para os compradores estrangeiros de activos dos EUA, já que estes se tornam mais baratos.

No que se refere ao horizonte de curto prazo, tradear-se analistas técnicos, que geralmente assumem que os ânimos, ansiedades, motivos psicológicos e expectativas políticas se reflectem nos padrões de comportamento específicos dos participantes do mercado e, portanto, nos movimentos da taxa; prolongaram na semana passada a queda dos últimos 15 dias, da Dow Jones Industrial Average, totalizando 2400 pontos. Retiraram 22,9 bilhões USD em fundos de acções e fundos negociados em bolsa nos sete dias que encerraram quarta-feira. As variações diárias no mercado de acções também aumentaram, com o índice de volatilidade Cboe (VIX) – a medida de oscilações esperadas no S&P 500 – encerrando terça-feira no seu nível mais alto desde Agosto de 2015, antes de encerrar a semana em alta em quase 70%.

E o vencedor é…

Independentemente dos diferentes pontos de vista, existe um denominador comum – os que mais beneficiam aqui são os mercados emergentes, pois são os grandes detentores de dívida denominada em moeda estrangeira e, como a subida do dólar exige mais recursos para os mutuários que não sejam dos EUA para fazer o serviço dessa dívida,enfraquecimento do dólar deflaciona as suas dívidas e torna-as menos vulneráveis ao exterior. Outros factores positivos também estão em jogo para os mercados emergentes: • O dólar mais fraco geralmente é acompanhado de preços mais fortes das commodities, o que aumenta o crescimento e o superavit comercial para os exportadores de commodities.

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