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China assume defesa da globalização e promete crescimento de 6,5%

13/03/2017 - 11:09, featured, Finanças

Pequim quer combater o proteccionismo e a tendência antiglobalização que começa a assolar algumas potências ocidentais, com os EUA de Donald Trump à frente. Na abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular, o governo chinês anunciou ainda um aumento de 7% no orçamento da Defesa.

Por Paulo Narigão Reis 

“As portas da China continuarão a abrir-se cada vez mais”, prometeu o primeiro-ministro chinês na abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular, o órgão máximo legislativo da China. Li Keqiang assumiu, perante os 2987 deputados do maior parlamento do mundo, a defesa da globalização contra “qualquer tipo de proteccionismo”, numa altura em que a tendência antiglobalização se espalha pelo Ocidente, principalmente nos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump. “O crescimento económico mundial continua a ser débil, e a tendência antiglobalização está a crescer tanto como o proteccionismo”, afirmou o número 2 da China, para quem “os factores que poderiam causar instabilidade e incerteza estão a aumentar”.

“Os acontecimentos, tanto dentro como fora da China, requerem que estejamos preparados para enfrentar situações mais complicadas e graves”, disse Li. Ao mesmo tempo, o governo de Pequim considera que o objectivo económico para este ano – crescimento do PIB em 6,5% – é alcançável. A meta consta do relatório económico do executivo, tradicionalmente apresentado na sessão inaugural da legislatura chinesa.

“Temos confiança e resolução para o conseguir. Estamos confiantes em que neste ano, e especialmente com a reestruturação do lado da oferta, haverá melhores condições para atingir o objectivo”, afirmou He Lifeng, director da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, o principal órgão de planificação económica da China, que no ano passado registou um crescimento económico de 6,7%, o mais baixo desde 1990. Ainda assim, Pequim considera que, apesar do abrandamento no crescimento anual, o país mantém-se como um dos principais motores da economia mundial. “Este ano, com a meta de 6,5%, estamos a esforçar-nos para conseguir algo melhor”, disse He Lifeng, acrescentando: “É necessário que consigamos manter essa velocidade de crescimento, porque a nossa população está a aproximar–se dos 1400 milhões, e o emprego é um problema enorme.”

Como dar trabalho a tanta gente é um dos grandes desafios da China e, no domingo, perante os deputados, o primeiro-ministro Li Keqiang anunciou a criação de 11 milhões de empregos nas cidades para este ano, sendo que 8 milhões se destinam a profissionais com formação universitária. Investir na inovação é um dos grandes objectivos de Pequim, que pretende reduzir ainda o excesso de capacidade de produção.
Para já, o novo ano não trouxe grandes notícias para a economia chinesa. Pela primeira vez em três anos, a China registou, em Fevereiro, um défice comercial. As importações superaram no mês passado as exportações ao registarem um aumento homólogo de 44,7%, enquanto as vendas ao exterior cresceram apenas 4,2%, segundo dados oficiais publicados na quarta-feira.

O volume do comércio com o exterior ascendeu a 248 mil milhões USD no mês de Fevereiro, uma subida homóloga de 21,9%.

O défice comercial da China ascendeu a 8729 milhões USD, depois de em Janeiro o país ter registado um superavit superior a 50 mil milhões USD.
Já a dívida do governo central e das várias administrações regionais está, segundo o governo,“sob controlo”, nas palavras do ministro das Finanças, Xiao Jie. No total, a dívida do Estado chinês somava 27,33 biliões de yuan (cerca de 4 biliões USD), no final do ano passado, equivalente a 38,7% do PIB, disse Xiao em conferência de imprensa. Xiao sublinhou ainda que “o nível de dívida do Governo chinês é relativamente baixo, face a outros países, o que deixa uma margem suficiente para possíveis ajustes” na política económica.

No domingo, durante a sessão na Assembleia Nacional Popular, o primeiro-ministro Li Keqiang anunciou uma redução dos impostos para as empresas no valor de 350 mil milhões yuan (50,3 mil milhões USD) e a redução de 200 mil milhões yuan (28,8 mil milhões USD) em taxas diversas.

Menos poluição, mais defesa

O smog que cobre algumas das grandes cidades da China tem feito notícia em todo o mundo, e o governo elegeu o combate à poluição como uma das grandes metas nacionais para 2017. “Vamos tornar os nossos céus azuis outra vez”, proclamou Li Keqiang na sessão de abertura da Assembleia Nacional Popular. No relatório apresentado no último fim-de-semana, Li afirma que as “pessoas estão desesperadamente à espera” de um progresso mais rápido na melhoria da qualidade do ar. O primeiro-ministro chinês disse ainda que o governo quer acelerar a modernização das centrais a carvão e integrar as fontes de energia renovável na rede de distribuição eléctrica.

Grande parte do Norte da China foi atingida neste ano por um denso manto de poluição, que afectou mais de 100 milhões de pessoas e forçou o executivo a adoptar medidas de emergência. Li Keqiang prometeu ainda que a China vai retirar da estrada todos os veículos com altos níveis de emissão e reduzir na ordem dos 3% as emissões de dióxido de enxofre e óxido de azoto, dois dos principais poluentes atmosféricos.

De fora da abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular ficou, ao contrário do que é habitual, a divulgação do orçamento para a Defesa. No entanto, segundo avançou a Bloomberg, citando um responsável do Ministério das Finanças, a China gastará 1044 biliões yuan (150 mil milhões USD) com a Defesa, um aumento de 7%, ainda assim o ritmo mais lento desde 1991. O orçamento da Defesa da China registou aumentos de dois dígitos durante vários anos, até 2016, quando subiu 7,6%. Muitos analistas consideram, porém, que os números oficiais não reflectem a realidade e são manifestante inferiores aos gastos reais. Aliás, um relatório norte-americano, elaborado em 2016 pelo Pentágono, diz que as despesas militares chinesas superam o valor oficial em dezenas de milhares de milhões de dólares.

No último fim-de-semana, a porta-voz da Assembleia Nacional Popular, Fu Ying, admitiu que os futuros gastos militares de Pequim dependerão da política dos Estados Unidos na Ásia.

A China tem adoptado uma estratégia assertiva no mar do Sul da China, incluindo a construção de ilhas artificiais capazes de receber instalações militares em arquipélagos cuja soberania é actualmente disputada por vários países vizinhos. Os Estados Unidos já acusaram a China de ameaçar a liberdade de navegação na região, uma via marítima estratégica pela qual passa um terço do petróleo negociado internacionalmente, e enviam regularmente navios e aviões militares para as proximidades das ilhas.

No entanto, Fu Ying lembrou que o poder militar chinês continua a ser modesto, face ao dos EUA, e que as preocupações com a força bélica do país são injustificadas. “A China nunca causou danos a ninguém, a nenhum país”, disse a porta-voz.

Mais duras foram as palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, que acusou os Estados Unidos de ingerência na questão do mar do Sul da China. “Se alguém tentar provocar ondas, não terá qualquer apoio e enfrentará a oposição de toda a região”, afirmou Wang Yi, sem nunca referir-se directamente aos EUA.

O ministro chinês considerou que as tensões na região diminuíram graças aos “esforços conjuntos” da China e da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e disse existirem avanços na conclusão do código de conduta que está a ser negociado desde 2010.

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