Mercado

Peso do ouro na estabilidade da moeda nacional

20/03/2017 - 12:27, featured, Finanças

Até Janeiro de 2017, o montante do ouro salvaguardado no banco central representava pelo menos 3,5% das reservas internacionais líquidas em kwanzas.

Por Fernando Baxi 

fernando.baxi@mediarumo.co.ao 

O aumento das reservas de ouro no Banco Nacional de Angola (BNA) é visto como uma das medidas estratégicas a adoptar para fortificar o kwanza na paridade com o dólar americano, moeda que forma as RIL, encerrando uma discussão entre economistas.

Com grandes reservas de ouro no banco central, a posição económica de Angola, a nível internacional, seria forte, inclusive podia obter empréstimos sem quaisquer desconfianças dos credores internacionais, num período complexo do ponto de vista macroeconómico, tendo em conta a volatilidade do preço do crude no plano internacional.

O peso da moeda sul-africana (Rand), na paridade com as principais divisas, é garantido pelas reservas do respectivo metal precioso no South African Reserve Bank (SARB), o banco central sul-africano, como defendem os apologistas da corrente acima exposta.

A maior economia africana ao sul do Saara figura da lista dos maiores produtores de ouro mundial, facto que tem contribuído na estabilidade da balança de pagamentos daquele país, chegando a rivalizar com as grandes economias do mundo ocidental.

A perspectiva dos defensores da respectiva corrente de pensamento assenta no facto de o ouro ter sido das commodities que mais se valorizou, no mercado internacional, face à queda do preço do petróleo, em consequência da crise financeira de 2008.

De 2008 a 2011, o preço do ouro no mercado mundial valorizou-se em 80%, justamente num período em que se verificou maior volatilidade na cotação do crude, commodity através da qual o Executivo arrecada o grosso das receitas fiscais. É também o garante das RIL, até Janeiro de 2017, cotadas em 20,3 mil milhões USD, segundo dados do BNA.

Há décadas, o ouro é considerado salvaguarda de valor com liquidez em qualquer mercado e época. Daí a preocupação de os bancos centrais constituírem grandes reservas, como um meio de defender as moedas locais, na paridade com o dólar.
De 1936 a 2000, o poder aquisitivo do franco suíço foi baseado numa exigência de 40% de reservas legais de ouro. Tal facto ilustra o peso que o respectivo metal precioso representou no sistema financeiro do país helvético, tido como um dos mais ricos do mundo.
Actualmente, as reservas de ouro no Banco Nacional de Angola estão calculadas em 119,1 mil milhões Kz, montante que representa 3,5% das RIL em moeda nacional (3,4 biliões Kz), segundo cálculo do Mercado, com base em dados extraídos das estatísticas do BNA, referentes a Janeiro de 2017, publicadas no siteoficial daquele organismo público.

Crença no sistema padrão-ouro

O posicionamento dos apologistas desta corrente assenta na interpretação do padrão-ouro (que vincou de 1879 a 1939), enquanto sistema monetário garante da estabilidade do valor da moeda nacional (kwanza), criando condições favoráveis para o crescimento da renda. É propalado como sinónimo de equilíbrio macroeconómico.

A certeza, tida saudosista pelos antagonistas do sistema, no sucesso é fundamentada na experiência que a economia mundial teve, sob a vigência do padrão-ouro. Na altura, registou-se um crescimento generalizado com relativa estabilidade dos preços.

Tal corrente ganha força pelo facto de o sistema actual de taxa de câmbio flutuante ou livre ser visto como um dos principais causadores da instabilidade financeira mundial.

Uma das vantagens deste sistema, segundo os apologistas, consiste na limitação dos governantes de inflacionar os preços, através da emissão excessiva do papel-moeda. Fornece taxas de câmbio internacionais fixas entre os países que o adoptam, reduzindo a incerteza no comércio internacional; o desequilíbrio de preço seria compensado.

Apologista do metal precioso

Celeste de Brito, PCA do Natrabank Angola, considera que o aumento das reservas de ouro no banco central traria um impacto positivo à economia angolana. Teria possibilidade de obter empréstimos junto das principais instituições financeiras internacionais a longo prazo e com juros baixo, comparativamente aos actuais.

Aliás, com altas reservas de ouro no BNA, a moeda nacional estaria mais valorizada, na paridade com o dólar norte-americana. Na visão de Celeste de Brito, este processo é de simples materialização, “é só extrair o ouro, depositar no banco central e depois usar como prova, diante dos credores externos, quando se tratar de empréstimos”.

A representante daquela instituição bancária considera-se atónita pela falta de iniciativa das autoridades governativas, porque esta solução é patente a olho nu. Angola sairia economicamente a ganhar, visto que, a par do Zimbabué e da República Democrática do Congo (RDC), detém reservas minerais estimada em 33 triliões USD.

O valor do ouro nos três países africanos acima citados é superior ao de França e Reino Unido juntos, que estão entre os 20 países com as maiores reservas no mundo.

Posição antagónica

Para o macroeconomista, Cristóvão Neto, é falta de raciocínio lógico associar o reforço do poder cambial do kwanza ao aumento das reservas de ouro, porque o problema da moeda nacional está associado à estrutura da própria economia;dependente das importações. A produtividade é fraca e está longe de dar resposta à procura de bens e serviços.

“As importações são asseguradas por uma commoditymuito volátil. Já vimos sinais de que o preço da mesma oscila em períodos de dez a dez anos, próprio dos ciclos económicos”, afirmou o macroeconomista ao jornal Mercado.

Em 2012, a economia nacional ressentiu-se da quebra do preço da única commodityno mercado mundial, as RIL, que antes rondavam os 34 mil milhões USD, baixaram consideravelmente, e as fraquezas económicas revelaram-se, disse o macroeconomista, que louva a estratégia implementada para estabilizar o sistema financeiro no País.

A ideia de reforçar as reservas do BNA com ouro pode resultar num dilema, fazendo jus às declarações de Cristóvão Neto, porque se desconhece um procedimento viável para o efeito. “Como será feito? Vai ser por compra, ou extracção?”, questionou.

Também considerou tal posicionamento ruinoso, porquanto causaria dependência numa segunda commodity, caso se opte pela extracção do minério em questão. “O grande problema está na limitada produtividade da economia. Também é por esta razão que o actual regime monetário está ancorado no sistema cambial.”
Com o aumento da produção interna, haverá pouca pressão na aquisição de cambiais, bem como sobre a política cambial.

Este facto irá também influenciar o crescimento das RIL, disse o macroeconomista, que, apesar de discordar do sistema padrão-ouro, considera necessária a constituição de reservas em metais preciosos e títulos.

Na perspectiva do economista Samuel Candundo, hoje as reservas líquidas ou das disponibilidades sobre o estrangeiro (DLX) dos países podem ser mantidas em várias moedas e parte em ouro. A seu ver, até é estratégico que assim seja, mas é incorrecto pensar-se que um único país pode unilateralmente adoptar um padrão e implementar.

A actual situação cambial deriva do carácter extrovertido da economia angolana por ser exportadora de uma matéria-prima e da falta de cumprimento das normas internacionais nas operações internacionais. O sistema financeiro nacional deve empenhar-se em adequar as exigências do GAFI e recuperar o estatuto de equivalência perdida com o BCE.

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