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Sylvain Itté: “A situação está complicada, mas acreditamos em Angola”

30/01/2017 - 09:03, featured, Finanças

O embaixador de França em Angola faz um balanço da cooperação entre os dois países e lança as forças motrizes sobre como poderão ajudar Angola na nova era de relações políticas e económicas, envoltas em fortes expectativas.

Por Aylton Melo | Fotografia Njoi Fontes 

Está há quatro meses no País, como tem sido a adaptação à realidade angolana?

Sinceramente, não tenho problema de adaptação, tenho uma história particular com a língua portuguesa, principalmente porque Já fui duas vezes cônsul-geral adjunto e depois cônsul-geral em São Paulo. Sinto-me no Brasil aqui.

Que semelhanças e diferenças identificou entre São Paulo e Luanda?

O cheiro cultural positivo e a música são semelhantes. A gentileza das pessoas mais modestas é a mesma. De uma certa maneira, é muito semelhante com o Brasil. Acho a cidade de Luanda muito agradável. Eu vim com a minha família, esposa e duas das três crianças que tenho. Naturalmente tem coisas positivas e negativas, como todo o lugar do mundo.

Por que razão escolheu Angola?

Na verdade, de todos os países que tinha possibilidades, tinha duas opções: Mali, porque era interessante do ponto de vista político, e, em segundo lugar, Angola. Entretanto, o presidente François Hollande decidiu mandar-me para cá, por causa da língua e do meu conhecimento da cultura.
É curioso que fala do Mali, afinal Bamako é a terra natal do sr. embaixador, cidade que muito recentemente acolheu a 27.ª edição da Cimeira África-França, onde se discutiram questões ligadas à segurança e ao desenvolvimento em África.

Esteve atento às principais conclusões desta cimeira?

Estas são as principais preocupações, mas não se tratou apenas de segurança e luta contra o terrorismo em África, também da Europa. Não existirá segurança na Europa se não existir em África. Quando o presidente Hollande decidiu fazer uma intervenção militar no Mali em 2013, nessa época, eu estava em Paris, era director de gabinete do ministro dos franceses no exterior.

Eu era responsável pela segurança de todas comunidades francesas no mundo. Estive directamente envolvido nesta tomada de decisão por parte do presidente. Hoje, eu acho que ninguém põe em causa a legitimidade desta intervenção tomada a pedido do governo do Mali e com o acordo das Nações Unidas.
Principalmente os malianos, porque sabem que, se a França não interviesse, os fundamentalistas jiadistas estariam em Bamako 48 horas depois, e a estabilidade de toda a África Sariana estaria comprometida. Esta intervenção tinha o propósito de proteger a liberdade e a prosperidade de África, como também os interesses europeus e franceses.

Tal como em 2013, Hollande reafirmou o apoio de França ao desenvolvimento económico de África, mas quais são os resultados concretos deste apoio, no que diz respeito a Angola?

Tem de saber que cada euro dado pela União Europeia, através do FED, 19% vem de França. O 11.º FED representa centenas de milhões euros em África e representa hoje mais de 1000 milhões EUR designados para Angola em 30 anos.

Apesar de não ter a bandeira francesa, devemos explicar que França é o primeiro ou segundo contribuidor de toda a União Europeia, para fortalecer a cooperação com o continente africano. Isto é uma realidade concreta. Em segundo lugar, através do Fundo da OMS, Angola vai receber ainda neste ano 70 milhões USD, 26% financiados pela França, sendo o segundo contribuidor, depois dos EUA, do fundo mundial da luta contra a sida, a febre-amarela e o paludismo. Desse ponto de vista, é preciso reconhecer que França é um dos países que mais apoiam a luta contra a sida.

Nos últimos dez anos, Angola recebeu a visita de dois presidentes, Nicolas Sarkozy em 2008, e François Hollande em 2015, visitas que relançaram as relações entre os dois países.Na sua opinião, quais foram os principais avanços, resultantes destas visitas?

Depois da frente fria que afectou as relações entre Angola e França no passado, a visita do presidente Sarkozy em 2008 foi o primeiro passo político para dizer a Angola que essas relações deviam passar para outra etapa. O segundo passo foi a visita do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, em 2013, que veio a Angola dizer que era necessário construir uma relação forte entre os dois países do ponto de vista político e económico. Permitiu ainda a visita do presidente José Eduardo dos Santos a França em 2014, uma visita que estabeleceu o primeiro contacto entre os dois chefes de Estado, que por sua vez permitiu a Angola apresentar ao mundo económico e ao mercado francês a realidade do potencial deste país. Em 2015, foi a visita de Hollande aqui. São muitas visitas a alto nível, não são muitos países que têm relações tão fortes.

A Agência Francesa de Desenvolvimento já teve um papel mais activo em Angola, mas nos últimos tempos tem estado a passar ao lado. Qual é a razão?

A AFD está a regressar a Angola, colocamos à disposição uma força financeira importante, em parceria com o Banco Mundial, na base de um empréstimo. De um pacote de 500 milhões USD, a AFD vai tomar 150 milhões USD para financiar projectos de construção de agências regionais de água, estruturar essas agências e permitir o desenvolvimento da rede de distribuição de água. Há também outro projecto de financiamento privado de uma empresa que está a finalizar a negociação para a construção de duas centrais energéticas, uma hidroeléctrica e outra de energia solar, no valor de 40 a 50 milhões USD. A par dos desenvolvimentos que disse, a AFD, através de duas ferramentas, concede empréstimos e financia os países mais pobres e frágeis do mundo. Hoje, ajuda o desenvolvimento, principalmente de África. A nossa principal zona de intervenção representa no mundo 0,7% do PIB de França. Mas eu não falei também do BAD (Banco Africano de Desenvolvimento), que tem uma parte dos seus recursos provenientes de França.

Não acha que a França poderia fazer mais?

Poderíamos, sim, fazer mais. Mas não significa que seja nada. Num período complicado para a União Europeia, para França, que vive uma situação de crise económica, acho que França tem uma parte importante do seu contributo. Espero agora, com a visita do ministro das Relações Exteriores, que possamos firmar um acordo. A AFD está disposta a continuar a financiar projectos em Angola, com o objectivo de ser um parceiro financeiro para Angola, que julgo serem as áreas mais importantes para o desenvolvimento deste país, nomeadamente, em infra-estruturas, agricultura, agro-alimentar e energia.

No âmbito destes financiamentos, será que as empreitadas serão adjudicadas a empreiteiros franceses, ou nacionais?

A França funciona de maneira diferente dos outros países. As empresas francesas podem competir, mas não têm a obrigação de passar. A AFD é uma agência pública que financia projectos públicos. Geralmente são as empresas locais que executam as empreitadas, sejam elas nacionais ou estrangeiras.

Existiam, até 2015, 70 empresas francesas e cerca de 2500 cidadãos franceses a trabalhar em Angola, que números existem actualmente?

Os números não diminuíram. Na realidade são cerca de 70 empresas, incluindo filiais de outras com sede em França. Há pelo menos 30 empresas de direito angolano, mas que resultam de iniciativas de franceses. O sector petrolífero representa a maioria das empresas francesas que trabalham aqui. Temos outras que ficaram, apesar da crise e de diferentes situações complicadas, como falta de pagamentos e não podendo repatriar capital.

Como é que essas empresas estão a lidar com o problema da escassez de divisas?

Todos os dias, eu recebo os donos de empresas que têm problemas de divisas. Empresas que pagam em USD alguns dos seus produtos, mas não conseguem importar, porque recebem em kwanzas e não podem exportar Kz. Mas as empresas francesas decidiram ficar e acreditar no desenvolvimento do País, porque todos os responsáveis dessas empresas que ouvi, seja aqui, seja em França, disseram-me a mesma coisa: “A situação está complicada, mas acreditamos em Angola, porque esperamos que a situação mude e que o crescimento económico permita o desenvolvimento da nossa actividade.” Conheço muitas empresas que estão a observar e dispostas a investir aqui, mas esperam, porque a situação das divisas e a ausência de garantias de recuperação desse investimento assim não o permitem.

Qual é o volume actual do investimento de França em Angola, desde o início da cooperação entre os dois países?

França é o terceiro país que mais investe em Angola, depois de China e EUA, até agora já investiu no total 30 mil milhões USD. E serão investidos mais 17 mil milhões USD. França está entre os 5 maiores destinos das exportações de Angola.

A actual crise financeira afectou em que medida as trocas comerciais entre os dois países?

Se considerarmos a situação actual do País, podemos dizer que as trocas comerciais estão a estabilizar-se, depois de uma diminuição drástica de 50% das exportações para Angola, devido à política do Governo angolano de diminuir as importações. Mas as importações de França são praticamente as mesmas, baixaram ligeiramente, por efeito da queda do preço do petróleo.

E o que França mais exporta para Angola?

Uma parte das exportações francesas eram produtos derivados do petróleo.

Mudando de assunto, haverá intenções de bancos comerciais franceses operarem em Angola?

Até agora não há nenhum banco francês instalado em Angola.

O problema dos bancos franceses, como todos os bancos europeus, está directamente ligado à legislação bancária angolana e ao seu posicionamento em relação às regras internacionais para o sector.

Estará relacionado com a orientação que o Banco Central Europeu (BCE) deu aos bancos portugueses para reduzir a sua exposição ao mercado angolano?

Eu sei que o governador do BNA esteve na Inglaterra e Itália, agora vai visitar França e depois estará a visitar o Banco Central Europeu, é sem dúvida um assunto fundamental entre Angola e os europeus, não só a França, porque na realidade é um sector que está directamente ligado a regulamentação ditada pelo BCE. Não há nenhum banco francês, mas também não há nenhum banco europeu privado. O Deutsche Bank, por exemplo, foi embora.

Há perspectivas de uma cooperação entre o BNA e o banco central de França, no que diz respeito a parcerias em termos de formação, ou tecnológica ou noutros domínios?

Até agora não existe nenhuma cooperação particular nestes domínios. O governador do banco central de Angola deverá visitar França em Fevereiro para encontros com responsáveis do sector bancário. Será um momento oportuno para ver se haverá possibilidades para futuras cooperações técnicas com o Banco de França.

A Air France tem actualmente três voos semanais entre Luanda e Paris. Quando é que a TAAG vai aterrar em solo francês?

Já negociamos um acordo aéreo entre França e Angola que esperamos poder firmar com a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, e que porá sobre a mesa de maneira definitiva as regras de intercâmbio aéreo entre ambos os países e que permite a Air France pousar os seus aviões três vezes por semana.

Agora, há possibilidades de os aviões da TAAG pousarem em Paris, não há impedimentos em absoluto, acho que os motivos estão mais relacionados com questões económicas, será viável para a TAAG aumentar o número de voos a Paris?

Será uma negociação entre as direcções da aviação civil dos dois países e a companhia, para saber se é possível. Deixe-me dizer-lhe que a Air France tem encontrado muitas dificuldades para encher os seus aviões, três vezes por semana.

Aliás, a Air France chegou mesmo a anunciar no ano passado a redução da frequência de voos semanais, por que razão recuou a decisão?

Air France estava a pensar reduzir pelos motivos que acabo de apresentar. Redução de passageiros e problemas ligados ao financiamento dos custos. Mas acaba de encontrar uma solução. Após várias consultas, a Air France decidiu manter as três frequências, na expectativa de que a situação vai melhorar. Para tentar rentabilizar mais a linha, por uma ou duas vezes por semana, o voo faz escala em Kinshasa. Paris-Luanda, Luanda-Kinshasa-Paris. Por isso, este ano não vai diminuir a frequência de voos a Luanda. Veremos depois como a situação do País poderá evoluir daqui a um ano. Porque a Air France e as outras companhias não poderão continuar se houver mais reduções de passageiros. Nos últimos tempos, França é acusada de pressionar a Inglaterra para acelerar a saída da UE, como forma de retaliação.

Qual é a sua opinião sobre o Brexit?

Eu sempre considerei que a Grã-Bretanha tinha um discurso claro sobre a sua visão da Europa e da integração europeia. A Grã-Bretanha nunca quis uma integração política, diplomática e militar da Europa, foi sempre uma posição permanente e constante. E quanto à questão de a França ser mais dura do que os outros, deve-se saber que França, juntamente com a Alemanha, é um dos seis fundadores da União Europeia. Então temos legitimidade para colocar sobre a mesa as regras e os fundamentos que serviram de alicerce para a construção dos 60 anos, desde o acordo de Roma da Comunidade Europeia, em Março de 1957. Os britânicos decidiram de maneira democrática e livre sair da União Europeia. França quer só relembrar a todos quais são as regras e a filosofia política que levou os países fundadores a esta aventura. Os europeus esqueceram que a construção europeia foi fundada pela vontade dos dois países de pararem com a lógica de destruição, mas de construção de um continente de paz e prosperidade. Hoje, a Europa é a primeira potência económica do mundo; é um dos espaços do mundo onde as regras de democracia e liberdade são respeitadas. E, por isso, a Grã-Bretanha não pode ter um pé dentro e outro fora. Mas de qualquer maneira a Grã-Bretanha é um parceiro fundamental de França e da Europa.

Mas o Brexit está a influenciar alguns movimentos minoritários em Portugal, por exemplo, e até mesmo em França, a favor da saída. Isto não coloca a nu as fragilidades da União?

Países como Espanha, Portugal e Grécia, que tinham antes da adesão sistemas autoritários ditatoriais, quiseram entrar na Europa porque queriam ter acesso a espaços de liberdade. Hoje, a questão fundamental que se coloca é se devemos continuar com o projecto? É, em primeiro lugar, um projecto político.
As posições do presidente Trump poderão permitir e ajudar os europeus a tomar consciência de que hoje temos de passar para outra etapa da construção europeia e que a Europa não é só um mercado livre, é bem mais do que isso.

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