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2017: O ano da recessão geopolítica

09/01/2017 - 12:52, Global Report

A ascensão de Trump iniciará o maior período de volatilidade política global desde a II Guerra Mundial.

Por Paulo Narigão Reis 

O Eurasia Group, maior empresa mundial de análise de risco político, publicou as suas previsões para 2017, enunciando os 10 maiores riscos que a ordem global vai enfrentar este ano.

Seis anos depois de preverem a chegada do G-Zero, o mundo sem um líder global, os analistas do Eurasia Group proclamam 2017 como o ano da recessão geopolítica, encerrando um período de Pax Americana que durou 70 anos, no que a consultora vê como o ano de maior volatilidade política desde a II Guerra Mundial. E, naturalmente, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos está à cabeça dos riscos globais.

América independente

Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos com a ideia “America First”, e será essa a filosofia que se pode esperar do novo ocupante da Casa Branca. Para Trump, significa independência da responsabilidade dos EUA de assumir um papel indispensável na geopolítica global, nomeadamente em instituições como a NATO.

O Eurasia Group rejeita a noção de isolacionismo, preferindo o termo unilateralismo: o poder conferido pelo estatuto de maior potência mundial será colocado ao serviço dos interesses norte-americanos, seja militar ou economicamente. A política dos EUA deixará de basear-se nos valores comuns, substituídos pelos interesses económicos, mesmo que isso signifique colocar em segundo plano ou mesmo rejeitar tratados como a NATO, o Acordo Climático de Paris ou a política de Uma China, com todos os perigos que isso pode trazer para a ordem e estabilidade globais.

China reage

A agendada transição de liderança que ocorrerá este ano em Pequim irá marcar a trajectória política e económica da China durante uma década ou mais. A escala da mudança nas elites antes, durante e depois do 19.º congresso do Partido Comunista Chinês, combinada com o ambiente político divisionista encorajado pelo presidente Xi Jinping, fará, de acordo com o Eurasia Group, que a transição seja a mais complexa desde o início da era de reformas da China. Economicamente, apesar do crescimento sustentado da última década, os desequilíbrios não param de aumentar, enquanto politicamente o medo e a frustração entre a elite partidária e económica estão ao mais alto nível desde os tempos de Mao Tse Tung.

Internacionalmente, a mudança de política dos EUA quanto a Taiwan ou ao mar da China Meridional será um teste à estabilidade global.

Merkel mais fraca

O ano carregará uma mão-cheia de riscos políticos para a Europa, desde o Brexit às eleições presidenciais de França, onde a extrema-direita de Marine Le Pen poderá chegar ao poder. No meio do turbilhão estará Angela Merkel, cuja liderança nunca esteve em causa desde o início da crise da Zona Euro. A chanceler da Alemanha enfrentou, em 2016, uma série de desafios que enfraqueceram a sua liderança: a falta de apoio interno à sua política de refugiados, o terrorismo e várias crises empresariais que minaram a confiança na solidez germânica, da Volkswagen ao Deutsche Bank. Embora pareça, nesta altura, improvável que Merkel não consiga o seu quarto mandato à frente do governo da maior economia da Europa, terá de lidar, internamente, com o crescimento do populismo. Externamente, a influência geopolítica de Berlim perde um importante aliado com a saída de Barack Obama e a entrada de Donald Trump. Nunca a Europa precisou tanto de uma Angela Merkel forte, considera o Eurasia Group. Em 2017, ela estará indisponível para assumir o papel.
Outros riscos

Entre os riscos enunciados pelo Eurasia Group, destaque ainda para o previsível conflito que acontecerá entre a Casa Branca e Silicon Valley. Trump privilegia a segurança nacional, Silicon Valley, a liberdade e a privacidade. Trump quer empregos, Silicon Valley caminha para a automação.

No centro de um turbilhão capaz de causar turbulência a nível global está a Turquia, onde o autoritarismo crescente de Recip Erdogan condiciona não só a política interna como dificulta ainda mais a estabilidade na zona (Síria, Iraque) e o acordo com a Europa quanto à limitação da entrada de refugiados.

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