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A história de sucesso do Brasil acabou em recessão

24/09/2015 - 14:18, América Latina, Global Report

A queda acentuada no preço das matérias-primas, a dependência da China e a corrupção deixaram a economia brasileira de rastos.

Por Paulo Narigão Reis | Fotografia Bloomberg

As histórias de sucesso não acabam sempre bem. Há cinco anos, o Brasil era visto como um exemplo económico para o planeta. A taxa de crescimento anual era três vezes superior à dos Estados Unidos, e o tamanho da sua economia suplantava a do Reino Unido. Milhões de brasileiros saíram da pobreza, não só graças ao crescimento do PIB – alimentado pelas exportações, com a China como grande cliente – como também a uma série de programas sociais implementados pelo governo de Lula da Silva. O antigo presidente, agora definitivamente arrastado para o escândalo de corrupção que assola Brasília, gozava de uma taxa de aprovação acima dos 80%.
A grande estrela das economias emergentes deixou de brilhar. O Brasil está, oficialmente, em recessão. A economia contraiu 1,9% nos segundos três meses de 2015, o segundo trimestre consecutivo a decrescer. Em comparação com o segundo trimestre de 2014, a queda é ainda mais acentuada: 2,6%, a maior contracção desde há muito tempo. Para complicar ainda mais a situação, o escândalo de corrupção que assola a política brasileira deixou Dilma Rousseff com uma taxa de aprovação de 8%, a mais baixa de um presidente brasileiro desde 1992, quando Fernando Collor de Mello se demitiu em pleno processo de impeachment.
Nos últimos meses, as ruas das cidades brasileiras têm sido palco de muitas manifestações a exigir a demissão de Rousseff, cujo PT (Partido dos Trabalhadores) está directamente ligado a acusações de subornos e lavagem de dinheiro que começaram na Petrobras e que ainda não se sabe onde acabam. Estima-se que a petrolífera estatal tenha perdido 2 mil milhões USD só em subornos a políticos de vários partidos, com o PT à frente.
O ambiente económico ressentiu-se naturalmente: no segundo trimestre de 2015, o investimento decresceu 12% em relação ao período homólogo de 2014.

A culpa é das commodities
O retumbante crescimento económico está naturalmente ligado ao boom mundial da procura de matérias-primas. As commodities são o motor da economia do Brasil, nação que produz e exporta petróleo, minério de ferro, sementes de soja, açúcar, café e milho.
A queda recente nos preços das matérias-primas, a que poucas escaparam, deixou de rastos a economia brasileira, a segunda maior do hemisfério ocidental a seguir aos Estados Unidos. A Bovespa, a bolsa de valores brasileira, caiu 20% num ano.
O facto de o grande cliente do Brasil ser a China teve também os seus custos. A China vale 17% das exportações brasileiras, e o abrandamento no crescimento chinês, já para não falar da desvalorização do yuan e da instabilidade no mercado de capitais, deixam o Brasil em maus lençóis.
Mas há uma consequência da crise brasileira que, a médio prazo, pode ser parte da solução. Só este ano, o real já desvalorizou 25% em relação ao dólar, o que favorece as exportações, que aumentaram 7% em relação a 2014. Mas, antes de voltar a crescer e a ocupar um lugar entre as economias emergentes, o Brasil tem de arrumar a casa politicamente.

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