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BAII: dinheiro chinês quer desafiar o Banco Mundial

06/09/2016 - 16:04, Asia, Global Report

Criado há dois meses, o Banco Asiático de Investimento em Infra-Estruturas (BAII) promete desafiar e tornar-se num rival e concorrente à altura do Banco Mundial. A primeira instituição financeira internacional proposta pela China pretende revolucionar os requisitos e exigências para conceder financiamento.

Por Tiago Figueiredo Silva

A 29 de Junho de 2014 foi dado o primeiro passo para a criação do Banco Asiático de Investimento em Infra-Estruturas (BAII), com um acordo assinado por mais de 50 países, com sede em Pequim e a funcionar ainda este ano com um capital de 100 mil milhões USD, 30% dos quais da China.

Das grandes economias mundiais, só EUA e Japão ficaram de fora. Mas o BAII quer ser mais do que uma mera instituição financeira internacional. Quer marcar uma posição, desafiar e rivalizar com o Banco Mundial. Como? Reescrevendo as regras de concessão de crédito. Com requisitos e exigências diferentes e, sobretudo, mais “leves” do que as do Banco mundial, o BAII promete tornar-se numa verdadeira torneira de dinheiro.

É certo que para ter acesso ao dinheiro fresco do BAII, os projectos precisam de ser total e legalmente transparentes, protegendo os interesses sociais e ambientais. No entanto, segundo quatro fontes citadas pela agência Reuters, quem recorrer a este financiamento não terá de privatizar ou desregulamentar empresas para ter direito aos empréstimos.

Ao não insistir nas políticas económicas de mercado livre recomendadas pelo Banco Mundial, o BAII não só evitará as críticas feitas aos seus rivais – que segundo algumas fontes impõem exigências irracionais para conceder empréstimos – como ajudará Pequim a deixar a sua marca num banco que muitos consideram um projecto económico mas também político, além de reflectir o cepticismo da China quanto às virtudes das políticas de mercado livre defendidas pelo Ocidente. “A privatização não será uma condicionante para a concessão de empréstimos, assim como a desregulamentação também não será”, afirmou uma fonte próxima do BAII.

Citada pela Reuters, a mesma fonte acrescentou que “o BAII irá seguir as condições locais de cada país. Não irá impor ou forçar a fazer o que quer que seja”. Ao desligar-se do foco do mercado livre, o BAII terá maior liberdade para gerir projectos, afirmou um banqueiro à agência.

A título de exemplo, as instituições que financiam uma fábrica de tratamento de água tendem a exigir que o preço da água tratada seja elevado para recuperar os custos, mesmo que as condições locais não permitam preços altos. No caso do BAII, poderão ser evitados os aumentos de preços e compensados com outras fontes de financiamento, como subsídios estatais, para recuperar custos. Mas as diferenças com os rivais não ficam por aqui. O Banco Asiático pretende ter uma análise interna e um sistema de avaliação de riscos mais simples do que os dos rivais de forma a reduzir os custos e a burocracia, segundo as fontes citadas pela Reuters. As mesmas salientam que o BAII não irá levar meses a aprovar projectos de forma a permitir que os interessados façam due diligence, uma prática que acontece em outras instituições financeiras internacionais.

A somar a isto, para minimizar custos, o BAII terá poucos escritórios e contará com 500 a 600 trabalhadores, cerca de um sexto do tamanho do Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD) e 5% do Banco Mundial. Ao distanciar-se do Banco Mundial, o BAII poderá revelar-se num triunfo diplomático para a China, que se opõe à ordem financeira mundial e que defende ser dominada pelos Estados Unidos com uma sub-representação de outras nações desenvolvidas.

As críticas à concessão de empréstimos por instituições financeiras internacionais de desenvolvimento não são novas, considera Susan Engel, professora na universidade australiana de Wollongong e, que estudou o impacto no Banco Mundial das ideias de mercado livre.
“É uma religião, este compromisso de envolvimento do sector privado em sectores onde, de facto, o seu envolvimento é demonstrado como provocando danos”, diz Susan à Reuters.

De acordo com duas fontes citadas pela agência, durante a sua fase de arranque o BAII irá concentrar-se em manter o seu rating, o que implicará uma aproximação mais cautelosa aos projectos. Isto significa que irá, inicialmente, funcionar como um banco de investimento, financiando projectos comerciais rentáveis e exequíveis, trabalhar em parcerias público-privadas e cobrar taxas de juro que, provavelmente, deverão ser mais altas do que as praticadas pelos seus rivais.

África poderá ser um dos alvos de financiamento até porque, diz fonte da Reuters, já vários países fizeram lobby com essa intenção. Para atingir o objectivo de começar a funcionar ainda este ano, o BAII contratou antigos banqueiros do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento e está a trabalhar no seu ‘manual de instruções’ com base nos dois rivais.
* Dinheiro Vivo

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