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Brexit força saída de banqueiros de Londres e traz “perdas enormes” à City

26/06/2017 - 10:43, Global Report

Mais de um quarto das empresas britânicas de serviços financeiros vão sair. A City arrisca-se a perder mais de 230 mil dos seus banqueiros

Por Bárbara Silva

O processo de saída do Reino Unido da União Europeia – o denominado brexit – provocará “perdas enormes” na City londrina, o coração financeiro da capital britânica. O cenário é avançado por David Sayers, responsável pela área internacional de fiscalidade do grupo Mazars no Reino Unido, que esteve em Portugal para falar sobre o tema “Reino Unido pós-brexit: isolamento esplêndido ou cisão continental”.

As piores projecções já avançadas – entre as quais se conta o aviso deixado no Parlamento britânico pelo CEO da Bolsa de Londres, Xavier Rolet – dão conta de uma redução drástica que poderá ascender a uma perda de 232 mil postos de trabalho na City, na sequência do brexit.

Ainda nesta semana o banco japonês Nomura foi dado como estando de saída da capital britânica. Terá escolhido a cidade alemã de Frankfurt como a nova base das suas operações na Europa para o cenário pós-brexit, estando prevista a transferência de cerca de cem trabalhadores. Nos últimos tempos, Frankfurt (sede do Banco Central Europeu) tem surgido como uma das opções favoritas para as instituições financeiras internacionais que procuram uma alternativa a Londres.
Também o Goldman Sachs e o Morgan Stanley estão à procura de escritórios na cidade alemã. “A maior preocupação é que já estamos a ver empresas a saírem de Londres para outras geografias europeias. O JP Morgan Chase comprou um edifício em Dublin e vai mudar para lá mil pessoas. Só isto já é uma afirmação muito poderosa, num momento em que ainda não se sabe como será o futuro.

O Lloyds of London criou um novo escritório em Bruxelas, com cem pessoas. As empresas têm receio e começam a sair. Ainda que a City não vá ficar completamente deserta, as grandes empresas estão a fazer planos para acautelar o seu futuro, quando faltam ainda dois anos para a saída do Reino Unido. É um sinal”, disse David Sayers numa entrevista exclusiva ao DN/Dinheiro Vivo.

Um dos maiores riscos do processo, sublinha, prende-se com o fim do passaporte financeiro europeu para as empresas a operar no mercado britânico. Até agora, com uma licença passada no Reino Unido as instituições financeiras podem operar em todo o espaço europeu, o que cai por terra com o brexit, obrigando as empresas sediadas em Londres a registar-se em todos os países (um a um) em que queiram operar.

A alternativa, diz David Sayers, é “uma solução de equivalência, mas é um processo complicado e intrincado”. “Se olharmos para a economia britânica, 80% diz respeito a serviços financeiros – bancos, seguradoras, fundos de investimento. No caso de Londres, com a City, isso é ainda mais evidente.” Na opinião deste especialista em matérias fiscais, que se assume claramente como anti-brexit, o melhor cenário tanto para o Reino Unido como para Bruxelas será um soft brexit, mantendo o acesso ao mercado único europeu. Essa foi precisamente a mensagem deixada pelos britânicos nas últimas eleições de 8 de Junho, das quais a primeira-ministra Theresa May (favorável a um hard brexit) saiu enfraquecida depois de ter perdido a maioria no Parlamento britânico para o seu Partido Conservador.

“Neste momento estamos numa situação frágil para negociar com a União Europeia”, garante Sayers, que defende como ideal para a futura relação Londres-Bruxelas “um modelo híbrido” que inclua um pouco de cada um dos diferentes acordos comerciais que a UE mantém com países terceiros, entre eles o bloco EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça), a Turquia e o Canadá. “O modelo canadiano é o melhor que conseguiremos se sairmos, mas será bom o suficiente?”, questiona. Por seu lado, sublinha o especialista da Mazars, a “Comissão Europeia já deixou claro que não é possível o Reino Unido ter acesso ao mercado comum sem um livre acesso de pessoas, é um princípio fundamental”.

Para David Sayers, “a Comissão deve ter cuidado para não abrir precedentes. Se o Reino Unido conseguir um bom acordo, outros países vão querer sair também. Esse é o maior problema. Por isso, Bruxelas vai fazer a vida difícil ao Reino Unido, mas ambos os lados têm interesse num bom resultado negocial”, prevê o britânico, rematando: “Podemos ter sido um império no passado, mas hoje precisamos da Europa. Não queremos que seja um mau divórcio, mas sim uma separação amigável.”

Dinheiro Vivo 

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