Mercado

China quer ser o grande motor da globalização

19/05/2017 - 14:28, Global Report

Plano chinês de financiamento de infra-estruturas prevê gastar 1 bilião USD em três continentes.

Por Paulo Narigão Reis 

“Devemos construir uma plataforma aberta de cooperação e manter e desenvolver uma economia mundial aberta.” Foi assim que Xi Jinping anunciou, com pompa e circunstância, o ambicioso plano de financiamento de infra-estruturas em três continentes, a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. A nova Rota da Seda, como já é conhecida, pretende colocar a China na vanguarda da globalização, numa altura em que os Estados Unidos se viram para si próprios, deixando o caminho aberto para um novo e poderoso protagonista.

O presidente chinês anunciou que a China vai acrescentar 100 mil milhões de yuan (14,5 mil milhões USD) aos 900 mil milhões USD contemplados para o fundo da Rota da Seda, que valerá assim 1 bilião USD, destinado a financiar projectos de estruturas.

A isto se juntam mais 8,7 mil milhões USD para ajudar, nos próximos três anos, os países em vias de desenvolvimento e as organizações internacionais que venham a participar na iniciativa. Para completar o ambicioso plano, dois bancos chineses vão conceder empréstimos especiais até 380 mil milhões de yuan (55 mil milhões USD).

O que a China pretende com o plano, lançado oficialmente em Setembro de 2013, é reviver, numa versão moderna, a Rota da Seda, ao mesmo tempo que alarga a sua influência geopolítica, tornando-se na potência dominante da região, e abre e cria novos mercados para os produtos e tecnologias chineses numa altura de abrandamento económico.

“A antiga Rota da Seda floresceu em tempos de paz, mas perdeu o seu vigor em tempos de guerra. A iniciativa das novas rotas da seda requer um ambiente pacífico e estável”, afirmou Xi Jinping perante vários líderes mundiais, incluindo o seu congénere russo, Vladimir Putin, realçando que os “benefícios serão partilhados por todos”. Dos países que formam o G7, apenas a Itália enviou o líder do governo, o primeiro-ministro Paolo Gentiloni. O Reino Unido, que nos últimos anos reforçou os seus laços comerciais com a China, fez-se representar pelo ministro das Finanças, Philip Hammond.
“O isolamento leva ao atraso. A abertura é como a luta de uma borboleta para sair do seu casulo. Esta é acompanhada pelo sofrimento, mas essa dor cria uma nova vida”, disse o líder chinês, para quem o mundo deve unir-se como “um bando de gansos que consegue voar longe e em segurança através de ventos e tempestades porque se mexem em conjunto e ajudam-se uns aos outros como uma equipa”.

Novo modelo

“Esperamos alcançar um novo modelo de cooperação win-win, ou seja, em que todos têm a ganhar”, disse Xi no seu discurso de 45 minutos, em que recordou que os comerciantes chineses, europeus e asiáticos encarnavam o “espírito da Humanidade”, através de uma rota que “trouxe prosperidade a estas regiões e originou um grandioso património da civilização humana”. Às críticas de que a China quer apenas alargar a sua influência global, principalmente na Ásia e em África, o presidente chinês ofereceu uma garantia: “Não temos intenção de interferir nos assuntos de outros países, de exportar o nosso sistema social ou de impor a nossa vontade, mas, sim, complementar as estratégias de desenvolvimento dos países envolvidos ao potenciar as vantagens comparativas.”
A nova Rota da Seda foi recebida, no entanto, com alguma desconfiança, nomeadamente pelas instituições tradicionalmente alinhadas com o Ocidente e com os Estados Unidos, como o FMI ou o Banco Mundial. Para garantir o êxito do plano, “o investimento estimado precisará de ser grande”, afirmou o presidente do BM, Jim Yong Kim, para quem será necessário criar mecanismos de apoio dependendo do grau de desenvolvimento que tenham os países nos quais será feito o investimento, além de mecanismos financeiros “inovadores”.

Ainda assim, Kim deu a sua bênção à iniciativa, considerando-a como “um ambicioso esforço e sem precedentes para iluminar a Ásia”.
“Cumprir com esta promessa não vai ser tarefa fácil, mas se for levada a cabo, e bem realizada, pode trazer enormes benefícios”, afirmou, por sua vez, a directora-geral do FMI,

Christine Lagarde, defendendo o investimento em estruturas de grande qualidade, que respeitem o meio ambiente e que melhorem as ligações de países agora mais isolados com as cadeias de abastecimento globais.

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