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Criação de emprego lidera intenção dos angolanos até 2020

01/10/2015 - 14:13, Africa, Global Report

O jornal Mercado publica com exclusividade um estudo da Forbes Insight, em parceria com a Djembe Communications, sobre empreendedorismo e criação de emprego na África Subsariana, e conclui que a educação e a indústria vão garantir maior número de postos de trabalho nos próximos cinco anos.

Por António Pedro | Fotografia Walter Fernandes

A Forbes Insight e a Djembe Communications lançam hoje, em Luanda, num encontro de alto nível, o estudo “Criação de Emprego na África Subsariana: Empreendedores. Governos. Inovação” após concluir que metade da população possui idade inferior a 25 anos, mas está desempregada, num continente considerado, demograficamente, mais jovem.
A taxa de desemprego é muito mais em termos absolutos do que noutras partes do mundo, e a criação de emprego para a geração jovem é sem dúvida o tema mais premente para o futuro, de acordo com 48% das respostas obtidas num inquérito feito a mais de quatro mil angolanos, ganeses, moçambicanos e nigerianos.
Por esta razão, o estudo em causa aborda, sobre os principais resultados na região subsariana de cada país, focos e recomendações, em função de respostas obtidas junto de empreendedores inquiridos nos quatro países seleccionados.
A nível da África Subsariana, entre os temas prioritários para o futuro, constam a criação de emprego para a geração mais jovem (48%), erradicação da corrupção (40%), crescimento económico (30%), saúde e saneamento (30%) e estabilidade política e paz (24%).
De acordo com o inquérito da Forbes/Djembe, os empreendedores são vistos como uma fonte de criação de emprego, com a maioria dos inquiridos (59%) a denotar que a sua expectativa mais alta está nos empreendedores dos seus países.
Um dos temas do estudo tem que ver como podem os empreendedores ajudar a economia de seus países a desenvolver-se. Nas respostas obtidas, um grupo de 2360 inquiridos, segundo cálculos deste jornal, representa 59% do total, entende que é através da criação/oferta de empregos, enquanto outros manifestam posições diferentes, como aumentar a importância da inovação/criatividade (39%), introduzir produtos/serviços inovadores (38%), tornar-se uma máquina de crescimento económico (38%) e introduzir novos estilos de gestão/trabalho (35%).
A importância da capacidade dos empreendedores para contribuir, de forma proactiva, para o crescimento da economia nacional, no caso de cada um dos países em análise, não pode ser sobrestimada, adverte a Forbes/Djembe, uma vez que os respectivos países conquistaram e adquiriram a independência dos colonizadores há apenas poucas décadas, e viveram conflitos pós-independência que deixaram suas estruturas política e economicamente insustentáveis durante anos.

Angola: principais resultados
Entre os países da África Subsariana que fizeram parte do inquérito da Forbes Insights/Djembe Communications, Angola destaca-se por ter de longe o maior número de respostas a referir a educação como o factor essencial para a criação de emprego jovem.
Com a criação de emprego a ser o tema mais importante para o futuro do País, segundo respostas de 44% dos inquiridos, a educação lidera a lista dos principais impulsionadores de criação de emprego jovem até 2020, com 48% de aceitação, enquanto a indústria irá criar também a maior parte do emprego jovem nos próximos cinco anos (40%).
Segundo o amplo estudo, que apoia também o lançamento inaugural da Djembe Insights, a nova funcionalidade de pesquisa em consultoria da Djembe Communications, entre os quatro mil inquiridos, nos quatro países, Angola apresenta a maior percentagem de pessoas (49%) que dizem preferir trabalhar para uma organização a iniciar o próprio negócio, mas que é superada por 51% que dizem o contrário.
Quanto ao foco em Angola, para gerar empregos em época de paz, entre os inquiridos consta a empreendedora Tchiloia Lara, que encarna de muitas maneiras as décadas de conflito armado e a possibilidade de um futuro melhor. Ela nasceu na década de 80 e durante muito tempo só conheceu a guerra.
“Foi só quando a paz foi declarada que fomos capazes de sonhar com um contributo para a nossa sociedade. Pensámos que não havia limites”, disse ela, citada pelo estudo.
Lara e dois parceiros, também da década de 80, fundaram a Geração 80, uma empresa de produção de vídeo, cujo nome encarna a experiência da vida após a independência, uma vez que considera ela que a sua geração faz parte do surgimento da nova Angola.
Agora que Angola está a entrar na sua segunda década de paz, Lara já compreende melhor os desafios que fazem face à sua empresa e ao seu país, e começa a ver que há limites, mas “é necessário haver uma melhor planificação e mais investimento nas infra-estruturas básicas para que possamos ser bem-sucedidos”, diz.
O estudo diz que no centro do futuro de Angola está a criação de emprego para as gerações jovens. O desemprego atingiu uma média de 27% desde 2007, e a indispensável indústria petrolífera emprega apenas 1% de trabalhadores nacionais, segundo o African Economic Outlook 2014 sobre Angola, do Fundo Monetário Internacional. Oprincipal motivo é o facto de o País depender do petróleo, que representa 40% da produção económica e 70% das receitas do Governo.
Entre os temas prioritários para o futuro, só para Angola, analisados pela Forbes/Djembe, a criação de emprego para a geração mais jovem representa 44%, seguindo-se a saúde e saneamento (38%), erradicação da corrupção (36%), construção de uma sociedade democrática (27%) e crescimento económico (25%).

O poder da educação
Entre Gana, Nigéria e Moçambique, que fizeram também parte do inquérito da Forbes Insights/Djembe Communications, Angola destaca-se por ter de longe o maior número de respostas que citam a educação como sendo crucial para a criação de emprego jovem.
A educação lidera a lista dos principais condutores de criação de emprego jovem nos próximos cinco anos, até 2020, e é vista também como o sector que mais irá criar empregos para os jovens e a maior parte dos empreendedores no período em referência.
A principal contribuição para o empreendedorismo passa por fornecer competências que poderão levar à criação de negócios de valor acrescentado ou providenciar empregados altamente qualificados aos empreendedores.
Apesar de Angola estar a reconstruir as infra-estruturas de educação, desde a cessação do conflito, ainda há uma falta de professores formados em todo o País, as infra-estruturas das escolas estão subdesenvolvidas, e em muitas das regiões a educação não é uma prioridade para os pais.
“As fraquezas no sector da educação mostram que é necessário começar do início, pela qualidade para a educação primária, ao mesmo tempo que se desenvolve o ensino técnico profissional e se aumenta a credibilidade da educação superior”, disse Luís Leitão, director executivo da Forbes Angola.
Um sinal positivo é que Angola observou ao longo de poucos anos a abertura de muitos colégios internacionais, escolas e universidades com cursos e oficinas de trabalho, em todo o País, incluindo o Colégio Angolano de Talatona, que tem uma parceria com a Universidade de Cambridge, segundo Leitão.
Erika Acosta, gestora em Angola na Djembe Communications, nota que “nos últimos anos o estado da educação em Angola assistiu a algumas melhorias como resultado da colaboração do sector público e privado e da adopção de iniciativas como Educação para Todos”.
A gestora diz também que os angolanos estão a reconhecer o valor da educação e a perceber como os avanços no conhecimento, e nas competências técnicas, os tornarão mais competitivos no mercado de trabalho.

Mão-de-obra qualificada
Pelo facto de o número de pessoas formadas e competentes ser muito inferior ao necessário, muitas empresas a operar em Angola dependem de expatriados, embora, diz o estudo, ter um grande nível de empresas estrangeiras e expatriados seja uma fase natural no desenvolvimento económico.
As empresas trazem o seu know-how e, com efeito, ajudam a fixar as infra-estruturas das indústrias modernas em áreas como a extracção de recursos naturais, bancos ou telecomunicações. É também comum, no início desse processo, os expatriados ocuparem cargos de chefia e posições de decisão, “mas espera-se que, com o passar do tempo, os nacionais possam assumir estas funções”, augura o estudo.
Em Angola, devido à falta de competências, são exactamente as posições de gestão e de nível médio em muitas indústrias que acabam muitas vezes por ser ocupadas por estrangeiros.
No sector dos recursos naturais, há necessidade de empregar pessoas que saibam trabalhar em minas, soldar, pôr uma sonda a funcionar, analisar os produtos, cortar amostra de minérios e operar máquinas inerentes ao processo, assim como também são necessárias pessoas que saibam fazer gestão de negócios de alto nível e que ocupem posições de gestão e direcção, actualmente nas mãos de expatriados, de acordo com Jeannine Scott, presidente da Câmara de Comércio EUA-Angola.
Os resultados do estudo apontam que, pelo facto de os angolanos terem défice elevado no conhecimento tecnológico, o País se tornou num lugar de destino de mão-de-obra estrangeira, principalmente nos sectores do petróleo, do gás e financeiro.
“Os angolanos estão a começar a perceber que, se conseguissem adquirir as competências certas, poderiam ter empregos tão bem pagos como os estrangeiros”, disse Leitão, da Forbes Angola.
A falta de competências da população local é o principal obstáculo para os empreendedores nacionais, diz a empreendedora Lara, da Geração 80, uma das inquiridas no estudo.
Diz que “é muito difícil criar projectos locais, desde a concepção à distribuição, e manter o padrão de qualidade elevado, que nos permitirá competir com produções internacionais”.
Incapazes de encontrar competências e conhecimento no País, os empreendedores angolanos solicitaram muitas vezes à Câmara de Comércio EUA-Angola para os ajudar a procurar parceiros com capacidade, contou Scott.
Afirma que, entre os projectos que acompanhou, manteve a preocupação de ajudar os fruticultores angolanos que solicitaram apoio com tecnologias de conservação e de expedição, fazendeiros que queriam aprender com a experiência agrícola do Texas (EUA) e empreendedores que precisavam de parceiros tecnológicos para constituição de uma empresa de limpeza de tanques de petróleo.
Os recursos naturais são o sector tido como principal condutor para a criação de emprego, visto que é gerido, principalmente, por empresas internacionais gigantes, onde se inclui o sector do petróleo e do gás, porque oferece oportunidades em negócios secundários à volta da indústria de recursos naturais, para as empresas angolanas.
De forma directa, o sector do petróleo e do gás, propriamente dito, emprega 1% da força de trabalho nacional, mas proporciona negócios secundários onde se inclui o catering, imobiliária, retalho, aluguer automóvel e restauração. A título de exemplo, um dos membros da Câmara de Comércio EUA-Angola é gestor de uma escola de mergulho que treina mergulhadores para servir plataformas petrolíferas subaquáticas.
A agricultura tem estado entre os principais condutores de crescimento, depois de o crescimento de Angola ter abrandado para 4,5% em 2014 devido à queda dos preços de petróleo. O estudo refere que a agricultura deveria ser uma prioridade para o Governo e para o sector privado, visto que, com um solo altamente qualificado e um bom fornecimento de água, o potencial é enorme.
Presentemente, a agricultura conta apenas para 11% do PIB e 70% do total de emprego, e Angola não é auto-suficiente em muitos dos grupos básicos em alimentação.

Empreendedorismo e o Governo
A condução do empreendedorismo perante o papel do Governo demonstra que os angolanos se destacam, entre as populações da África Subsariana inquiridas pela Forbes Insights, à medida que preferem iniciar o seu próprio negócio a trabalhar por conta de terceiros, aliás, totalizam 51% dos inquiridos.
Enquanto, em Angola, 51% dos inquiridos gostariam de iniciar a sua própria empresa, noutros países da África Subsariana que integram o estudo, o interesse atinge 80% de inquiridos.
À semelhança da população jovem de Gana, Nigéria e Moçambique, os angolanos perspectivam também ver o Governo a criar a maioria de empregos nos próximos cinco anos.
O estudo “Criação de Emprego na África Subsariana: Empreendedores. Governos. Inovação” refere que os jovens angolanos desejam trabalhar para grandes organizações, porque, nos últimos cinco anos, viram muitos trabalhadores estrangeiros especializados a conseguir empregos em grandes empresas e a entrar, de forma célere, em segmentos da economia que os colocaram estáveis do ponto de vista financeiro.
As expectativas elevadas para governos como geradores de emprego são típicas em economias em desenvolvimento, onde as pessoas se acomodaram muitas vezes aos sistemas económicos em que os governos desempenham um papel paternalista, diz o estudo.
“Os cargos públicos tendem também a ser mais seguros e mais fáceis para se fazer carreira”, espelha o estudo, no entanto, apesar das esperanças dos angolanos, o Governo pode não estar na posição de gastar mais dinheiro criando mais trabalho, pois vai impulsionar uma reestruturação do sector público.
A aposta pelo empreendedorismo em Angola apresenta-se como desafio inerente às barreiras do mercado, de uma forma geral, diz o estudo, pois continuam a existir obstáculos significativos e a sociedade angolana coloca grandes expectativas nos empreendedores para a criação de emprego.
Mas “a boa notícia é que há mais jovens angolanos que vêem os empreendedores de um modo mais positivo que negativo”, atesta o estudo.
A empresa de Lara, Geração 80, é uma das produtoras de vídeos no País para corporações e também projectos artísticos, e um dos desafios é a capacidade de sobrevivência no negócio e, ainda assim, inspirar pessoas com a sua arte.
Mas, no dia-a-dia da gestão empreendedora, surgem impedimentos devido à falta de promotores de conteúdo local e de redes de distribuição. Lara gostaria de ver também a legislação nacional a obrigar os canais de televisão a comprarem conteúdos de produtoras independentes, como é o caso da sua empresa.
Além dos problemas específicos desta indústria, a Geração 80 tem de lutar com os mesmos desafios que todos os outros empresários em Angola. Para além dos grandes problemas, como os atrasos com a burocracia, lacunas de talentos e falta de acesso ao capital.
Segundo Lara, uma das inquiridas no estudo e cujo exemplo é muito mencionado, gostava de ver uma melhoria em quantidade e qualidade dos serviços de apoio às pequenas empresas, tais como gestão em tecnologias de informação, finanças, comunicação, marketing e capacidades de gestão.
“Quando ainda há tanto por fazer, não há necessidade de nos sentirmos desencorajados”, afirma Lara, pois, “quando há dificuldades, também há oportunidades”.

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