Mercado

Crise económica acentuou interferência política nos bancos da zona euro

08/06/2017 - 16:54, Global Report

O aumento do número de instituições financeiras que passaram para mãos públicas está directamente relacionado com má prestação das economias europeias.

Por Bárbara Silva

Na visão de Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças de Portugal, a grande percentagem de bancos europeus que estão em mãos públicas ou que sofrem de interferências políticas é um cenário que se justifica pelo facto de as instituições financeiras na zona euro terem sofrido as graves consequências dos últimos ciclos económicos. E dá como exemplo a portuguesa Caixa Geral de Depósitos (CGD), onde “a excessiva intervenção política deu para o torto”. “Não há banca saudável sem economia saudável.

A economia da zona euro, embora com situações diferentes de país para país, tem tido uma fase de crescimento muito lento, e quando há uma fase de estagnação económica e recessão, isso reflecte-se nos bancos.”

Com falhas claras do mercado e do Estado, “em muitos países o poder político ainda tem uma influência directa ou indirecta da alocação do crédito na economia”, diz o economista, sublinhando: “Há poucos bancos, em qualquer país, seja banco público, privado, cooperativa ou mutualista, que resistam a uma crise económica e financeira durante 8 anos, por fraqueza de capitais próprios em consequência da regulação no passado.”

O ex-ministro mostra-se agora preocupado que, em consequência da crise, se passe do 8 para o 80: “De uma supervisão negligente dos reguladores, vejo com grande apreensão a passagem a um sistema intrusivo, burocrático e que terá influência na apetência à gestão do risco das instituições financeiras.”

Admitindo que “o Estado não deve nunca ser a principal influência” nos bancos, Catroga sublinha, tal como o estudo do Bruegel, que, “em alguns países, por razões históricas, verifica-se uma maior interferência política no sector bancário”. Aqui, Mariana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, destaca o exemplo da Alemanha, país-chave da zona euro, onde “a banca pública é um dos principais factores que explicam o crescimento industrial do país”. Diz a economista que “também o pós-crise aumentou a percentagem da banca nas mãos do Estado, como forma de resolver os problemas”. Sobre a falta de transparência das instituições financeiras europeias, evidenciada pelo estudo do think tankBruegel, Mortágua defende que “a banca em geral não é transparente, seja na forma como faz os seus negócios, como esconde a sua realidade financeira, e como exerce a sua influência no poder político”. De Portugal, diz a deputada, fica o exemplo de como a promiscuidade entre os interesses políticos e financeiros não é exclusiva dos bancos públicos. “Basta ver o BCP ou o BES, bancos privados que foram instrumentalizados e que instrumentalizaram o Estado.” Sobre a CGD, admite que houve momentos em que o banco “foi mal utilizado por governos para servir interesses particulares”.

A solução passa agora, segundo Eduardo Catroga, por deixar de gerir a CGD “ao sabor das conjunturas políticas e dos governos que estão ao comando do país”. “Só o futuro dirá se o poder político será capaz de criar novas condições de autonomia de gestão”, prevê o antigo ministro.

*Dinheiro Vivo

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