Mercado

Depois da recessão vem a austeridade

01/10/2015 - 14:30, América Latina, Global Report

Pacote fiscal elimina 10 ministérios, adia contratações e aumentos salariais e cria um novo imposto.

Fotografia Bloomberg

As más notícias tornaram-se no pão nosso de cada dia no Brasil. Depois da contracção da economia em dois trimestres seguidos e consequente estado de recessão, depois de ver o rating cortado e no meio de um mega caso de corrupção que chegou ao PT, o partido do governo, os brasileiros enfrentam agora a austeridade. Na semana passada, o governo de Dilma Rousseff anunciou um plano de austeridade com cortes profundos na despesa e aumento de impostos para tentar cobrir o défice.
O plano consiste em adiar os aumentos salariais e as contratações no sector público, eliminar 10 dos actuais 39 ministérios, cortar mil empregos nas empresas públicas e a criação de um novo imposto sobre as transacções financeiras. Haverá ainda cortes nos programas sociais de saúde e habitação, um dos grandes ex-líbris do Partido dos Trabalhadores desde o tempo de Lula da Silva e que tirou 40 milhões de pessoas da pobreza. O objectivo é travar o actual défice primário de 0,5% do PIB e alcançar, em 2016, um superavit de 0,7%, o que implica poupar 17 mil milhões USD a mais que os previstos inicialmente.
As reacções ao pacote fiscal do governo mostram a presidente Dilma encurralada entre críticas ao aumento de impostos, vindas de sectores à direita do espectro político, e ataques aos cortes na despesa, por representantes da esquerda. Embora os ataques venham dos dois lados, o mercado só vê uma saída para o governo: perseverar no ajustamento. E, para isso, a presidente que se reelegeu com discurso antiausteridade tem de mudar. A reacção ao pacote fiscal foi a esperada. Empresários criticaram o novo imposto, e a oposição promete lutar contra o aumento de impostos. O senador Lindbergh Farias, que desde o início foi contra a austeridade, lembrou que os cortes na despesa ameaçam justamente os grupos mais à esquerda, que mais têm defendido o mandato da presidente.

Dilma acossada
Numa altura em que as manobras pelo impeachment parecem querer sair da sombra, Dilma parece encurralada. Sem saída à esquerda, precisa urgentemente de recuperar a confiança dos mercados. Com o défice a crescer e o país em risco de sofrer novo rebaixamento do rating, o único remédio possível é o do ajustamento fiscal.
“Dilma vai ter de ser menos Dilma e mais pragmática”, diz Lucas de Aragão, sócio da consultora Arko Advice, de Brasília. Será fundamental definir mais claramente a linha de acção do governo. Joaquim Levy, que perdeu várias disputas internas nos últimos meses, terá de ganhar força total na economia. Ao mesmo tempo, o vice Michel Temer terá de recuperar a coordenação política.
Para Aragão, no que diz respeito a Levy, já há provas de que o ministro ganhou força, sobretudo após o susto com o downgrade do Brasil pela S&P. Os sinais de enfraquecimento de Levy, visto pelos grandes bancos e empresários como uma espécie de avalista do governo, teriam pesado na decisão da agência. “A Dilma sabe que seria muito mau para o Brasil ser rebaixado por mais uma agência.”
Aragão não vê a oposição da esquerda aos cortes na despesa como ameaça potencial a Dilma. Os movimentos sociais sabem que é melhor ter Dilma, de esquerda, no poder do que alguém mais à direita, o que seria o mais provável em caso de impeachment. A oposição de sectores do Congresso ao aumento de impostos mostra que dificilmente o pacote passará na totalidade. Porém, será possível o governo aprovar parcialmente o pacote de ajustamento, desde que melhore a coordenação política.
A presidente precisa de uma “nova narrativa”, diz o consultor. Um novo discurso, que incorpore a reconquista da estabilidade económica, seria fundamental para ganhar a credibilidade necessária para reequilibrar a economia. A narrativa construída pelo publicitário João Santana, que abusou do discurso antimercado contra Marina Silva e Aécio Neves, ajudou Dilma a reeleger-se. Mas não tem valor na hora de governar.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.