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Entre Obama e Putin está Bashar al-Assad

15/10/2015 - 13:59, EUA & Canada, Global Report

Obama e Putin dão sentido à asserção que a política é a arte do possível, se conseguirem ultrapassar a enorme impossibilidade que é manter Bashar al-Assad no poder.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Bloomberg

Obama e Putin: a separá-los está Bashar al-Assad, a uni-los está o Daesh. Entre uma questão e outra, um longo caminho para a diplomacia internacional, Irão incluído, e muito.
A primeira reunião, em dois anos, de Barack Obama e Vladimir Putin foi para discutir o conflito na Síria e a evidente questão: Bashar al-Assad deve ficar, ou sair do poder? Sobre o assunto… a opinião dos dois presidentes diverge. Concordaram que a saída para o sangrento conflito que dura há quatro anos tem de ser diplomática, e não militar. Os dias que se seguiram à reunião do presidente dos EUA com o presidente da Rússia, em Nova Iorque, só confirmaram que este é um conceito batido. A câmara alta do parlamento russo aprovou por unanimidade a possibilidade de o exército intervir militarmente na Síria (estima-se que em breve estarão no terreno uns 2 mil soldados russos acompanhados por uma parafernália militar que inclui dezenas de caças, tanques e sistemas antiaéreos de ponta). Opedido foi feito por Bashar al-Assad, o hiper controverso presidente da Síria, e o Kremlin fez questão de sublinhar que a intervenção russa na Síria não será muito diferente do que foi feito há um ano por uma coligação internacional liderada pelos EUA.
As amplas violações dos direitos humanos tornam intolerável qualquer regresso ao status quo anterior à guerra, isto é, Assad não pode permanecer no poder. No limite, os americanos poderiam concordar que Assad ficasse num período de transição. “O realismo exige uma transição planeada de Assad para um novo líder”, disse o presidente Obama. David Cameron concorda com o presidente dos EUA e sublinha que um período de transição é isso mesmo… transição. Opresidente francês, François Hollande, pede que Assad se afaste do poder.
Putin defende Assad, e fê-lo mais uma vez no seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, argumentando que é “um enorme erro” não cooperar com o governante sírio e com as suas forças militares na luta contra o Estado Islâmico. O Irão, que sustenta militarmente o regime de Assad desde sempre, concorda naturalmente com Putin, daí que Obama tenha apelado também a Teerão. Entretanto, para que as suas motivações fiquem claras, Putin declarou: “Tenho o maior respeito pelos presidentes dos Estados Unidos e da França, mas eles não são cidadãos da Síria, não se deveriam envolver na escolha da liderança do país” (presumimos que não há ironia nesta declaração).
Aliás, Putin foi muito crítico da política da Casa Branca para o Médio Oriente. Mas numa coisa os dois presidentes estão inequivocamente de acordo: na crítica profunda e severa à “ameaça apocalíptica” que é o Daesh (o Estado Islâmico). Há ainda uma outra evidência: para resolver os conflitos no Médio Oriente, a colaboração de Putin é mais do que indispensável, por tudo, e por aquilo que um analista considerou “a surpreendente exibição de equipamento bélico russo” na Síria – o que agora se acentua.
Enquanto isto, a crise dos refugiados na Europa sobrepõe-se à questão da Ucrânia, e Putin também joga com isso. Obama não a ignora, mas estará disposto a neutralizar as sanções económicas à Rússia para conseguir o apoio de Putin para terminar com a crise na Síria. E essa é a outra jogada de Putin: depois do isolamento internacional devido ao conflito na Ucrânia, que tanto lamentou não lamentando, o presidente russo surge agora como mediador inevitável para o conflito sírio.
Para terminar, vale a pena dizer que a ambivalência de Obama (no que tem sido muito criticado pelos analistas mais conservadores) deu espaço a Putin, bem como a ineficácia da União Europeia a braços com a inquietante crise da zona euro.
Ao que parece, “acordai!” deixou de ser um sussurro para passar a ser um grito, e os contactos diplomáticos intensificam-se. Os militares no terreno também, e com isso o risco de um confronto dos EUA com a Rússia no espaço aéreo lotado da Síria, que já levou à criação do termo deconflict (evitar conflitos), que traduz a possibilidade real, e alarmante, de se atingirem mutuamente caso não definam com clareza as posições e alvos. Enquanto o pior não acontece, os EUA criticam Moscovo por realizar operações militares “indiscriminadas” contra a oposição síria. O Irão continua a apoiar a intervenção da Rússia.
No final da semana, em Paris, numa conferência de paz sobre o conflito na Ucrânia, a França, Turquia, Alemanha, Catar, Arábia Saudita e Grã-Bretanha pedem contenção à Rússia na Síria. Oalvo é o Daesh e não a oposição ao governo de Damasco, acrescentam. Mas, e tal como se suspeitava, um diplomata ocidental na capital da síria considera que a intervenção russa é uma oportunidade para Assad.
A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, já fez mais de 250 mil mortos, 4 milhões de refugiados e 6 milhões de deslocados internos; e cerca de 30 mil combatentes de 100 países em todo o mundo aderiram à Jiade.

O maior desastre humanitário e económico dos últimos 25 anos
Aquela que já foi uma das economias mais promissoras na região transformou-se no maior desastre humanitário e económico dos últimos 25 anos, escreve a Bloomberg. E que isso afecta a economia global é uma evidência. Após este conflito, a Síria, com ou sem Assad, será outro país.
E o conflito pulveriza-se ao Médio Oriente. O que agora são salpicos de sangue e desespero de milhões de refugiados pode tornar-se num conflito regional de gravidade máxima.
O Médio Oriente é responsável por um terço do output mundial de petróleo. A Síria não é um grande exportador – não está entre os 30 maiores produtores mundiais, o que está realmente em causa são as repercussões que o conflito pode ter no resto do Médio Oriente. E ainda o facto de pelo território sírio passar um dos oleodutos mais importantes da região, o Kirkuk-Ceyha – o maior escoador de petróleo do Iraque (o sétimo maior produtor mundial).
Na segunda Guerra do Golfo, em 2003, o oleoduto que ligava o Iraque ao Mediterrâneo, na Turquia e através da Síria, foi bombardeado e nunca mais ficou activo. Logo, quando se olha para o conflito na Síria, não se olha só para o perigo potencial que é o Daesh ou para a duvidosa legitimidade do governo autocrático de Assad.
Os analistas consideram que a actual situação tem muitas semelhanças com o cenário vivido e sentido em 2003, em vésperas da invasão do Iraque, a diferença é que nessa altura os preços do petróleo subiam porque a economia global ia razoavelmente bem. Hoje… não.

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