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“God bless America”, o final do discurso histórico do papa

09/10/2015 - 13:56, EUA & Canada, Global Report

“O papa não veio dizer quem os americanos deviam ser, veio dizer quem os americanos já são, quando estão no seu melhor.”

Por Ana Maria Simões | Fotografia  Bloomberg

Não começamos com as palavras do papa ou do presidente Obama, mas com um comentário da CNN que sintetiza o que o argentino Jorge Bergoglio, feito líder dos católicos pelos homens e por Deus, disse, num discurso histórico, no congresso dos Estados Unidos da América – foi a primeira vez um papa falou na casa da democracia norte- americana sob o mote fundador “in God we trust”. E disse: “Uma nação pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas ‘sonhar’ com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho incansável, fruto de uma fé que se torna diálogo, e semeia a paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.” (Dois pecadores aos olhos da Igreja: Dorothy Day foi uma activista que se converteu ao catolicismo, sabe-se que abortou, o que não é  irrelevante nesta referência, e Thomas Merton, monge, activista,  estudioso das religiões, autor de A Montanha dos Sete Patamares, com uma vida privada  controversa.)
No Congresso, os aplausos nem sempre foram unânimes, umas vezes aplaudiram mais os democratas, noutras os republicanos reagiram com maior entusiasmo, no final o papa saiu do debaixo de uma ovação de pé .
Quando o papa chegou a Washington, Obama destacou o papel de Francisco a favor dos mais pobres e oprimidos, exaltou-lhe a humildade, simplicidade e gentileza e acrescentou: “É exemplo vivo dos ensinamentos de Jesus, um líder cuja moral e autoridade não se limita somente a palavras, mas a actos.” Vamos às palavras de Francisco ao congresso norte-americano. Começou por falar aos legisladores: “A actividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas. Para isso fostes convidados, chamados e convocados por aqueles que vos elegeram.” De economia e finança, dizendo o óbvio tantas vezes ignorado: “Se a política deve estar verdadeiramente ao serviço da pessoa humana, segue-se que não pode estar submetida à economia e às finanças.” E ainda: “Uma grande parte deste esforço situa-se na criação e distribuição de riqueza. A utilização correcta dos recursos naturais, a aplicação apropriada da tecnologia e a capacidade de orientar devidamente o espírito empresarial são elementos essenciais duma economia que procura ser moderna, inclusiva e sustentável.” Do fundamentalismo: “O nosso mundo torna-se cada vez mais um lugar de conflitos violentos, ódios e atrocidade brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião. Sabemos que nenhuma religião está imune de formas de engano individual ou de extremismo ideológico. É necessário um delicado equilíbrio para se combater a violência perpetrada em nome duma religião, duma ideologia ou dum sistema económico, enquanto, ao mesmo tempo, se salvaguarda a liberdade religiosa, a liberdade intelectual e as liberdades individuais.” Seguiu-se um tema sensível, especialmente para os americanos, a venda de armas: “Aqui devemos interrogar-nos: Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente, a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Dos índios, migrantes e refugiados: O nosso mundo está a enfrentar uma crise de refugiados de tais proporções, que não se via desde os tempos da II Guerra Mundial. Também neste continente, milhares de pessoas se sentem impelidas a viajar para o Norte à procura de melhores oportunidades. Não devemos deixar-nos assustar pelo seu número, mas antes olhá-las como pessoas”. E prossegue citando o Evangelho segundo São Mateus: “Lembremo-nos da regra de ouro: ‘Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhe também vós.’” Francisco fez ainda a defesa da vida, contra a pena de morte: “Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a sustentar a vários níveis a abolição global da pena de morte.” Da família, um tema particularmente caro ao papa: “É meu desejo que, durante toda a minha visita, a família seja um tema recorrente. Como foi essencial a família na construção deste país! E como merece ainda o nosso apoio e encorajamento! E todavia não posso esconder a minha preocupação pela família, que está ameaçada, talvez como nunca antes, de dentro e de fora.” E, por fim, dos jovens, a quem “faltam possibilidades para o futuro”.

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