Mercado

Grande expectativa em Nova Iorque, Wall Street dá a outra face

01/10/2015 - 11:55, EUA & Canada, Global Report

O líder de 1,2 mil milhões de católicos visita Nova Iorque, a cidade do capital, com os homens de Wall Street a sublinharem que é também a cidade da filantropia.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Corbis/VMI

Ninguém tem dúvida de que o papa Francisco vai ter um acolhimento apoteótico na visita que faz aos Estados Unidos, apesar de abordar questões francamente controversas, como as desigualdades geradas pelo capitalismo ou as alterações climáticas. Temas que têm suscitado discussões pouco canónicas entre os católicos democratas e republicanos.
Mas, antes de  visitar os  Estados Unidos, o papa  vai a  Cuba. Ainda em Roma, o papa evocou o Espírito Santo, a Virgem da Caridade do Cobre e a Imaculada Conceição –  entidades espirituais de referência em Cuba e nos Estados Unidos – para o acompanharem na sua viagem. A espiritualidade na consagração de uma reaproximação histórica que confirmou o Vaticano como peça fundamental na diplomacia global.
No momento em que escrevemos o texto, o papa Francisco ainda não iniciou viagem. Quando ler este texto, o papa Francisco já passou por Cuba e está  a  chegar aos Estados Unidos, onde se vai encontrar, em Washington, com o presidente Barack Obama (que o virá buscar ao avião). Em Nova Iorque, fará um importante discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas; atravessará o Central Park e estará presente no Memorial and Museum do World Trade Center; e visitará uma escola católica no Harlem. Em Filadélfia, participará no Encontro Mundial das Famílias. E terá, naturalmente, nas três cidades, um intenso contacto com a população, em especial com os sem-abrigo, deixados para trás por um modelo económico que merece as maiores críticas do papa – o capitalismo. Tantas, que houve quem considerasse o papa Francisco antiamericano, logo ele, que é oriundo da América do Sul, em concreto, e como sabemos, da Argentina.
A mais recente sondagem Gallup dá um decréscimo da popularidade do papa – passou de 76%, em 2014, para 59%, nos dias de hoje. Uma impopularidade muito impulsionada pelos políticos conservadores, onde só 45% são favoráveis ao papa Francisco. Há ainda outro dado relevante, os Estados Unidos têm perdido muitos católicos. Antecipa-se, por isso,  que o sumo pontífice terá em atenção uma audiência mais sensível, mas também é notório que este papa não tem papas na língua, esteja onde estiver. Antecipa-se, também, que não deixará de se referir à especulação financeira que levou à crise económica, quer nos Estados Unidos, quer na Europa. Falará do terrorismo e da responsabilidade dos Estados para assegurarem a paz no mundo, e não o contrário. Falará, naturalmente, da tragédia migratória que perturba seriamente a Europa e da política de imigração dos Estados Unidos. E, neste contexto, a canonização do franciscano de origem espanhola Junípero Serra não deixará de ser significativa para além do acto em si.
Na cidade da filantropia
Na sua visita a Nova Iorque, o crítico do capitalismo será levado a olhar para as virtudes de Wall Street, é pelo menos no que acreditam os homens da alta finança norte-americana que ‘investem’, anualmente, milhões de dólares em acções de filantropia.
Apesar da crítica do papa Francisco à desigualdade económica e à primazia do lucro, os financeiros de Wall Street vêem com a maior expectativa e com cordial acolhimento a visita pontifícia.
“O papa deixou bem claro que tem uma afinidade especial com os oprimidos e com os menos afortunados”, disse Ken Langone, o investidor multimilionário que ajudou a fundar a Home Depot e doou 200 milhões USD à Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque. “Nova Iorque, para mim, é uma cidade bem-sucedida que, mais do que qualquer outra, expressa filantropia, retribuição e cuidado aos outros. Acho que ele perceberá isso.”
Quando o papa Francisco conduzir as orações sob o tecto restaurado da Catedral de São Patrício, no dia 24, Langone estará presente, e com ele o CEO do Bank of America, Brian Moynihan, e o CEO da First Data, Frank Bisignano. Eles que contribuíram com 175 milhões USD para a reconstrução da igreja.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.