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Norton Rapesta – “Angola pode produzir produtos brasileiros e exportar para o continente”

24/09/2015 - 15:27, América Latina, Global Report

O novo embaixador do Brasil em Angola fala das primeiras impressões que retém desde que chegou ao País e defende a criação de uma linha marítima directa para reduzir os custos e facilitar o comércio bilateral.

Por Aylton Melo | Fotografia Walter Fernandes

O embaixador está a viver pela primeira vez no País, há cerca de três meses. Quais foram as primeiras impressões?
Eu estive em Angola pela primeira vez em 2010 por 12 horas. Quando você passa por aqui por 12 horas, a imagem não é boa. Mas, se chega e é bem recebido, sabendo que vai ficar mais tempo, é tudo diferente. Luanda é como uma cidade entre Rio e Salvador, nas coisas boas e más. O engarrafamento, por exemplo, não me impressiona, nem a poeira. Mas o que mais impressiona é a quantidade de lixo. Isso é fonte de dinheiro, dinheiro deitado fora.
Em muitas regiões do Brasil, São Paulo, você tem isso também, talvez não em tão grande dimensão, porque a educação começou mais cedo. A importância de não deitar lixo para o chão e a criação de uma demanda para o lixo, através de cooperativas de colheita de papel, cartão e garrafas plásticas. Isso gera renda para as pessoas. Aqui, eu acho que as pessoas ainda não se deram conta disso, tem de começar em casa. Portanto, eu acho que isso tem de ser uma educação longa, uma conscientização, que precisa de ser feita, não só pelo futuro mas também pelo ambiente, porque isso pode gerar riqueza.

A fixação de uma medida coerciva ou fomentar mais a reciclagem não seriam soluções eficazes?
Não adianta multar essa gente.  Tem de se fazer trabalhos de conscientização. Assim como acontece no Brasil quando tem chuvas e enchentes, as pessoas vão reclamar que o governo não faz nada. Mas são essas mesmas pessoas que jogam lixo e entopem as fossas. Reciclar o lixo é muito bonito, mas isso devia ser acessório do acessório, da sobra da sobra, e não a medida principal.
Não estou fazendo uma crítica aAngola, não estou dizendo “olha como isto é ruim”, estou a fazer uma comparação com o Brasil, dizendo “olha como nós precisamos aprender muito juntos”, e isso para dizer que podemos fazer coisas juntos, nós temos uma série de tecnologias, uma série de programas de saneamento de execução, de informação, de conscientização, temos a questão das cooperativas, estes exemplos poderão ser usados aqui, tem a facilidade da língua, a facilidade cultural, facilidade de tudo.

E pela positiva, o que o impressionou mais?

A recepção, o acolhimento, é como chegar no Brasil.

Passaram–se cinco anos, desde a primeira visita, embora tivesse sido por 12 horas e por aquilo que tomou conhecimento, consegue descrever algumas mudanças significativas no País?
Devo dizer que, desde 2010 até agora, Luanda é um contraste, o trânsito continua, as ruas melhoraram muito. Nota-se grandes diferenças, nas construções, nos prédios. Mas digamos que isso é uma maquilhagem.

Como está a ser esta adaptação à realidade angolana?
Uma das coisas mais difíceis para mim é comprar um carro, fui a vários concessionários, não têm carros. O carro que eu quero deve demorar cinco meses. Quando cheguei à Finlândia, o carro demorou dois meses. Se eu vendesse carros cá, nesta época de vacas magras, procuraria saber quem são todos os diplomatas que estão para chegar, antes de chegar eu já iria oferecer um carro. Crise ésinónimo de oportunidade, tem de ser. Em época de vacas magras, as pessoas não podem viver de engordas. Aqui era assim, e você pergunta como é que se chega a um preço inflacionado. Épreciso regatear preços, seja aqui, seja no Brasil, que é igualzinho. Eu estou aver o Brasil cá dentro.

Além de Luanda, que noção tem da realidade noutras províncias?
Eu tenho o projecto de visitar as 18 províncias de Angola, e vou cumprir, mas só estive no Cuando Cubango até então. Visitei a feira de Menongue, passei o dia lá e achei uma cidade simpática, com um belo aeroporto. Nada luxuoso, mas uma coisa que vai atender esta capital por muito tempo. Vi os projectos com empresas brasileiras que já estão lá, ao nível do florestamento, de marcação de fazendas e outros projectos. Háuma grande diferença entre aquilo que está escrito em papel eo que está a ser concretizado. Quando você chega aqui e conversa com aspessoas, asensação é outra.
Depois da província do Cuando Cubango, a próxima será a província de Malanje, por causa dos projectos Biocom e Capanda.

Em relação à Biocom, foianunciado recentemente oinício da produção de açúcar, para a presente campanha agrícola, um produto queoBrasil exporta muito paraAngola. Não o preocupa aeventual redução da importação neste mercado?
Não. Há muita demanda de açúcar no mercado mundial. A quantidade exportada para Angola é residual. Os benefícios de ter empresas brasileiras a produzir aqui são muito mais importantes para o Brasil, porque ambos os países saem a ganhar.

Recentemente, disse que o intercâmbio comercial entre Angola e Brasil atingiu os 2 mil milhões USD. Mas o superavit destas trocas favorece mais o Brasil. O que pode ser feito para tornar esta relação mais equilibrada?
O nosso objectivo é que este superavit seja de forma alternada. Ou seja, nuns anos mais favorável para Angola, e noutros mais para o Brasil. Desde que eu cheguei, digo que Angola pode ser um local para produzir produtos brasileiros paraexportar para outros países de África. Foi firmado um acordo de protecção de fundos de investimentos para estimular empresas brasileiras a investir fora do Brasil. Estas podem trazer bens e capital para cá, produzir aqui com uma mão-de-obra local, com insumos dentro do possível locais, e daí exportar.

Que sectores seriam priorizados?
Bom, o que for possível. Os que houver interesse no mercado interno. Os sectores ainda não estão definidos. Entretanto, aí entram os empresários, que vão fazer o seu papel. O Governo cria condições e as facilidades para queisso ocorra, mas são os empresários que vão fazer a sua pesquisa, estudar e ver os sectores e os contactos com parceiros para poderem identificar as áreas de interesse. Os governos não definem, não mandam investir neste ou naquele sector.

O Brasil tem uma vasta experiência na indústria agro-alimentar, não seria um sector a ter em vista para ajudar Angola neste campo?
Angola tem o dobro do tamanho daFrança e tem uma área agrícola fantástica, que estava fechada por causa da guerra. Aqui tudo o que se planta dá. Já tem gente produzindo até uvas, algo que era proibido na época colonial. Aqui dá para plantar algodão, soja, variadas espécies defrutas. Chega de importar dePortugal ou da África do Sul. Temos o exemplo da Biocom, quemostra que é possível fazer.

Disse ainda que não está preocupado com a balança comercial, porque existem outras questões mais importantes por tratar, as questões logísticas, a linha directa detransporte marítimo entre Angola e Brasil. Concretamente, quais são os desafios a este nível?
O comércio que se faz por navio eavião. Veja, a preocupação é a seguinte: um contentor que vem do Brasil para Angola custa 4 mil USD, e para vir dos EUA custa 2 mil USD porquê? Os EUA ficam aqui em África? Tem alguma coisa de errado nisso. Um contentor que sai de Santos para Angola, muitas vezes, ele vai a Singapura. Eu não estou dizendo isso da minha boca. Há um estudo que comprova isso, que mandei fazer em 2009. Vai aSingapura, depois para o Dubai, Durban e depois para cá, ou então ele vai a Roterdão e volta. Namelhor das hipóteses, vai a Espanha e vem para cá, isso não faz nenhum sentido.

Porque é que isso acontece…?
Estamos colonizados pelas grandes empresas de navegação de outros países. É como no tempo em que Angola e Brasil eram uma colónia, só que agora nem no tempo colonial era assim nessa dimensão. Mostraram-me um livro, um belo estudo que diz que, entre 1734 e 1777, 85% dos navios que aportavam em Luanda vinham do Brasil. Não era para levar só escravos, traziam tabaco, açúcar, cachaça. Não se mandava só gente para lá, havia um comércio e directo. Mandava-se betume e outros produtos, as viagens eram feitas porcaravela, expostas ao vento e todo o tipo de intempéries.
Hoje, com toda a tecnologia que a gente tem, com todos os recursos, estamos na mão de empresas desses países, porquê? Será que não sabemos navegar, será que não temos capital, ou não sabemos fazer navios? Sabemos, e temos demudar este panorama, porque Luanda pode se tornar num ponto consolidador de cargas dos países vizinhos para mandar para aAmérica do Sul.

O fluxo de cargas da eventual linha directa justificaria os custos de navegação?
Hoje não temos quantidade de produto que justifique uma linha directa, mas se você trouxer até à África do Sul, Cape Town vai ter produtos, e teríamos o ponto consolidador de cargas em dois dos ângulos, um em Angola e outro em Cabo Verde. Tem aquela velha questão, quem é que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Se houver demanda, tem navios; se tiver navios, tem demanda. Sabemos fazer navios e os estaleiros. Depois da queda do preço do petróleo, os estaleiros estão ansiosos.

Apesar dos laços que ligam os dois povos, concorda que o Brasil conhece pouco Angola?
De facto, não se conhece Angola no Brasil. O potencial de Angola não é conhecido pelo empresariado brasileiro. Numa conversa recente com o director da APEX, nossa agência de exportação e promoção dos produtos e serviços, dizia que tem de trazer os empresários para aqui. Porque essa fórmula mercantilística de eu te dar batata e tu me venderes puré de batata acabou, no Brasil também. Na Finlândia, eu ouvia as pessoas a reclamarem que é difícil exportar para o Brasil. E é, porque não podemos sequer exportar o puré de batata com a nossa batata. Vai fazer o puré lá no destino. É o mesmo que deve acontecer aqui, por isso aplaudimos a ideia de não depender mais de um só produto. O Governo angolano está a adoptar medidas para diversificar a economia, e verificamos isso ao aprovar uma nova lei de investimentos e de uma série de medidas que vêm aí. Se tudo correr bem, terão um pacto com o Brasil, difícil de calcular agora, aguardem pelos próximos capítulos.

Qual será o papel fundamental do centro cultural, ora inaugurado, nesta semana de comemorações do 193.º aniversário da independência do Brasil?
O centro cultural vai servir, entre outros aspectos da relação entre ambos os países, para a promoção de produtos brasileiros e mostrar o que está a ser feito pelos empresários angolanos e brasileiros, através de fóruns económicos, por exemplo, e actividades da Associação dos Empresários e Executivos Brasileiros em Angola.

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