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O lixo do mundo é o tesouro da China

24/09/2015 - 12:27, Asia, Global Report

Cerca de 70% do lixo electrónico do planeta acaba na China, onde é reciclado e convertido em novos aparelhos.

Por Paulo Narigão Reis | Fotografia Bloomberg

É uma das consequências mais visíveis da sociedade de consumo, mas a verdade é que só reparamos realmente no lixo quando começa a acumular-se nas nossas ruas. O mundo gera 3,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos por dia e espera-se que este valor duplique em 2025. Ora, o lixo de uns é o tesouro de outros, e o desperdício tornou-se, para alguns, um enorme negócio. Por alguns entenda-se a China, onde o lixo é uma indústria que gera milhares de milhões USD por ano.
Há lixo e há lixo, obviamente, e a China tornou-se no grande destino mundial do chamado lixo electrónico. Quando o deitamos fora, o mais certo é que o nosso velho e rapidamente obsoleto telemóvel atravesse meio mundo até à China, que, estima-se, recolhe cerca de 70% do e-waste, como se convencionou chamar ao lixo electrónico.
Em 2014, o planeta produziu 42 milhões de toneladas de lixo electrónico, das quais 6,5 milhões tiveram direito a reciclagem. Na categoria de lixo electrónico cabem, para além do telemóvel, todos os aparelhos indispensáveis à vida moderna, desde computadores e televisores a frigoríficos e microondas. Grande parte deles, diga-se, fabricados na China, o que faz do comércio tecnológico mundial numa espécie de pescadinha de rabo na boca: compramos um smartphone que, provavelmente, foi feito numa fábrica chinesa e, quando o deitamos fora, regressa à China, onde os materiais de que é feito são reciclados, separados e utilizados para fazer o nosso novo smartphone.
De todos os materiais de que são feitos os electrodomésticos e gadgets, os metais são os mais valiosos. Por exemplo, num moderno smartphone encontramos cobre, ouro, platina, alumínio e prata, para além de vários elementos de terra rara.

A cidade do lixo
Há mais de uma década que a cidade de Guiyu, na província de Guangdong, no Sudeste da China, é a capital mundial do lixo electrónico. A maior parte da sua população de 150 mil pessoas especializou-se em desmontar, desfiar e reciclar os aparelhos que o mundo deita fora.
As ruas da cidade estão repletas de fios, cabos, pedaços de plástico e metal, tudo devidamente separado. Nas muitas oficinas da cidade, milhares de pessoas trabalham na separação dos componentes, amiúde com as próprias mãos, quando se trata de abrir um cabo e separar os vários fios de metal.
Um dos principais clientes é a Foxconn, a empresa de Taiwan que é a maior fabricante mundial de componentes electrónicos do mundo, fornecendo gigantes globais como a Apple, Dell, Hewlett-Packard, Sony, Nintendo, Microsoft e Motorola.
Os elevados níveis de poluição constituem, naturalmente, o “downside” deste negócio de milhões, e nos últimos anos têm sido feitos alguns esforços para minimizar o problema.

Pegada ecológica
Ironicamente, ao assumir-se como potência mundial do lixo, a China está também a contribuir para reduzir a pegada ecológica do planeta. Oe-waste pode ser mais valioso, mas a nação asiática também aproveita vários tipos de metais, plásticos e papel. Neste último caso, por exemplo, a utilização de papel reciclado permite poupar cerca de 75% da energia necessária para produzir papel novo a partir de fibras virgens. Para além disso, reduz em 35% a poluição da água e em 74% a poluição atmosférica resultantes do fabrico de novo papel. Dito de outra maneira: por cada tonelada de papel reciclado, são salvas 30 árvores, poupa-se 26 mil litros de água e liberta-se três metros cúbicos de espaço utilizado como lixeira.
A primeira grande fortuna da China no que ao desperdício diz respeito foi, aliás, feita com o papel. Em 1994, Zhang Yin fundou a Nine Dragons Paper Holdings Limited, empresa que fez dela milionária e lhe valeu o epíteto de “rainha do lixo”. Hoje, a empresária é a quarta mulher mais rica da China, com uma fortuna pessoal avaliada em 4,4 mil milhões USD.
Antes do ano 2000, a China importava meio milhão de toneladas de papel por ano. Hoje, o número subiu para 30 milhões de toneladas. A recolha de papel era também praticamente residual antes da passagem do milénio. Hoje, a China reaproveita, por ano, 50 milhões de toneladas de papel.
O aproveitamento do metal gera também verdadeiras fortunas. A China Metals Recycling Association, que reúne as muitas empresas que fazem reciclagem de metal usado, calcula que o negócio valha, nesta altura, mais de 40 mil milhões USD por ano.

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