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Refugiados na Alemanha: benefícios superam custos

24/09/2015 - 16:35, Europa, Global Report

O fluxo migratório para a Alemanha poderá, a médio e longo prazo, resolver o declínio demográfico e reequilibrar a população activa.

Por Paulo Narigão Reis | Fotografia Corbis/VMI

A Alemanha tornou-se um exemplo humanitário para todo o mundo na gestão da crise migratória ao assumir a parte de leão no acolhimento de refugiados. Espera-se que a maior economia da Europa acolha, este ano, um total de 800 mil refugiados, quatro vezes mais do que em 2014, quando recebeu 203 mil pessoas em busca de asilo.
O custo de receber tanta gente – um número recorde – deverá custar ao erário público alemão cerca de 11 mil milhões USD, segundo contas feitas pelo jornal diário Frankfurter Allgemeine Zeitung. Porém, a médio e longo prazo, os benefícios deverão suplantar os custos. Ao contrário de muitos dos seus parceiros da União Europeia, com destaque para o Reino Unido, que vêem o fluxo migratório como uma ameaça à economia das suas nações, a Alemanha pode estar a ver muito mais à frente do que todos os outros.
É aqui que entra a demografia. Calcula-se que a população activa alemã encolha em 6 milhões de pessoas até 2030, à medida que o número de mortes supera o de nascimentos, tendência demográfica que, na realidade, está a afectar grande parte da Europa. Aexpressão Velho Continente ganha, assim, nova dimensão, e uma maneira de combater este encolhimento populacional passa, precisamente, por acolher cada vez mais imigrantes.
“Se conseguirmos, rapidamente, formar e colocar a trabalhar todos aqueles que chegam, resolveremos então um dos maiores problemas que o futuro da nossa economia enfrenta: a falta de mão-de-obra qualificada”, afirmou, perante o parlamento, o vice-chanceler e ministro da Economia, Sigmar Gabriel .
O custo por refugiado situar-se-á nos 14 mil USD por ano, em alojamento, alimentação, formação e pagamento de subsídio mensal. O valor não é de menosprezar, mesmo para uma economia robusta como a alemã, mas uma outra série de números mostra que a Alemanha pode ter muito a ganhar. Apopulação activa é de, actualmente, 45 milhões de pessoas, mas estima-se que, em 2030, seja de 36 milhões. Até 2035, cerca de 13 milhões de alemães passarão à reforma, mas o número de jovens que entrarão no mercado de trabalho para os substituir deverá andar à volta dos 7 milhões, pouco menos de metade. O acolhimento em massa de refugiados pode, assim, ser uma parte da solução, e não do problema, como é encarado em muitos outros países da União Europeia. Até porque os sírios, que constituem a maior parte dos refugiados, são predominantemente jovens e devidamente treinados em profissões desejadas, ou não fosse a Síria pré-guerra civil uma nação economicamente moderna.
“Dada a sua juventude e os anos de trabalho activo que têm pela frente, é provável que o encargo inicial, com o tempo, seja anulado pelo valor que darão à economia, através do seu trabalho e do pagamento de impostos”, considera o economista Carlos Vargas-Silva, do Centro para a Política de Migração da Universidade de Oxford, citado pelo site económico Marketplace.

Oportunidade
A Alemanha vê a maior crise global de refugiados desde a II Guerra Mundial não como um problema, mas como uma oportunidade. O pragmatismo e o interesse alemães não devem, no entanto, ser vistos como uma espécie de reverso da medalha da ajuda humanitária que a Alemanha assumiu como protagonista. Basta ver as imagens televisivas que, todos os dias, entram em nossas casas para ver a generosidade do povo alemão. Em Berlim, por exemplo, está já a ser feito um grande esforço para, desde já, começar a ensinar a língua alemã aos refugiados que enchem os centros de acolhimento.
A lógica é imbatível: quanto mais depressa aprenderem alemão, mais rapidamente terão possibilidades de integrar-se no mercado de trabalho. “Nos próximos meses, queremos que o máximo de pessoas possível receba uma decisão quanto ao seu estatuto de residência, de modo a poderem inscrever-se nos centros de emprego”, afirmou, na quinta-feira passada, a chanceler Angela Merkel durante uma visita a um centro de acolhimento na capital alemã. A chanceler, que falou com uma família que acabara de chegar da destruída cidade síria de Kobani, elogiou os esforços da população berlinense na resposta à crise: “Com milhares de refugiados a chegarem a Berlim todos os dias, estamos perante um enorme desafio. Mas tenho a sensação de que existe um nível incrível de motivação e muito entusiasmo em lidar com este desafio inacreditável.”
Um dia antes, Merkel encorajara, num discurso perante o Bundestag, os refugiados a procurar regularizar a sua situação o mais rapidamente possível e a enviar os filhos para a escola para aprenderem alemão. Só assim, afirmou a chanceler, será possível evitar a criação de “sociedades paralelas” entre os refugiados, com todos os perigos, sociais e não só, que daí poderão advir.
A elevada taxa de desemprego da Europa tem sido utilizada como argumento para os que recusam abrir as suas fronteiras aos refugiados. Mas em Dortmund, uma das maiores cidades da Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha, os empresários locais não vêem as coisas desse modo. Segundo a câmara de comércio local, praticamente um quarto das empresas da cidade tem, neste momento, lugares em aberto. “Os empregos existem, mas não há candidatos qualificados em número suficiente”, afirma um porta-voz da câmara de comércio, citado pela agência Reuters, que apresenta um exemplo prático.
Daniel Kok, proprietário de um pequeno negócio de assentamento de soalhos, andava há mais de um ano à procura de um novo empregado quando uma associação local lhe perguntou se estaria disposto a aceitar um refugiado. Kok disse que sim e, pouco depois, recebeu Tesfagebriel Abraha, um refugiado da Eritreia de 31 anos que nunca ouvira falar de um chão de parquet antes de começar a assentá-lo. Depois de um período experimental de duas semanas, Kok decidiu contratá-lo. E está, até agora, completamente satisfeito.

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